{"id":277520,"date":"2024-09-30T20:55:44","date_gmt":"2024-09-30T20:55:44","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=277520"},"modified":"2024-09-30T20:55:44","modified_gmt":"2024-09-30T20:55:44","slug":"crimes-contra-a-natureza-tem-que-virar-crimes-hediondos-defende-ambientalista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=277520","title":{"rendered":"&#8216;Crimes contra a natureza t\u00eam que virar crimes hediondos&#8217;, defende ambientalista"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/09\/27\/eleicoes-2024-ausencia-de-propostas-para-crise-climatica-expoe-descompasso-politico-no-norte-do-pais\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0teve 21% do seu territ\u00f3rio desmatado, o Cerrado j\u00e1 perdeu 51%, a Catinga 50% e o <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/08\/27\/em-39-anos-bioma-pampa-perdeu-3-3-hectares-aponta-mapbiomas\">Pampa<\/a>\u00a0pode acabar na pr\u00f3xima d\u00e9cada. Diante dessas amea\u00e7as, o agr\u00f4nomo Alvaro Delatorre invoca uma rea\u00e7\u00e3o imediata. Para ele, \u00e9 preciso deixar de tratar a natureza como mercadoria, a ser explorada visando exclusivamente o lucro em curt\u00edssimo prazo.<\/p>\n<p>\u00c9 imperioso ainda travar a devasta\u00e7\u00e3o com uma s\u00e9rie de medidas, entre elas um castigo severo para incendi\u00e1rios, desmatadores e outros inimigos do meio ambiente. Urge tamb\u00e9m atualizar o Imposto Territorial Rural (ITR), atrav\u00e9s do qual a Uni\u00e3o arrecada menos em um ano do que a prefeitura de S\u00e3o Paulo recolhe em apenas <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/23\/brasil-arrecada-menos-com-imposto-sobre-terrenos-rurais-do-que-sao-paulo-com-iptu-de-apenas-quatro-bairros\">tr\u00eas meses de IPTU<\/a>.<\/p>\n<p>Nas pr\u00f3ximas linhas, Delatorre, que integra o Setor de Produ\u00e7\u00e3o do\u00a0Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no RS (MST\/RS), conta isso e muito mais. E n\u00e3o poupa as prefeituras que, nas suas palavras, est\u00e3o menos interessadas em proteger a natureza do que em contratar o cantor sertanejo Gusttavo Lima. Confira:\u00a0 \u00a0<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS: Vou come\u00e7ar perguntando sobre a situa\u00e7\u00e3o no estado e no pa\u00eds. Como est\u00e1 o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/25\/helicoptero-viveiros-e-mutiroes-como-o-mst-pretende-plantar-100-milhoes-de-arvores-ate-2030\">projeto do MST de plantar 100 milh\u00f5es de \u00e1rvores<\/a>?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Delatorre:\u00a0<\/strong>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 desesperadora. Nada visto na hist\u00f3ria da humanidade. Est\u00e1 acontecendo aquilo que a gente j\u00e1 havia denunciado h\u00e1 muito tempo. O capitalismo \u00e9 capaz de promover uma ruptura metab\u00f3lica socioambiental. E faz isso porque interpreta a natureza como mercadoria. Transforma todos os bens da natureza em mercadoria e faz esse rompimento socioambiental.<\/p>\n<p>O que acontece na Amaz\u00f4nia \u00e9 um exemplo mais claro. A Amaz\u00f4nia \u00e9 cultivada h\u00e1 milh\u00f5es de anos pelos povos de l\u00e1 em simbiose entre homem e natureza. A presen\u00e7a do capital rompe isso de tal forma que a natureza possa ser s\u00f3 um instrumento de lucro. \u00c9 a s\u00edntese.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Tudo o que estamos vivendo, como o aquecimento global e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e seus efeitos, tem a ver justamente com um sistema que se apropria da natureza enquanto um bem e pensa apenas no curt\u00edssimo prazo?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Quem explora a natureza na perspectiva do lucro, est\u00e1 imbu\u00eddo de um prop\u00f3sito de curt\u00edssimo prazo. Esta \u00e9 a quest\u00e3o de fundo. O resto \u00e9 decorr\u00eancia. O Estado neoliberal, que sucateia as estruturas p\u00fablicas, n\u00e3o cumpre a sua fun\u00e7\u00e3o de fiscaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 motivado por essa perspectiva. Seu discurso nega a crise clim\u00e1tica, nega o aquecimento global, nega as estruturas de Estado que tem o papel de cuidar do ambiente natural. E esse recurso&#8230;<\/p>\n<p><strong>Logo, a grande amea\u00e7a que a Amaz\u00f4nia est\u00e1 sofrendo \u00e9 uma amea\u00e7a que pode ser debitada na conta do capitalismo e dos capitalistas.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o existe essa separa\u00e7\u00e3o entre o que est\u00e1 acontecendo e a presen\u00e7a do capital. Na nossa interpreta\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica n\u00e3o d\u00e1 para pensar nela desvinculada da estrutura fundi\u00e1ria. No Brasil, o problema clim\u00e1tico \u00e9 uma quest\u00e3o agr\u00e1ria. A quest\u00e3o agr\u00e1ria, a partir de tudo que est\u00e1 acontecendo \u2013 da forma como usamos os recursos naturais, o solo \u2013 transformou-se em [algo] central.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ambiental n\u00e3o est\u00e1 separada da agr\u00e1ria. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Amaz\u00f4nia, viu? S\u00e3o todos os nossos biomas. A Amaz\u00f4nia tem 21% do seu territ\u00f3rio desmatado e isso j\u00e1 passa de 800 mil hectares. O Cerrado est\u00e1 com mais de 51% de desmatamento, a Caatinga est\u00e1 tamb\u00e9m com mais de 50% de desmatamento. A Caatinga est\u00e1 invadindo territ\u00f3rios do Cerrado. J\u00e1 tem mais de 250 mil hectares do Cerrado que virou Caatinga.<\/p>\n<p>Mas o caso da Amaz\u00f4nia \u00e9 mais alarmante porque, nesse \u00faltimo per\u00edodo, aquilo que conhecemos como o &#8220;pulm\u00e3o do Mundo&#8221; emitiu mais gases de efeito estufa do que absorveu de di\u00f3xido de carbono. Um santu\u00e1rio \u2013 e n\u00e3o falo essa express\u00e3o por acaso, porque acho que alguns lugares no Brasil precisam virar santu\u00e1rio e parar com essa hist\u00f3ria de querer explorar petr\u00f3leo nesses lugares \u2013 mas, nessas \u00faltimas semanas, a Amaz\u00f4nia n\u00e3o cumpriu com a sua fun\u00e7\u00e3o. Segundo alguns pesquisadores, est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de irreversibilidade. Chegamos no limite da sua explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia s\u00f3 existe porque construiu um microclima que permite a sua exist\u00eancia. Na hora que voc\u00ea desmata, que substitui uma \u00e1rvore que tem uma capacidade enorme de reciclar \u00e1gua e transforma isso num pasto que tem uma capacidade muito menor de reciclar \u00e1gua, \u00e9 l\u00f3gico que vai dar problema. A natureza n\u00e3o tem mais tempo para esperar.<\/p>\n<p><strong>Mas esse mesmo capitalismo que nos fez chegar a esse ponto, est\u00e1 tentando se reinventar atrav\u00e9s do dito capitalismo verde.<\/strong><\/p>\n<p>Na nossa perspectiva, \u00e9 uma falsa promessa. Quando a gente ouve na imprensa que &#8220;o Agro \u00e9 tec, o Agro \u00e9 pop, o Agro \u00e9 tudo&#8221;. \u00c9 uma venda de ilus\u00e3o. Todas as tentativas do capital de se reciclar diante disso \u00e9 venda de ilus\u00e3o para manter a sua taxa m\u00e9dia de lucro. \u00c9 o que acontece com os cr\u00e9ditos de carbono. N\u00e3o v\u00e3o alterar em nada o aquecimento global. Se a minha atividade econ\u00f4mica \u00e9 deficit\u00e1ria, eu compro cr\u00e9dito de carbono de algu\u00e9m que, na sua atividade, \u00e9 superavit\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o. O que precisamos \u00e9 outra estrat\u00e9gia de desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>A ministra Marina Silva, no lan\u00e7amento do Comit\u00ea de Emerg\u00eancia da Situa\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica, disse que dever\u00edamos ter come\u00e7ado a agir l\u00e1 em 1992, na Eco 92&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Volto a insistir na minha tese inicial. O discurso negacionista est\u00e1 a servi\u00e7o do capital. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Marina. Tem pesquisadores s\u00e9rios que j\u00e1 vinham chamando aten\u00e7\u00e3o para esse aspecto. \u00c9 parte de uma mesma estrat\u00e9gia. Por isso que na \u00e9poca da covid-19, houve pesquisadores que chamavam de agrocovid&#8230;<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 agrocovid?<\/strong><\/p>\n<p>A covid-19 \u00e9 o resultado da presen\u00e7a do capital nesses territ\u00f3rios e do aquecimento global. Existe um v\u00edrus mas que est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de harmonia com aquele ambiente. A\u00ed, a presen\u00e7a do capital exp\u00f5e esse v\u00edrus. Ent\u00e3o, ele encontra num sistema de produ\u00e7\u00e3o, por exemplo, um campo de concentra\u00e7\u00e3o de aves, sofre uma press\u00e3o, se altera e isso passa a ser um problema. Pode contaminar o ser humano e trazer as consequ\u00eancias (graves). Por isso, muitos pesquisadores chamam de agro v\u00edrus. Agora, n\u00f3s temos a agro fuma\u00e7a, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>O MST lan\u00e7ou o plano Plantar \u00c1rvore, Produzir Alimenta\u00e7\u00e3o Saud\u00e1vel e se desafiou nos munic\u00edpios onde tem algum tipo de influ\u00eancia, nos nossos assentamentos, a plantar 100 milh\u00f5es de \u00e1rvores. Nosso objetivo eram tr\u00eas. O primeiro \u00e9, efetivando essa meta, elevamos a consci\u00eancia ambiental. Porque o ato de plantar uma \u00e1rvore n\u00e3o pode ser um ato mec\u00e2nico. Tem que ser um ato de amor \u00e0 natureza e com aquele territ\u00f3rio. Tem que preservar essa \u00e1rvore. Por isso, a gente diz que n\u00e3o abrimos covas mas ber\u00e7os. Nesse ber\u00e7o a gente deposita uma vida que precisa ser cuidada.<\/p>\n<p>Quando o MST diz que precisamos plantar 100 milh\u00f5es de \u00e1rvores, \u00e9 porque entendemos que, fazendo isso, a gente constr\u00f3i uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e uma consci\u00eancia ambiental maior. O ato de plantar tem que ser consciente pelo que representa.<\/p>\n<p><strong>Quando falas em territ\u00f3rios, seria nos assentamentos da reforma agr\u00e1ria e nos acampamentos?<\/strong><\/p>\n<p>Sobretudo nos assentamentos. Mas temos situa\u00e7\u00f5es diferentes. Temos acampamentos que existem h\u00e1 15 ou 20 anos. N\u00e3o s\u00e3o assentamentos porque n\u00e3o foi emitida a posse da terra para o Incra e, portanto, o instituto ainda n\u00e3o efetivou o assentamento.<\/p>\n<p>Temos plena consci\u00eancia de que, s\u00f3 por conta da nossa for\u00e7a, somos insuficientes. A gente precisa da solidariedade da sociedade. Ent\u00e3o, esse \u00e9 o primeiro objetivo. O segundo objetivo \u00e9 a gente continuar fazendo as den\u00fancias de tudo aquilo que est\u00e1 acontecendo. \u00c9 uma resist\u00eancia ativa. Vem do ato de plantar mas tamb\u00e9m da a\u00e7\u00e3o de den\u00fancia. E tem um terceiro grande objetivo, que \u00e9 ter uma elabora\u00e7\u00e3o popular sobre a quest\u00e3o ambiental. N\u00e3o a partir da perspectiva do capital mas da perspectiva popular. Ainda n\u00e3o fizemos o balan\u00e7o deste ano, mas em n\u00edvel nacional estamos com 25 milh\u00f5es de \u00e1rvores plantadas.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quanto tempo que foi lan\u00e7ado o plano?<\/strong><\/p>\n<p>No final de 2019&#8230;<\/p>\n<p><strong>Teve a pandemia&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Que teve a pandemia, n\u00e3o \u00e9? Que aqui no Rio Grande do Sul tu plantas \u00e1rvores em junho, julho e agosto. \u00c9 o per\u00edodo. Ent\u00e3o, praticamente 2019 n\u00e3o existiu. Foi s\u00f3 o lan\u00e7amento. De fato, as a\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a acontecer. De despertar o Movimento para a quest\u00e3o. No fundo, tamb\u00e9m queremos ecologizar o Movimento. Mas n\u00e3o s\u00f3 o MST. A gente precisa ecologizar a CUT. A gente precisa ecologizar a gente precisa ecologizar a vida. N\u00e3o tem outra alternativa.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel das prefeituras na quest\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Por qu\u00ea? J\u00e1 disseste que o estado e a Uni\u00e3o s\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es. A rigor, n\u00e3o existem. O que existe \u00e9 a vida que se d\u00e1 nos munic\u00edpios. Portanto, sob a supervis\u00e3o das prefeituras. S\u00f3 que as prefeituras andam devagar, quase parando, nesse aspecto de cuidar da natureza. Como est\u00e1 isso?<\/strong><\/p>\n<p>As prefeituras est\u00e3o preocupadas \u00e9 em contratar o Gusttavo Lima para fazer show. A\u00ed tu queres o qu\u00ea? \u00c9 dif\u00edcil. Em s\u00edntese, \u00e9 isso mesmo. As pessoas vivem nos munic\u00edpios. E quando acontece qualquer tipo de cat\u00e1strofe&#8230; Estou dizendo isso porque vivenciamos isso em Nova Santa Rita [munic\u00edpio da Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre]. Em menos de 365 dias, o munic\u00edpio sofreu quatro cat\u00e1strofes ambientais. Uma por conta da seca. Quando n\u00e3o tens \u00e1gua para beber, quem te leva a \u00e1gua \u00e9 o prefeito ou a prefeita. \u00c9 a prefeitura que tem que disponibilizar de recursos, de pessoas, de equipamento.<\/p>\n<p>Nos territ\u00f3rios camponeses, aqui no caso\u00a0 especificamente Nova Santa Rita e Eldorado Sul, temos muita gente que faz horta. No ver\u00e3o, \u00e9 natural que a produ\u00e7\u00e3o reduza pelo d\u00e9ficit h\u00eddrico. Quem tem que ter um programa de incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de bacias para capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, de a\u00e7udes, po\u00e7os artesianos, \u00e9 a prefeitura. Quando acontece um vendaval, como aconteceu faz pouco e destelhou quase 100 casas, as pessoas foram buscar lona com a prefeitura. E depois brasilit, telha, o que for.<\/p>\n<p>Perguntei ao presidente da Famurs (Federa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios do RS) &#8220;o que voc\u00eas v\u00e3o fazer para tomarem consci\u00eancia de que quem ampara as pessoas s\u00e3o as prefeituras?&#8221; Elas devem tomar consci\u00eancia dessa problem\u00e1tica e botar no plano diretor a\u00e7\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p>Tenho um exemplo que vale a pena contar. Maring\u00e1, no Paran\u00e1, aprovou uma lei dizendo que, para cada carro vendido pelas concession\u00e1rias locais, deveria se plantar uma \u00e1rvore. Est\u00e1 na lei municipal. Foi aprovada e perdurou por mais de 10 anos e nunca a prefeitura havia feito nenhuma a\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o a isso. Motivado por esse plano, o MST pediu uma audi\u00eancia com o prefeito e disse &#8220;queremos executar esse passivo&#8221;. Em dois anos, plantamos 80 mil \u00e1rvores no assentamento Eli Vive&#8230;<\/p>\n<p><strong>A prefeitura deu os recursos?<\/strong><\/p>\n<p>A prefeitura comprou as mudas e n\u00f3s oferecemos territ\u00f3rios para esse plantio. As concession\u00e1rias e a prefeitura ampararam com assist\u00eancia t\u00e9cnica, essa coisa toda.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 o suficiente para resolver o problema da emiss\u00e3o de gases de efeito estufa. Valeria a pena at\u00e9 a gente fazer esse estudo de fato: quantas \u00e1rvores a gente precisa plantar para poder compensar a fabrica\u00e7\u00e3o de um carro?<\/p>\n<p><strong>\u00c9 algo que a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Munic\u00edpios e aqui a Famurs poderia levar adiante.<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza. Mas eles querem o Gusttavo Lima.<\/p>\n<p><strong>Eles querem o Gusttavo Lima. Eles querem implantar o Gustavo Lima na cabe\u00e7a das pessoas.<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c9 o agro na cabe\u00e7a. E essas m\u00fasicas que&#8230; pelo amor de Deus. Ent\u00e3o, na medida em que as prefeituras tomam consci\u00eancia do seu papel, o que a fazemos com os curr\u00edculos escolares das escolas municipais? A quest\u00e3o ambiental tem que estar colocada.<\/p>\n<p>A gente sabe que o que promove o aquecimento global \u00e9 o capital. Mas se, no teu ato, n\u00e3o \u00e9s capaz de ter uma atitude que respeite a natureza, tu n\u00e3o lutas por coisas maiores. Se a gente faz a sele\u00e7\u00e3o do lixo em casa, somos capazes de tomar consci\u00eancia e fazer lutas maiores. Tens um ato pol\u00edtico que coincide com a tua pr\u00e1tica social. O ato de preservar, de zelar, de cuidar, de separar o lixo, o material recicl\u00e1vel, \u00e9 um ato consciente que te leva tamb\u00e9m a fazer lutas maiores.<\/p>\n<p><strong>Agora, tu deixaste uma bola picando para, por exemplo, todos os vereadores de Porto Alegre. Porque essa proposta de Maring\u00e1 \u00e9 muito interessante. At\u00e9 porque aqui talvez seja mais grave a situa\u00e7\u00e3o, na medida em que o prefeito (Sebasti\u00e3o Melo, do MDB) mandou derrubar 500 \u00e1rvores no Parque da Harmonia. Porque a nossa proposta \u00e9 mais derrubar \u00e1rvore do que plantar \u00e1rvore. Ent\u00e3o, os vereadores que t\u00eam sensibilidade, os progressistas, poderiam propor algo semelhante. N\u00e3o s\u00f3 no Harmonia mas na Reden\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 que estamos vivendo uma esp\u00e9cie de ecoc\u00eddio.<\/strong><\/p>\n<p>Mas essa \u00e9 a l\u00f3gica. O neoliberal est\u00e1 a servi\u00e7o do capital. N\u00e3o tem conversa.<\/p>\n<p><strong>Tem uma frase do (escritor uruguaio Eduardo) Galeano a qual diz que se a natureza fosse um banco j\u00e1 teria sido salva&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza.<\/p>\n<p><strong>E tu defendes que os crimes contra a natureza deveriam ser vistos como crimes hediondos. Alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina j\u00e1 t\u00eam nas suas constitui\u00e7\u00f5es, como a Bol\u00edvia, a Col\u00f4mbia, os direitos da natureza.<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o morrendo. Se o meu ato mata pessoas, o que eu fa\u00e7o tem que virar hediondo. N\u00e3o tem outra alternativa. Como vamos encarar a contamina\u00e7\u00e3o ambiental? Usando aqui uma express\u00e3o do Paulo Freire: &#8220;Para problemas dr\u00e1sticos, solu\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas tamb\u00e9m&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o tem jeito. As pessoas est\u00e3o morrendo agora, sufocadas. Vamos ter crise em S\u00e3o Paulo. Estamos vivendo quase a realidade que foi a covid. Nossos hospitais n\u00e3o d\u00e3o conta de atender as pessoas. Ent\u00e3o se o meu ato&#8230; Mas n\u00e3o \u00e9 do pe\u00e3o que botou fogo. Tem que penalizar o pe\u00e3o tamb\u00e9m. Mas tem que penalizar o propriet\u00e1rio que autorizou e que contratou o pe\u00e3o para fazer. Tem que virar crime hediondo pois mata pessoas e coloca em risco a presen\u00e7a do ser humano no planeta. Enquanto a gente n\u00e3o entender que \u00e1rvore tem direito&#8230; Por isso defendo a ideia dos santu\u00e1rios. Que o rio tem direito, os componentes da natureza t\u00eam direito. \u00c9 preciso rever isso juridicamente.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00ea fala que as pessoas v\u00e3o sofrer, que v\u00e3o morrer, \u00e9 preciso lembrar que, obviamente, o SUS vai ser sobrecarregado. O governo federal ter\u00e1 que investir mais recursos por conta de quem manda queimar floresta porque vai causar doen\u00e7as respirat\u00f3rias de modo quase pand\u00eamico, como est\u00e1 acontecendo agora no Brasil. Tem esse custo tamb\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma distor\u00e7\u00e3o no custo de produ\u00e7\u00e3o. Quando o capitalista levanta o custo de produ\u00e7\u00e3o da soja, da cana-de-a\u00e7\u00facar, do gado, ele n\u00e3o inclui nessa conta o custo social, as consequ\u00eancias e a press\u00e3o que isso vai ocasionar no SUS. E a\u00ed \u00e9 o Estado&#8230;Isso \u00e9 muito evidente no caso dos agrot\u00f3xicos. E temos subnotifica\u00e7\u00e3o dos problemas causados pelos agrot\u00f3xicos. Mas na composi\u00e7\u00e3o do custo n\u00e3o est\u00e1 colocado.<\/p>\n<p>Quando aconteceu o epis\u00f3dio em Nova Santa Rita (<a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2021\/12\/06\/assentamento-em-nova-santa-rita-volta-a-ser-atingido-por-pulverizacoes-aereas-com-agrotoxico\">contamina\u00e7\u00e3o das lavouras org\u00e2nicas causada por pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de venenos agr\u00edcolas por parte de fazendeiros da regi\u00e3o<\/a>) as pessoas ficaram doentes. Onde buscaram socorro? Nos postos de sa\u00fade. No SUS. E no segundo epis\u00f3dio que tivemos em Nova Santa Rita, o prefeito destacou uma junta m\u00e9dica espec\u00edfica para atender as fam\u00edlias. Quem paga esse custo? A sociedade. No fundo, \u00e9 uma falsa composi\u00e7\u00e3o de custo.<\/p>\n<p><strong>O Brasil teria que tratar agrot\u00f3xicos como se trata o cigarro, o tabaco. H\u00e1 uma carga de imposto e de cobran\u00e7a social pelo uso daquilo.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o a ser considerada. O fato \u00e9 que o Brasil deixa de arrecadar de R$ 10 a R$ 12 bilh\u00f5es por ano devido \u00e0 isen\u00e7\u00e3o do ICMS e do imposto industrial dos agrot\u00f3xicos. E al\u00e9m de deixar de arrecadar, gasta para resolver o problema das contamina\u00e7\u00f5es das pessoas que chegam ao SUS.<\/p>\n<p><strong>As pessoas podem perguntar de onde vir\u00e1 o dinheiro para enfrentarmos todos esses riscos ambientais. J\u00e1 observaste a benevol\u00eancia que \u00e9 o ITR, o Imposto Territorial Rural, pago por esses grandes depredadores da natureza. E quando \u00e9 pago. \u00c9 porque com o ITR, um tributo federal, a Uni\u00e3o arrecada muito pouco. E notas que a cidade de S\u00e3o Paulo arrecada mais de IPTU do que o Brasil inteiro de ITR.<\/strong><\/p>\n<p>Posso precisar um pouquinho mais esse dado agora, que \u00e9 de estudo feito pelo Instituto Escolhas. \u00c9 o seguinte: a arrecada\u00e7\u00e3o do IPTU da cidade de S\u00e3o Paulo de tr\u00eas meses, n\u00e3o \u00e9 do ano inteiro, \u00e9 mais do que o Brasil arrecada de ITR. A Uni\u00e3o arrecada, em m\u00e9dia, R$ 2,5 bilh\u00f5es por ano de ITR. Se f\u00f4ssemos apenas fazer um ajuste pela infla\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos anos, sair\u00edamos desses R$ 2,5 bilh\u00f5es para R$ 35 bilh\u00f5es de ITR. A gente teria R$ 30 bilh\u00f5es para a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o, de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, de valoriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, da soberania alimentar, para fazer a reforma agr\u00e1ria. \u00a0<\/p>\n<p><strong>O Brasil \u00e9 muito rico, mas tem um congresso que francamente&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>De novo, volta a primeira quest\u00e3o: tudo ao servi\u00e7o do capital.<\/p>\n<p><strong>Falaste da Amaz\u00f4nia, do Cerrado, mas temos aqui o bioma Pampa. O pesquisador Val\u00e9rio Pilar, da UFRGS, adverte que, se seguirmos a destrui\u00e7\u00e3o como est\u00e1 indo, o Pampa n\u00e3o resiste a mais 15 anos. E o Pampa \u00e9 um bioma que fundamental para o ecossistema. E a gente viu isso agora com as enchentes no estado.<\/strong><\/p>\n<p>De novo, presen\u00e7a do capital. Quem est\u00e1 ocupando esse territ\u00f3rio? \u00c9 o plantio de soja. Defendo a tese que, no bioma Pampa, deveria ser proibido plantar soja e milho. Nenhum agr\u00f4nomo de s\u00e3 consci\u00eancia poderia prescrever plantio de soja e milho nesses territ\u00f3rios. N\u00e3o tem zoneamento clim\u00e1tico para isso. N\u00e3o existe. O que nos deixa mais apavorados \u00e9 que ningu\u00e9m fiscaliza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a destrui\u00e7\u00e3o dos campos nativos. Falo tamb\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o das matas ciliares, muito presentes no Pampa. Est\u00e3o destruindo reservas ambientais. Est\u00e3o derrubando as matas ciliares como aconteceu no Vale do Taquari. E elas funcionam como esponjas. S\u00e3o fundamentais para evitar o assoreamento dos rios. Protegem os cursos d&#8217;\u00e1gua e que tem capacidade de reciclar \u00e1gua nesses territ\u00f3rios. Quando destr\u00f3is tudo e colocas soja no lugar \u00e9 evidente que isso n\u00e3o tem futuro. Estamos apostando numa perspectiva sem futuro. E acontece no Pampa e no Cerrado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, estamos fazendo uma op\u00e7\u00e3o pela presen\u00e7a do capital que est\u00e1 interessado \u00fanica e exclusivamente em ter lucro em detrimento desses ecossistemas e dessa biodiversidade. E das popula\u00e7\u00f5es que ali vivem.<\/p>\n<p><strong>Quando se olha para o Pampa ela parece um descampado mas, na verdade, \u00e9 muito rico com uma biodiversidade imensa de tr\u00eas mil esp\u00e9cies de animais e plantas. \u00c9 interessante que o bioma pode conviver bem com herb\u00edvoros, ou seja, gado, mas n\u00e3o com a soja.<\/strong><\/p>\n<p>Os pecuaristas familiares est\u00e3o no <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/01\/05\/rs-estudo-mostra-que-area-do-pampa-tem-potencial-absorvedor-de-gases-do-efeito-estufa\">Pampa <\/a>h\u00e1 200 anos e convivendo com o territ\u00f3rio e essa biodiversidade. No caso do Pampa, tenho defendido a tese de proibir o plantio de soja e de milho. N\u00e3o tem zoneamento clim\u00e1tico para isso.<\/p>\n<p><em>* Este texto \u00e9 uma vers\u00e3o reduzida da entrevista ao podcast De Fato, do Brasil de Fato RS. Assista:<\/em><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Envolvido em projeto para plantar milh\u00f5es de \u00e1rvores, agr\u00f4nomo \u00c1lvaro Delatorre quer puni\u00e7\u00e3o severa para incendi\u00e1rios<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1255,2046,723,389,452,2051,1517,695,1498,1411,302,1754,1757,777,2066,1176,995,701,1376,1039,1160,1837,1464,1648,423,1510,1838,1385,710,916,1205,1179,1099,1358,1748,453,2026,1493,959,42,434,243,2073,1951,1513,345,1945,396,894,1623,2131,1914,431,1212,202,709,1055,1100,703,1431,1196,1244,852,590,1042,1504,1308,432,748,790,1214,136,1115,1999,848,2130,584,2177,960,1677,284,2124,881],"class_list":["post-277520","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acoes","tag-agosto","tag-alimentacao","tag-alimentos","tag-amazonia","tag-america-latina","tag-aquecimento-global","tag-arrecadacao","tag-atividade-economica","tag-audiencia","tag-aves","tag-biodiversidade","tag-bolivia","tag-brasil","tag-cana-de-acucar","tag-casas","tag-colombia","tag-congresso","tag-covid-19","tag-credito","tag-credito-de-carbono","tag-crise-climatica","tag-custo","tag-deficit","tag-denuncia","tag-desenvolvimento","tag-desmatamento","tag-dinheiro","tag-emergencia","tag-emissao-de-gases","tag-enchentes","tag-entrevista","tag-estudo","tag-exploracao","tag-familias","tag-floresta","tag-fogo","tag-governo","tag-governo-federal","tag-icms","tag-incra","tag-inflacao","tag-isencao","tag-julho","tag-junho","tag-lei","tag-lucro","tag-marina-silva","tag-meio-ambiente","tag-meta","tag-milho","tag-ministra","tag-mst","tag-mudancas","tag-mudancas-climaticas","tag-municipios","tag-pandemia","tag-pesquisadores","tag-petroleo","tag-porto-alegre","tag-presentes","tag-presidente","tag-producao","tag-producao-de-alimentos","tag-projeto","tag-proposta","tag-recursos","tag-reforma-agraria","tag-rio","tag-rio-grande-do-sul","tag-rs","tag-sao-paulo","tag-saude","tag-seca","tag-soberania","tag-soja","tag-trabalhadores","tag-transicao-energetica","tag-uniao","tag-uso","tag-vale","tag-venda","tag-visto"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/277520","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=277520"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/277520\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=277520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=277520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=277520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}