{"id":238953,"date":"2024-08-31T16:47:31","date_gmt":"2024-08-31T16:47:31","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=238953"},"modified":"2024-08-31T16:47:31","modified_gmt":"2024-08-31T16:47:31","slug":"marcias-bar-e-um-espaco-de-amor-e-resistencia-sapatao-no-coracao-da-cidade-baixa-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=238953","title":{"rendered":"M\u00e1rcia&#8217;s Bar \u00e9 um espa\u00e7o de amor e resist\u00eancia sapat\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o da Cidade Baixa em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>M\u00e1rcia Ferreira de Oliveira, de 50 anos, e M\u00e1rcia Dornelles, de 59, s\u00e3o um casal h\u00e1 quatro anos. Quem as v\u00ea durante a noite, atendendo clientes e se desdobrando entre o caixa e a cozinha da simp\u00e1tica garagem na Rua Joaquim Nabuco, pouco ou nada imagina da hist\u00f3ria dessas mulheres.<\/p>\n<p>O ano era 2021 quando se conheceram pela internet, por insist\u00eancia de amigos. A M\u00e1rcia Oliveira morava em Carlos Barbosa, a M\u00e1rcia Dornelles, em Porto Alegre, mas como diz a frase j\u00e1 conhecida no meio l\u00e9sbico: &#8220;caminh\u00e3o gosta de rodar&#8221;. Assim, elas encaravam longas horas de estrada para estarem juntas.<\/p>\n<p>O tempo era de pandemia e quando a M\u00e1rcia de Porto Alegre, funcion\u00e1ria p\u00fablica, come\u00e7ou a trabalhar em home office, ela n\u00e3o pensou duas vezes: pegou um computador e subiu a Serra para ficar pr\u00f3xima da companheira.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/brasildefators_enchentes\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/assets\/7f79d3d45758c62a8dbbe78cfa5148e4.gif\"><\/a><\/p>\n<p>L\u00e1 moraram at\u00e9 o ano de 2022. M\u00e1rcia Ferreira, que \u00e9 natural de Artigas e foi adotada por uma fam\u00edlia de Quara\u00ed &#8211; depois mudou pra Serra Ga\u00facha &#8211; estava cansada do seu trabalho, e resolveu que queria viver de outra forma. Voltaram a Porto Alegre com um sonho e muita vontade de fazer acontecer.<\/p>\n<p>Quando questionadas, uma fala sobre a outra, com a mesma naturalidade de quem fala sobre si mesma. Um tipo de casal-entidade, daqueles que se entende apenas com o olhar. Se tratam com carinho, se elogiam, se exaltam. Sempre tem uma palavra bonita para falar a respeito da outra.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, a vontade era ter um empreendimento: pensaram em pizza, compraram os equipamentos, mas enfrentaram a desconfian\u00e7a e o preconceito. &#8220;Ningu\u00e9m acreditava em mim, eu era muito maluquinha. At\u00e9 que conheci a M\u00e1rcia, que me aceitou e acreditou em mim&#8221;, relata Dornelles. &#8220;Ela quem me salvou, junto com meu filho.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu disse pra ela: voc\u00ea escolhe, a vida de &#8216;loucuragem&#8217; ou eu&#8221;, complementa Oliveira.<\/p>\n<p>Montaram uma barraca de churrasquinho na garagem de casa. Era um come\u00e7o, que ainda n\u00e3o tinha muito movimento e por isso acabavam fechando cedo. At\u00e9 que um dia, um colega da mesma rua &#8211; de outro bar &#8211; aconselhou: gurias, fiquem hoje at\u00e9 mais tarde. &#8220;Parece que Deus despejou um balde de gente na rua. Aquele dia n\u00f3s bombamos!&#8221;<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/bd6e156fd3b4fe4474419fcc4c896ea9.webp\"><br \/>\nE assim, foi se estabelecendo um lugar acolhedor e plural na Cidade Baixa \/ Foto: Rafa Dotti<\/p>\n<p>E assim, foi se estabelecendo um lugar acolhedor e plural na Cidade Baixa. Aos poucos, foram ampliando a cozinha, o card\u00e1pio (que hoje conta com quitutes variados e sempre preparados no dia) e o espa\u00e7o, que antes das <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/topicos\/enchentes-no-rs\">enchentes<\/a> costumava ter karaok\u00ea, jukebox e um balc\u00e3o de drinks.<\/p>\n<p>As duas trabalham muito. Recebem fornecedores, fazem encomendas, arrumam o espa\u00e7o. &#8220;Quem tem bar quase n\u00e3o tem vida&#8221;, desabafa Dornelles. Ela conta que costuma ficar no caixa, mas que n\u00e3o gosta de ficar sozinha nessa fun\u00e7\u00e3o. Diz que fica com saudade da companheira, que \u00e9 respons\u00e1vel pela cozinha.<\/p>\n<p>&#8220;Eu confio muito quando a M\u00e1rcia est\u00e1 na cozinha, sei que vai ficar tudo perfeito, ela \u00e9 muito cuidadosa.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu sou \u00e9 muito chata&#8221;, revida a outra.\u00a0As duas sorriem, c\u00famplices.<\/p>\n<p>M\u00e1rcia Ferreira conta que trabalhou por muito tempo como terceirizada numa cozinha industrial: &#8220;L\u00e1 tudo era muito organizado, muito certinho e eu aprendi assim. Hoje, no bar, a cozinha \u00e9 simples, mas \u00e9 muito, muito limpa. Eu gosto de ter tudo arrumadinho.&#8221;<\/p>\n<p>A maior parte do p\u00fablico frequentador \u00e9 LGBTQIAPN+ e elas percebem que as pessoas gostam mais ainda do bar quando descobrem que s\u00e3o um casal.<\/p>\n<p>Ferreira conta que quando era adolescente, sua m\u00e3e a \u201cempurrava\u201d para namorar homens, mas que ela nunca aceitou. Dornelles foi casada com um homem e tem filhos desse relacionamento, que hoje s\u00e3o assumidos pela companheira: \u201cA minha filha se d\u00e1 melhor com a M\u00e1rcia (Ferreira) do que comigo. As duas se entendem muito. A Marcele, agora \u00e9 filha nossa&#8221;.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o se fortalece com o apoio dos amigos e da fam\u00edlia. M\u00e1rcia Dornelles ri, lembrando de um anivers\u00e1rio da companheira, onde seus amigos foram mais presentes do que no seu pr\u00f3prio anivers\u00e1rio. Uma \u00e9 geminiana, a outra \u00e9 leonina e o di\u00e1logo \u00e9 a base do relacionamento delas.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo que a gente brigue, uma hora a gente se entende. Um lado ou outro sempre cede. Eu fa\u00e7o por ela e ela faz por mim&#8221;, pondera Oliveira. Mas para viajar e aproveitar a vida, \u00e9 ali que elas sempre combinam. Agora est\u00e3o planejando uma viagem de carro at\u00e9 o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Quem d\u00e1 a \u00faltima palavra &#8211; tanto no bar quanto em casa &#8211; \u00e9 M\u00e1rcia Oliveira. \u201cEla \u00e9 sargentona!&#8221;, diz Dornelles, entre risos.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/79cf28b36a481bab811018e53a296b62.webp\"><br \/>\nJuntas, elas encaram as perip\u00e9cias de ter um bar na Cidade Baixa. Desde os inc\u00f4modos corriqueiros, como alguns clientes inconvenientes, at\u00e9 a devasta\u00e7\u00e3o que a enchente causou em maio deste ano \/ Foto: Rafa Dotti<\/p>\n<p>Juntas, elas encaram as perip\u00e9cias de ter um bar na Cidade Baixa. Desde os inc\u00f4modos corriqueiros, como alguns clientes inconvenientes, at\u00e9 a devasta\u00e7\u00e3o que a enchente causou em maio deste ano. O bar ficou submerso, muitos equipamentos foram perdidos, elas estavam apreensivas com o risco de assaltos na regi\u00e3o e ainda tiveram dengue. Mas juntas, elas se cuidaram, como sempre fazem, deram as m\u00e3os e recome\u00e7aram. Limparam o lodo e refizeram o espa\u00e7o, sem nenhum tipo de aux\u00edlio do Poder P\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8220;No primeiro dia que abrimos depois da enchente, veio muita gente! Foi uma alegria e uma esperan\u00e7a! Foi bonito de ver, porque eu n\u00e3o queria mais voltar&#8221;, conta Dornelles. &#8220;Eu sonhava, e chegava a passar perfume nas narinas por causa do cheiro que ficou. Mas agora passou.&#8221; Os planos delas pro futuro incluem seguir trabalhando, e juntar dinheiro para tirar f\u00e9rias.<\/p>\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o pode reclamar da nossa clientela. Tem bastante gente muito legal. A maioria \u00e9 LGBT, mas vem hetero tamb\u00e9m. As vezes a gente se engana, cobra menos, e o pessoal vem acertar. Tem gente que retira seus copos, ajuda a recolher as mesas. E quando descobrem que a gente \u00e9 um casal, eles ficam muito felizes.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu sei que realmente existe o racismo e o preconceito. Eu morei em Carlos Barbosa, que \u00e9 uma cidadezinha pequena e muito complicada. Mas eu sei o que sou e de onde eu vim e isso n\u00e3o me abala. Gra\u00e7as a Deus, aqui eu n\u00e3o sofro isso&#8221;, desabafa Oliveira.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/2cd6ddb600c5f5ae0db921d7b00e141b.webp\"><br \/>\n&#8220;Eu sei que realmente existe o racismo e o preconceito. Mas eu sei o que sou e de onde eu vim e isso n\u00e3o me abala. Gra\u00e7as a Deus, aqui eu n\u00e3o sofro isso&#8221; \/ Foto: Rafa Dotti<\/p>\n<p>O bar \u00e9 considerado pelos clientes como um bom lugar para tomar aquela \u00faltima cerveja &#8211; as mesas na cal\u00e7ada resistem madrugada adentro, apesar da repress\u00e3o do poder municipal. E ainda leva a fama de ter o melhor pastel da regi\u00e3o &#8211; com recheio montado \u00e0 escolha do cliente, e em dois tamanhos. E a certeza de que as duas estar\u00e3o l\u00e1, recebendo os clientes no seu ritmo, que tamb\u00e9m \u00e9 o ritmo da tradicional boemia da cidade.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/eb70c07e34f3c7f590665da3c9d167df.webp\"><br \/>\nO bar \u00e9 considerado pelos clientes como um bom lugar para tomar aquela \u00faltima cerveja &#8211; as mesas na cal\u00e7ada resistem madrugada adentro, apesar da repress\u00e3o do poder municipal \/ Foto: Rafa Dotti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elas s\u00e3o duas. O nome \u00e9 o mesmo, mas as personalidades s\u00e3o completamente diferentes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1554,1427,254,1469,653,1385,1205,752,659,414,968,1267,265,1055,1431,1196,273,748,268,415],"class_list":["post-238953","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-1554","tag-bar","tag-caixa","tag-cerveja","tag-cliente","tag-dinheiro","tag-enchentes","tag-ferias","tag-filhos","tag-homens","tag-internet","tag-maio","tag-mulheres","tag-pandemia","tag-porto-alegre","tag-presentes","tag-racismo","tag-rio","tag-rio-de-janeiro","tag-trabalho"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/238953","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=238953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/238953\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=238953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=238953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=238953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}