A pandemia de COVID-19 vai acabar em 2021?

A pandemia de COVID-19 vai acabar em 2021?

janeiro 4, 2021 0 Por admin


© Marcello Casal JrAgência Brasil




Da Sputnik

Campanhas de vacinação em massa iniciadas no fim de 2020 alimentam as esperanças de que a pandemia de COVID-19 esteja chegando ao fim. O que é necessário fazer para que em 2021 possamos voltar à “normalidade”?

Apesar de ter sido amplamente considerado um ano muito negativo, 2020 terminou com uma boa notícia: o início da campanha de vacinação em massa em diversos países do mundo.

Cerca de cinco milhões de pessoas em mais de 40 países já receberam vacinas como a da Pfizer, Moderna, a russa Sputnik V e a chinesa da Sinopharm.

No entanto, as campanhas de vacinação devem tomar tempo e muitos países ainda não tiveram acesso aos imunizantes.

Após período de festas no qual muitos brasileiros relaxaram nos cuidados relacionados à COVID-19, todos estão se perguntando como a pandemia vai se comportar em 2021.

As vacinas vão acabar com a pandemia?

Para que a pandemia seja controlada, é estimado que entre 60% e 80% da população devem estar imunizados de maneira consistente. Mundialmente, ainda estamos longe de atingir essa marca.

“Quanto maior for a cobertura vacinal de vacinas seguras e eficientes, maior será a chance de nós nos livrarmos dessa pandemia em 2021, esse é meu desejo, meu sonho e esperança”, disse o médico infectologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente do Instituto Vital Brazil, Edimilson Migowski, à Sputnik Brasil.

O primeiro desafio é o tempo: as principais vacinas disponíveis no mercado demandam duas doses, portanto cada paciente pode demorar pelo menos um mês para atingir a imunidade necessária.

O segundo desafio é a quantidade: apesar dos avanços, a capacidade produtiva mundial pode não ser suficiente para produzir vacinas para todos no ritmo necessário.

Agente de saúde abre caixa com doses da vacina contra a COVID-19 Sputnik V, em 2 de dezembro de 2020

© SPUTNIK / VLADIMIR ASTAPKOVICH – Agente de saúde abre caixa com doses da vacina contra a COVID-19 Sputnik V, em 2 de dezembro de 2020

A Coalisão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI, na sigla em inglês), estima que o mundo seja capaz de produzir entre dois bilhões e quatro bilhões de doses anuais de imunizantes contra a COVID-19.

Porém, o que mais preocupa é a distribuição da vacina: recente relatório publicado pela Universidade Johns Hopkins estima que cerca de 25% da população mundial deverão esperar até 2022 para tomar sua primeira dose.

Isso acontece porque países desenvolvidos, que detêm somente 18% da população mundial, reservaram 51% das doses de imunizantes disponíveis.

De acordo com a Oxfam, o Canadá teria reservado doses de vacinas suficientes para imunizar a sua população três vezes. 

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, recebe a vacina contra a COVID-19, Newark, Delaware, EUA, 21 de dezembro de 2020

© AFP 2020 / ALEX EDELMANO – presidente eleito dos EUA, Joe Biden, recebe a vacina contra a COVID-19, Newark, Delaware, EUA, 21 de dezembro de 2020

A organização, em consonância com instituições como o Médico Sem Fronteiras, pede que empresas do setor farmacêutico disponibilizem a patente das vacinas para agilizar e baratear a produção em países mais pobres.

Em 2020, ficou claro que ” o vírus em qualquer lugar é o vírus em todo lugar”, isto é, a pandemia é um problema transnacional, que não poderá ser combatido localmente.

A nova variante do vírus vai atrasar a sua contenção?

Em meados de dezembro, o governo do Reino Unido confirmou à Organização Mundial da Saúde (OMS) a detecção de uma nova mutação do novo coronavírus, que seria até 70% mais transmissível do que as cepas anteriores.

Apesar das restrições de viagens impostas por diversos países, a nova variante já está em circulação nos EUA, Austrália, Itália, Israel, Irlanda e Países Baixos.

“O vírus atualizado substituirá gradualmente as variantes existentes, devido às suas vantagens evolutivas”, disse o doutor em medicina e imunologista, Vladislav Zhemchugov, à Sputnik Brasil.

Pedestre passa ao lado de novo trabalho do artista de rua Banksy, na cidade de Bristol, Reino Unido, 11 de dezembro de 2020

© REUTERS / REBECCA NADEN – Pedestre passa ao lado de novo trabalho do artista de rua Banksy, na cidade de Bristol, Reino Unido, 11 de dezembro de 2020

Portanto, o início do ano de 2021 deve ser marcado pela imposição de novas restrições, com vistas a frear a velocidade da propagação da nova cepa e impedir a superlotação de hospitais e unidades de tratamento de terapia intensiva.

O especialista esclareceu que, felizmente, a nova cepa não causa sintomas mais severos nos pacientes infectados.

Além disso, “de acordo com relatórios de empresas que desenvolvem vacinas, os imunizantes já desenvolvidos serão eficazes no caso do SARS-CoV-2 atualizado”, disse Zhemchugov.

Como será a manutenção da imunidade de rebanho?

Uma vez atingida pela vacinação em massa, a imunidade de rebanho contra a COVID-19 deverá ser mantida no médio e longo prazo.

Apesar da eficácia de algumas vacinas contra a COVID-19, como a Sputnik V e os imunizantes da Pfizer e da Moderna, ultrapassarem a taxa de 90%, ainda não está clara a duração da imunidade adquirida.

Agentes da Saúde são vacinados com a vacina russa contra COVID-19, Sputnik V, em Buenos Aires, Argentina, 29 de dezembro de 2020

© SPUTNIK / PRESIDÊNCIA DA ARGENTINA – Agentes da Saúde são vacinados com a vacina russa contra COVID-19, Sputnik V, em Buenos Aires, Argentina, 29 de dezembro de 2020

O diretor do Centro Gamaleya, desenvolvedor da vacina Sputnik V, acredita que o imunizante poderá gerar resposta imunológica por pelo menos dois anos.

“O método usado na Sputnik V foi o mesmo usado na vacina contra ebola”, disse o diretor do centro, Aleksandr Gintsburg, à Sputnik. “Dados preliminares apontam que ela provê imunidade contra a doença por, no mínimo, dois anos.”

No entanto, o novo coronavírus, assim como o vírus da gripe, sofre mutações frequentemente, o que demanda que desenvolvedores da vacina atualizem seus componentes periodicamente.

Agente da Saúde recebe a primeira dose de vacina contra COVID-19, na Cidade do México, México, 27 de dezembro de 2020

© REUTERS / EDGARD GARRIDO – Agente da Saúde recebe a primeira dose de vacina contra COVID-19, na Cidade do México, México, 27 de dezembro de 2020

Nesse sentido, existe a possibilidade de a população precisar ser vacinada contra a COVID-19 periodicamente, de forma similar às campanhas anuais de imunização contra a gripe.

Como poderemos retomar a ‘vida normal’?

Na última semana de 2020, o principal especialista em doenças infecciosas dos EUA, Anthony Fauci, disse que a vida no país pode voltar à situação “mais ou menos parecida com a normalidade” no segundo semestre de 2021

“Até o início do outono [no Hemisfério Norte], teremos imunidade de rebanho o suficiente para realmente voltarmos a algo mais ou menos parecido com a normalidade: escolas, teatro, eventos esportivos e restaurantes”, disse Fauci.

No Brasil, esse período pode ser um pouco mais longo, uma vez que a campanha de vacinação em massa ainda não teve início.

Mesmo assim, esses eventos públicos não serão celebrados da maneira que eram antes do surgimento do novo coronavírus.

Sacerdote usando máscara de proteção contra COVID-19 durante a missa de Natal na Catedral de Manila, Manila, Filipinas, 25 de dezembro de 2020

© REUTERS / LISA MARIE DAVID – Sacerdote usando máscara de proteção contra COVID-19 durante a missa de Natal na Catedral de Manila, Manila, Filipinas, 25 de dezembro de 2020

O distanciamento social e restrição à lotação em locais fechados devem permanecer em voga em 2021.

“Depois de 2020, a vida não será como antes, acho que alguns hábitos saudáveis foram incorporados ao dia-a-dia das pessoas não só no Brasil mas no mundo como um todo”, acredita Migowski.

Além disso, o uso de máscaras pode tornar-se uma prática comum, como já é em países asiáticos, onde pessoas que apresentam sintomas leves de gripe tem o costume de usar máscaras protetoras.

“O brasileiro pode seguir aquilo que já vemos no Sudeste Asiático: quando uma pessoa está com máscara, ela não está com medo de você, ela está usando máscara em respeito a você”, acredita o presidente do Instituto Vital Brazil.

Uma inovação muito controversa esperada para 2021 corresponde a passaportes de vacinação contra COVID-19 para viagens internacionais.

Algumas companhias aéreas, como a australiana Quantas Airlines, já anunciaram que devem demandar prova de vacinação de passageiros interessados em voar em suas aeronaves.

Atendentes de casa de câmbio chinesa no aeroporto de Melbourne, Austrália, 5 de março de 2020

© AFP 2020 / WILLIAM WEST – Atendentes de casa de câmbio chinesa no aeroporto de Melbourne, Austrália, 5 de março de 2020

A medida será mais polêmica caso seja adotada por Estados soberanos, uma vez que existem pessoas que se posicionam contra a obrigatoriedade das vacinas.

Além disso, muitas pessoas que queiram se vacinar podem não ter acesso aos imunizantes, principalmente em países mais pobres, e consequentemente serem impedidas de viajar internacionalmente.

Apesar do rebuliço, a prática não seria inédita: diversos países da África e Ásia exigem vacinação contra a febre amarela para a entrada em seus territórios.

Brasileiro desembarca de voo proveniente do Reino Unido, no aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 2020

© REUTERS / PILAR OLIVARES – Brasileiro desembarca de voo proveniente do Reino Unido, no aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 2020

Atualmente, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês), prepara projeto para o lançamento de um passaporte sanitário, no qual os passageiros poderão computar seu histórico de vacinação antes de embarcar em voos internacionais.

O início das campanhas de vacinação em massa em 2020 é, portanto, o fim do começo do combate à pandemia de COVID-19, que deve manter a sua influência em 2021.

“A vida não será como antes, teremos provavelmente uma vida mais saudável, com menos doenças infecciosas, não só a COVID-19”, concluiu Migowski.

A pandemia de COVID-19 infectou quase 83 milhões de pessoas e gerou quase dois milhões de mortes mundialmente em 2020. Os países com maior número de vítimas fatais pela doença são EUA, Índia e Brasil, de acordo com a Universidade Johns Hopkins (EUA).