Déficit de R$ 743 bilhões: ‘A economia brasileira está na UTI’, afirma economista

Déficit de R$ 743 bilhões: ‘A economia brasileira está na UTI’, afirma economista

janeiro 30, 2021 0 Por admin


© Antonio Cruz/Agência Brasil




Da Sputnik

As contas do governo registraram em 2020 déficit primário recorde de R$ 743,087 bilhões – um valor que representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. As informações foram divulgadas nesta quinta-feira (28) pela Secretaria do Tesouro Nacional.

Para efeito de comparação, o déficit de 2020 é 666,5% maior que o registrado em 2019, que foi de R$ 95,065 bilhões.

“Estes números devem gerar um alerta. A economia brasileira está na UTI”, afirma Gil Castello Branco, economista, fundador e secretário-geral da ONG Contas Abertas, em entrevista à Sputnik Brasil.

Tanto Castello Branco como o também economista Mauro Rochlin, professor dos cursos de MBA da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, afirmam que o rombo das contas públicas do Brasil em 2020 é fácil de ser explicado: a pandemia, ao mesmo tempo em que demandou muitas despesas públicas, também reduziu a arrecadação tributária, em decorrência da crise.

Rochlin explica que os altos valores gastos com benefícios como o auxilio emergencial, com recursos destinados a estados e municípios e com o pagamento de complementação de salários por parte do setor publico geraram o desequilíbrio nas finanças do país. Só a Previdência, em todo o ano passado, registrou um déficit de R$ 269,8 bilhões.

“Antes da pandemia, a projeção para o ano passado de resultado orçamentário teria sido cerca de 80 a 100 bilhões. […] Acabou se registrando um número sete vezes maior”, lembra Rochlin, em entrevista à Sputnik Brasil.

Especialistas alertam para o possível retorno do ‘orçamento de guerra’

Ambos os economistas alertam, no entanto, que o grande risco para a economia brasileira é o que ainda está por vir. Com a pandemia voltando a registrar números tão altos quanto os do pico da primeira onda, em 2020, cresce a pressão no governo para que os mesmos benefícios e recursos sejam garantidos novamente.

“Há uma pressão muito grande para que volte o auxílio emergencial e o benefício para que as empresas possam reduzir salários proporcionalmente à jornada”, destaca Castello Branco.

Caso os benefícios voltam a ser concedidos, o Brasil corre o risco de perder investimentos estrangeiros, uma vez que o governo do país não mostraria “preocupação com a responsabilidade fiscal”, diz Castello Branco. Em consequência, o país perderia credibilidade nas agências de avaliação de risco de crédito e sofreria com a fuga de capital estrangeiro, o que levaria ao aumento do dólar, gerando juros, inflação e desemprego.

“Este será o resultado se nada for feito se nós agora voltarmos a conceder todos os benefícios que foram concedidos durante a pandemia, durante o orçamento de guerra”, diz Castello Branco.

Novas cédulas de 200 reais emitidas pelo Banco Central do Brasil

© REUTERS . ADRIANO MACHADO – Novas cédulas de 200 reais emitidas pelo Banco Central do Brasil

‘É insustentável o pagamento do auxílio emergencial por muito tempo’, afirma economista

O auxílio emergencial é um ponto-chave da equação do governo. Uma pesquisa do Datafolha divulgada nesta segunda-feira (25) mostra que 69% dos brasileiros que receberam o auxílio emergencial não encontraram outra fonte de renda para substituir o benefício. Em 2020, o Brasil voltou a atingir a marca negativa de 14 milhões de famílias na miséria: 39,9 milhões de brasileiros têm renda de até R$ 89 por pessoa, por mês.

Segundo uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicada em novembro, 13% da população do Brasil (cerca de 20,7 milhões de pessoas) deixou de comer porque “não havia dinheiro para comprar mais comida” durante a pandemia de COVID-19.

Se por um lado os cidadãos brasileiros necessitam do auxílio, por outro, os gastos com o benefício são de grandíssimo porte para os cofres públicos. O auxílio emergencial soma um gasto de R$ 25 bilhões por mês. Para efeito de comparação, o Bolsa Família demanda um investimento de R$ 34 bilhões ao ano.

“É insustentável o pagamento do auxílio emergencial por muito tempo. […] Esta situação é um alerta para se entender a necessidade de socorrer os mais necessitados, mas ao mesmo tempo se preocupar em preservar a saúde fiscal. Se isso não acontecer, isso pode levar a uma situação extremamente grave. Ou melhor: grave, ela já é. Vai se tornar ainda mais grave”, avalia Castello Branco.

Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, conversam com jornalistas em Brasília, 27 de janeiro de 2021

© REUTERS / UESLEI MARCELINO – Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, conversam com jornalistas em Brasília, 27 de janeiro de 2021

A prorrogação do auxílio emergencial, no entanto, segue sem definição. Apesar de o auxílio ser visto como importante fator eleitoral para Bolsonaro, o presidente disse, em dezembro, que “perpetuar” benefícios é o “caminho certo para o insucesso”.

“O tabuleiro está posto, mas as pedras ainda podem se mover em várias direções. […] Ainda que para este ano se espere um número [de déficit] muito menos pior que o do ano passado”, diz Rochlin.

Caso seja imprescindível a prorrogação do auxílio emergencial, o governo federal deveria, na opinião de Castello Branco, negociar com o Congresso a aprovação de outras medidas, em troca da extensão do benefício. Ele cita, como medidas que poderiam receber atenção especial, as Reformas Tributária e Administrativas.

“É preciso que se tenha muita responsabilidade. Ao menos, se for inevitável a concessão destes benefícios, que isso seja negociado com o Congresso para que se consiga a aprovação das reformas em um espaço curto de tempo”, diz Castello Branco.

Movimentação em agência da Caixa Econômica na cidade de Curitiba (PR), para recebimento do auxílio emergencial para pelo governo

© FOLHAPRESS / EDUARDO MATYSIAK/FUTURA PRESS – Movimentação em agência da Caixa Econômica na cidade de Curitiba (PR), para recebimento do auxílio emergencial para pelo governo

Este foi o sétimo ano consecutivo em que as contas públicas do Brasil registraram déficit. O último ano em que o Brasil teve um superávit primário foi em 2013, com as arrecadações superando os gastos em R$ 72,1 bilhões.