{"id":307470,"date":"2024-10-22T00:18:23","date_gmt":"2024-10-22T00:18:23","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=307470"},"modified":"2024-10-22T00:18:23","modified_gmt":"2024-10-22T00:18:23","slug":"exclusao-social-no-neoliberalismo-abre-caminho-ao-crime-organizado-e-ao-extremismo-religioso-avalia-marcio-pochmann","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=307470","title":{"rendered":"Exclus\u00e3o social no neoliberalismo abre caminho ao crime organizado e ao extremismo religioso, avalia Marcio Pochmann"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>O neoliberalismo foi consolidado no Brasil na d\u00e9cada de 1990 e alterou profundamente as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e de trabalho. O fim de uma era de industrializa\u00e7\u00e3o deixou boa parte da popula\u00e7\u00e3o fora do sistema, redirecionado ao modelo agroexportador e \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. O que gerou, conforme o economista e presidente do <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/05\/20\/ibge-avalia-realizacao-de-pesquisa-para-mensurar-desastre-no-rio-grande-do-sul\">Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica <\/a>(IBGE), <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2023\/08\/18\/com-lula-e-simone-tebet-pochmann-assume-ibge-base-de-dados-para-pensar-o-brasil\">Marcio Pochmann<\/a>, uma massa sobrante, para quem o capitalismo n\u00e3o tem nada a oferecer. Caminho aberto, segundo ele, para o crime organizado e o extremismo religioso.<\/p>\n<p>Nesta entrevista ao <strong>Brasil de Fato RS<\/strong>, Pochmann aborda diversos desafios pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais que surgem com as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Entre elas, est\u00e3o: o crescimento da <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/01\/26\/como-vivem-os-monstros-um-panorama-da-extrema-direita\">extrema direita<\/a> com seu discurso antissistema, quando talvez seja a pr\u00f3pria ordem; os perigos do monop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o concentrado nas big techs para a soberania nacional; as mudan\u00e7as geopol\u00edticas mundiais que est\u00e3o alterando o perfil das cidades brasileiras; a crise na economia do Rio Grande do Sul; e quest\u00f5es pol\u00edticas que barram o desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/amigosdobrasildefators\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/assets\/48f64e87b7241043b1f513dd7879699d.gif\"><\/a><\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS &#8211; A gente vive uma realidade mundial\u00a0em que as big techs, as grandes corpora\u00e7\u00f5es da internet, det\u00eam mais dados dos pa\u00edses\u00a0do que o pr\u00f3prio pa\u00eds. Como fica a soberania nacional nessa situa\u00e7\u00e3o, se um pa\u00eds tem suas informa\u00e7\u00f5es capturadas e conhecidas por empresas estrangeiras?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcio Pochmann &#8211;\u00a0<\/strong>O\u00a0presidente Lula tem falado a respeito disso. N\u00f3s estamos, de certa maneira, num conflito\u00a0que diz respeito \u00e0 governan\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vamos voltar no tempo: depois da Guerra dos 30 Anos, de 1618 a 1648, houve o desenlace da Igreja Cat\u00f3lica\u00a0no estabelecimento do que havia de estados, imp\u00e9rios, reconhecimento de territ\u00f3rios. No caso do Brasil, na era do descobrimento, antes disso, o Acordo de Tordesilhas [1494] estabelecia os limites\u00a0e passava pela Igreja Cat\u00f3lica. A\u00a0Guerra dos 30 Anos, de certa maneira, imp\u00f5e uma separa\u00e7\u00e3o, e a\u00ed se constituem os chamados estados nacionais, que v\u00e3o ganhar difus\u00e3o\u00a0no s\u00e9culo 20, especialmente ao final da Segunda Guerra Mundial [1939-1945].<\/p>\n<p>Esse processo de cria\u00e7\u00e3o dos estados nacionais\u00a0pressup\u00f4s\u00a0identificar fronteiras geogr\u00e1ficas\u00a0e,\u00a0ao mesmo tempo, a governan\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o, ou seja, atrav\u00e9s da dimens\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, de quantos jovens, quantas crian\u00e7as havia. At\u00e9 ent\u00e3o, at\u00e9 o s\u00e9culo 16, 17, havia contagem de popula\u00e7\u00e3o, mas com vistas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de ex\u00e9rcitos para a guerra.<\/p>\n<p>Isso muda em 1790, quando os Estados Unidos realizam o primeiro censo demogr\u00e1fico, feito para contar a popula\u00e7\u00e3o para efeito da elei\u00e7\u00e3o, para saber quantos eleitores teriam e o n\u00famero de deputados naquele pa\u00eds. Ali vai se identificando cada vez mais que a governan\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es passa por informa\u00e7\u00f5es, por dados demogr\u00e1ficos, e \u00e9 o papel do Estado Nacional fazer isso.<\/p>\n<p>A tua pergunta refere-se justamente a uma situa\u00e7\u00e3o nova, que \u00e9 o poder crescente de poucas, mas grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, cujo faturamento ultrapassa o PIB [Produto Interno Bruto] de pa\u00edses. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma disputa de governan\u00e7a.<\/p>\n<p>O\u00a0IBGE levou 12 anos, desde 2010, o \u00faltimo censo, ao que n\u00f3s fizemos agora, divulgado em 2022. Exigiu 180 mil recenseadores para visitar 70 milh\u00f5es de domic\u00edlios. Tem um custo, que n\u00e3o \u00e9 pequeno, para a sociedade brasileira, mas \u00e9 importante que seja feito.\u00a0At\u00e9 foi feito com pouco recurso, e n\u00f3s estamos levando um, dois anos, talvez tr\u00eas, para divulgar todo o censo.<\/p>\n<p>Na era digital, n\u00f3s estamos diante de um capitalismo cada vez mais de vigil\u00e2ncia. As big techs s\u00e3o grandes empresas de tecnologia\u00a0que permitem que a gente acesse\u00a0a\u00a0internet\u00a0se conectado em alguma rede, aceitando sua pol\u00edtica de privacidade.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica que diz\u00a0\u201cvoc\u00ea pode entrar aqui na nossa rede, mas fique sabendo, voc\u00ea tem que aceitar que tudo que voc\u00ea postar, que utilizar, n\u00e3o lhe pertence, portanto, as fotos que voc\u00ea posta, os filmes, as m\u00fasicas, as compras, as mensagens, os pagamentos, os roteiros que voc\u00ea faz de percurso, tudo isso voc\u00ea utiliza, por\u00e9m, n\u00e3o lhe pertence\u201d.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 um conjunto de dados que,\u00a0ao final de cada dia, \u00e9 poss\u00edvel fazer um censo de um pa\u00eds, do mundo, pelo menos de todos que est\u00e3o conectados.\u00a0D\u00e1 para saber o que as pessoas fizeram, o que n\u00f3s fizemos ao longo do dia.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, na sociedade que tem tantas informa\u00e7\u00f5es, o que predomina \u00e9 a desinforma\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>As big techs fazem um censo por dia, ou seja, o que o IBGE faz de 10 em 10 anos, ela faz em um dia&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente, e mais do que isso, ela tem informa\u00e7\u00e3o online, atualizada\u00a0a todo momento. Portanto, essas big techs, que s\u00e3o estrangeiras, t\u00eam mais informa\u00e7\u00f5es que o pr\u00f3prio IBGE, t\u00eam mais informa\u00e7\u00f5es que o presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos assistindo a\u00ed uma disputa de um empres\u00e1rio, de uma grande empresa, Starlink, que entrou na guerra Ucr\u00e2nia e R\u00fassia.\u00a0Algo que a gente desconhecia sobre isso, ou seja, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 17, da Guerra dos 30 Anos, que n\u00e3o havia o setor privado entrando em guerras, governando popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos, inclusive, eu mesmo perten\u00e7o a uma universidade que praticamente colocou todas as suas informa\u00e7\u00f5es na m\u00e3o de uma empresa estrangeira, por qu\u00ea? Porque o correio eletr\u00f4nico \u00e9 feito por essa empresa estrangeira, ent\u00e3o todas as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o de posse dessa empresa.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m vai lembrar aqui do ChatGPT, que \u00e9 um avan\u00e7o importante etc. Mas de onde sai o conte\u00fado para as perguntas que a gente faz sobre o Brasil? Saiu de n\u00f3s mesmos, que doamos,\u00a0ao longo da pandemia, v\u00e1rias aulas que foram ministradas, debates.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o central do ponto de vista do que ser\u00e3o os pa\u00edses, do que ser\u00e1 a governan\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es nesse processo de digitaliza\u00e7\u00e3o,\u00a0em\u00a0que predomina um outro modo de organiza\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o \u00e9 uma sociedade letrada digitalmente. As pessoas at\u00e9 sabem teclar&#8230; Eu mesmo me considero um iletrado digital. A Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 preocupada com esse tema e estabeleceu um programa de letramento digital, com a meta de que, at\u00e9 2030, pelo menos 30% da popula\u00e7\u00e3o europeia esteja letrada digitalmente.<\/p>\n<p>O que \u00e9 letrada Saber que, por exemplo, ao fazer uma pergunta em uma rede, que a resposta varia conforme o perfil do usu\u00e1rio. Esse \u00e9 o grande risco. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, na sociedade com tantas informa\u00e7\u00f5es, o que predomina \u00e9 a desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Se dizia que informa\u00e7\u00e3o \u00e9 poder, hoje a gente pode dizer talvez o contr\u00e1rio, desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e9 poder<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00c9 outro paradoxo.\u00a0At\u00e9 esse letramento que tu falas, eu imagino que \u00e9 uma esp\u00e9cie de realfabetiza\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que digital.<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Se no passado, na era industrial, se dizia que informa\u00e7\u00e3o \u00e9 poder, hoje a gente pode dizer talvez o contr\u00e1rio, desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e9 poder.\u00a0Porque n\u00e3o se acredita mais em nada. N\u00f3s estamos tendo uma vulgariza\u00e7\u00e3o das estat\u00edsticas, o IBGE levanta 400 mil pre\u00e7os, vai em nove regi\u00f5es metropolitanas, nossos pesquisadores que levantam os pre\u00e7os e o IBGE divulga a infla\u00e7\u00e3o. A\u00ed algu\u00e9m vai no supermercado, filma e diz \u201colha, o pre\u00e7o da batata subiu 20%, a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 errada\u201d. Obviamente que n\u00e3o \u00e9 obrigado saber como se faz a infla\u00e7\u00e3o no Brasil, mas \u00e9 uma vulgariza\u00e7\u00e3o, uma descren\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 preocupante porque h\u00e1 o risco de n\u00f3s entrarmos numa nova era, uma nova Idade M\u00e9dia, como foi aquela que prevaleceu entre o s\u00e9culo 5, depois da destrui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano, at\u00e9 o s\u00e9culo 15, com a descoberta de Gutenberg e da imprensa. Durante praticamente 10 s\u00e9culos, com o fim do Imp\u00e9rio Romano [\u00a027 a.C. &#8211; 476 d.C.] , a Igreja Cat\u00f3lica passou a absorver todas as informa\u00e7\u00f5es nas suas pr\u00f3prias bibliotecas\u00a0enquanto predominava um profundo analfabetismo no mundo.\u00a0Tem um livro fant\u00e1stico, um filme tamb\u00e9m muito bom, <em>O Nome da Rosa<\/em>,\u00a0que mostra isso.<\/p>\n<p>\u00c9 o\u00a0que n\u00f3s estamos tendo hoje.\u00a0Ou seja, h\u00e1 uma monopoliza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e do conhecimento em pouqu\u00edssimas corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras. O risco, portanto, \u00e9 se difundir o analfabetismo digital\u00a0numa sociedade praticamente descrente de tudo, em que o governo vai ser cada vez mais aquele das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Tem ainda as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Aqui no Rio Grande do Sul estamos sentindo profundamente, tivemos as enchentes em maio, junho e, agora, estamos sufocando com as fuma\u00e7as dos inc\u00eandios criminosos. Situa\u00e7\u00f5es\u00a0que est\u00e3o se agravando e que geraram e v\u00e3o gerar mais desinforma\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Esse tema ganhou dimens\u00e3o e, obviamente, vai ser dominante, porque a acelera\u00e7\u00e3o dos problemas clim\u00e1ticos\u00a0est\u00e1\u00a0s\u00f3 no in\u00edcio.\u00a0Era importante que a sociedade organizada, que os partidos, que o poder Legislativo, Judici\u00e1rio, e o Executivo se dessem conta que n\u00f3s n\u00e3o estamos diante de fen\u00f4menos anormais, que acontecem de vez em quando. Isso \u00e9 um novo normal, n\u00f3s vamos conviver com problemas crescentes decorrentes do clima. E o Brasil n\u00e3o tem estudos, n\u00e3o se antecipa, ou seja, parece sempre lidar como se tudo fosse emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que n\u00f3s precisamos de pronto-socorro, porque acidentes ocorrem, algu\u00e9m atropelado sofre algum problema de sa\u00fade, ele tem que emergencialmente ser tratado. Mas n\u00f3s precisamos\u00a0de uma terapia que nos conduza a reconhecer que tem um problema estrutural.<\/p>\n<p>Por exemplo, n\u00f3s n\u00e3o sabemos, n\u00e3o h\u00e1 estudos, h\u00e1 especula\u00e7\u00f5es de outros pa\u00edses, de qual a dimens\u00e3o territorial vai ser afetada pela eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Porque isso \u00e9 inexor\u00e1vel, com a temperatura maior e o degelo da calota polar, isso eleva o n\u00edvel do mar, e, portanto, uma parte das cidades litor\u00e2neas v\u00e3o desaparecer.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos diante de quest\u00f5es estruturais. Isso significaria\u00a0que as diferentes esferas se dessem conta\u00a0que n\u00f3s estamos num outro patamar, um novo regime clim\u00e1tico chamado antropoceno, que pressup\u00f5e, na verdade, olhar a quest\u00e3o ambiental n\u00e3o como se fosse uma pol\u00edtica setorial.<\/p>\n<p>A\u00a0quest\u00e3o \u00e9 que o efeito clim\u00e1tico tem a ver com o Banco Central, tem a ver com o Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria, com os v\u00e1rios segmentos. Importante olhar isso de forma matricial, intersetorializada, e, de certa maneira, estabelecer institui\u00e7\u00f5es, preparar o pa\u00eds com a intelig\u00eancia e com capacidade de enfrentar situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o apenas o come\u00e7o, infelizmente.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>O\u00a0fanatismo religioso\u00a0e o banditismo social\u00a0s\u00e3o consequ\u00eancias diretas da predomin\u00e2ncia do receitu\u00e1rio neoliberal<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Voc\u00ea disse esses dias que h\u00e1 um processo gradativo, cont\u00ednuo, de decad\u00eancia das regi\u00f5es litor\u00e2neas do Brasil, enquanto o interior do pa\u00eds est\u00e1 se desenvolvendo. Eu gostaria que voc\u00ea comentasse um pouco isso. <\/strong><\/p>\n<p>A meu ju\u00edzo, n\u00f3s estamos numa rota que \u00e9 o inverso daquela que ocorreu no Brasil, desde o Imp\u00e9rio [1822-1889]. No per\u00edodo da Col\u00f4nia [1530-1822], havia o chamado exclusivismo metropolitano, ou seja, as col\u00f4nias s\u00f3 podem exportar para Portugal. Depois ouve a Libera\u00e7\u00e3o dos Portos para as Na\u00e7\u00f5es Amigas\u00a0e, entre 1808 e 1920, o principal parceiro comercial do Brasil foi a Inglaterra.\u00a0<\/p>\n<p>Nossas institui\u00e7\u00f5es naquele momento, a pr\u00f3pria Rep\u00fablica, est\u00e3o muito contaminadas pelos valores, pela ideologia, pela orienta\u00e7\u00e3o inglesa. Os investimentos que vieram do exterior, por exemplo, que permitiram a constru\u00e7\u00e3o das primeiras ferrovias no Brasil, eram aquelas que ligavam o interior aos portos.<\/p>\n<p>Era a ferrovia que desovava a produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 para o litoral, para o Oceano Atl\u00e2ntico, o que n\u00e3o se alterou drasticamente desde 1920 at\u00e9 2009, quando os Estados Unidos passaram a ser o principal parceiro comercial do Brasil.<\/p>\n<p>Desde 2009, o principal parceiro comercial do Brasil \u00e9 a China. Muda, em primeiro lugar, que o Oceano Atl\u00e2ntico j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o centro do com\u00e9rcio externo brasileiro. O centro do com\u00e9rcio externo \u00e9 cada vez mais o Pac\u00edfico. E, se n\u00f3s olharmos os investimentos que est\u00e3o sendo feitos, p\u00fablicos, privados e internacionais, s\u00e3o investimentos que ligam o Centro-Oeste, o Norte e uma parte do Sul aos pa\u00edses latino-americanos, visando a sa\u00edda para o Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, isso que eu quero dizer, h\u00e1 um inverso no s\u00e9culo XIX. Os investimentos est\u00e3o sendo organizados para viabilizar a log\u00edstica que leva para o Oceano Pac\u00edfico, porque se economiza tr\u00eas semanas de transporte, comparado com a sa\u00edda pelo Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Se olharmos o PIB dos munic\u00edpios, vemos tr\u00eas tipos no Brasil. Cerca de 10% a 15% s\u00e3o munic\u00edpios fantasmas, onde o PIB n\u00e3o cresce, est\u00e1 paralisado, a popula\u00e7\u00e3o jovem sai, e h\u00e1 um envelhecimento, vivendo praticamente de transfer\u00eancias fiscais.\u00a0<\/p>\n<p>O segundo grupo \u00e9 formado pelos munic\u00edpios das regi\u00f5es litor\u00e2neas. Geralmente, com exce\u00e7\u00f5es, s\u00e3o as metr\u00f3poles que outrora eram a base da ind\u00fastria e dos melhores empregos, mas, com a desindustrializa\u00e7\u00e3o, foram definhando. T\u00eam um crescimento econ\u00f4mico m\u00e9dio de 2% ao ano, e suas rendas per capita est\u00e3o estagnadas.\u00a0<\/p>\n<p>Agora, se voc\u00ea olha o interior de S\u00e3o Paulo, pegando um pouco de Paran\u00e1, Santa Catarina, e alguma coisinha do Rio Grande do Sul, e subindo rumo ao Centro-Oeste e parte do Norte, n\u00f3s vemos ali munic\u00edpios que crescem 6%, 7% ao ano, s\u00e3o praticamente munic\u00edpios com ritmo chin\u00eas. \u00c9\u00a0um outro pa\u00eds, \u00e9 outra configura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O\u00a0que vai acontecer com a popula\u00e7\u00e3o brasileira, 70% dela ainda residente a n\u00e3o mais de 200 quil\u00f4metros da regi\u00e3o oce\u00e2nica, do Oceano Atl\u00e2ntico? Porque isso est\u00e1 sendo cada vez mais um espa\u00e7o conflagrado com a presen\u00e7a predominante do que eu denomino como o novo sistema jagun\u00e7o, que \u00e9 a lideran\u00e7a do fanatismo religioso e do banditismo social.<\/p>\n<p>S\u00e3o quest\u00f5es\u00a0estruturais que n\u00e3o vamos resolver com a elei\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque a elei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 contaminada com o efeito do novo sistema jagun\u00e7o. Perpassam justamente por um novo sistema de dados do pa\u00eds e uma reflex\u00e3o do povo brasileiro a respeito do seu futuro.<\/p>\n<p><strong>Pode explicar melhor esse conceito do sistema jagun\u00e7o?\u00a0Acrescentando sobre algo que temos visto, um aumento da penetra\u00e7\u00e3o do crime organizado em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou privadas\u00a0&#8211; e n\u00f3s temos, toda semana, evid\u00eancias, digamos assim, daquela zona cinza, que voc\u00ea n\u00e3o sabe se \u00e9 exatamente legal ou ilegal\u00a0&#8211; como um avan\u00e7o na conquista do poder para facilitar o neg\u00f3cio do crime organizado.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o que estudo h\u00e1 algum tempo, com produ\u00e7\u00e3o sobre o tema. O fanatismo religioso e o banditismo social s\u00e3o consequ\u00eancias diretas da predomin\u00e2ncia do receitu\u00e1rio neoliberal. No in\u00edcio da Rep\u00fablica, em 1889, houve uma tentativa de industrializa\u00e7\u00e3o que foi derrotada, e a\u00ed acendeu a pol\u00edtica do caf\u00e9 com leite, a pol\u00edtica dos governadores etc.\u00a0Que assentou o liberalismo. O que era o liberalismo? Era o Estado m\u00ednimo, um liberalismo que patrocinava o capitalismo para poucos.<\/p>\n<p>Caio Prado [J\u00fanior, historiador e ge\u00f3grafo brasileiro] destacava que esse capitalismo gerava uma massa &#8220;inorg\u00e2nica&#8221; para o capital, composta pelas pessoas pobres do campo, sem futuro no sistema. Exemplo disso foi a Guerra de Canudos (1896-1897), com 25 mil pessoas vivendo em uma economia solid\u00e1ria, fora do capitalismo. Outro exemplo foi o canga\u00e7o de Virgulino Lampi\u00e3o, que reunia essa massa sobrante, praticando o justicialismo ao invadir fazendas.<\/p>\n<p>Isso acaba com a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, que organizou o desenvolvimento capitalista, que abriu espa\u00e7o para incorporar essa massa sobrante atrav\u00e9s do emprego assalariado formal, dando \u00e0s pessoas a oportunidade de ter um direito, o direito de se aposentar, de receber um sal\u00e1rio m\u00ednimo, de ter f\u00e9rias, descanso semanal, de ter representa\u00e7\u00e3o, o sindicato. Um sistema que dava identidade e pertencimento.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Para essa massa sobrante que n\u00f3s temos hoje, que eu calculo entre 60 a 70 milh\u00f5es de brasileiros, o capitalismo n\u00e3o tem nada a oferecer<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Com o receitu\u00e1rio neoliberal e a entrada do Brasil na globaliza\u00e7\u00e3o a partir de 1990, o capitalismo brasileiro foi definhando. Nos anos 80, cerca de 70% dos ocupados no Brasil estavam em atividades capitalistas, focadas no lucro e crescimento. Hoje, apenas 49% est\u00e3o vinculados a essas atividades, enquanto 12% est\u00e3o no setor p\u00fablico, e cerca de 40% se encontram em atividades de subsist\u00eancia ou economia popular, sem estrat\u00e9gia capitalista clara.<\/p>\n<p>Para essa massa sobrante que n\u00f3s temos hoje, que eu calculo entre 60 a 70 milh\u00f5es de brasileiros, o capitalismo n\u00e3o tem nada a oferecer.\u00a0\u00c9\u00a0uma massa sem destino. E\u00a0quem oferece destino? Porque o Estado, cada vez mais contido, distante das regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds, tem a oferecer bolsas que s\u00e3o fundamentais, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes, porque n\u00e3o oferecem um horizonte.<\/p>\n<p>De um lado, voc\u00ea tem aqueles que questionam esse horizonte, e, portanto, buscam as igrejas. E outros\u00a0que questionam que as igrejas tamb\u00e9m n\u00e3o oferecem tanto, e, portanto, passa por imediatismo. O imediatismo \u00e9 a ascens\u00e3o pelo crime. E isso obviamente est\u00e1 reorganizando o Estado brasileiro em novas bases.<\/p>\n<p>Grande parte do crime organizado s\u00e3o empreendimentos, tem bancos. Eles contaminaram o Estado e t\u00eam estrat\u00e9gias para financiar o estudo de jovens em faculdades de direito, que se formam e fazem cursinhos para a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e concursos p\u00fablicos, ocupando cargos no governo. Essas institui\u00e7\u00f5es se organizam tamb\u00e9m por meio de processos eleitorais, tendo um projeto de futuro.<\/p>\n<p>Enquanto o neoliberalismo continuar predominando, incapaz de absorver a todos, deixar\u00e1 as massas sobrantes cada vez mais vulner\u00e1veis ao crime e ao fanatismo religioso.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>A\u00a0direita tem um discurso antissistema, antiordem, quando talvez ela seja a pr\u00f3pria ordem<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>O que nos leva tamb\u00e9m para a extrema\u00a0direita. <\/strong><\/p>\n<p>A extrema\u00a0direita \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o do quanto ela \u00e9 antissistema. Ela est\u00e1 se colocando contra esse sistema, ainda que possa ser apenas uma ret\u00f3rica. Ao contr\u00e1rio da esquerda, que muitas vezes defende a ordem do jeito que est\u00e1 a\u00ed. Essa \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o enorme, porque\u00a0h\u00e1 uma defesa de uma ordem que est\u00e1, de certa maneira, com s\u00e9rios problemas de sustenta\u00e7\u00e3o, porque tamb\u00e9m est\u00e1 sendo contaminada pela pr\u00f3pria presen\u00e7a do crime e do fanatismo religioso.<\/p>\n<p>A\u00a0direita tem um discurso antissistema, antiordem, quando talvez ela seja a pr\u00f3pria ordem. Mas, do ponto de vista do jogo da ret\u00f3rica, do jogo eleitoral, ela se coloca contra tudo o que est\u00e1 a\u00ed, acreditando que a destrui\u00e7\u00e3o de tudo o que est\u00e1 a\u00ed gerar\u00e1 uma esp\u00e9cie de emerg\u00eancia das cinzas. Quando, obviamente, isso a\u00ed \u00e9 algo que dep\u00f5e contra qualquer m\u00ednimo de racionalidade nesse sentido.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos esquecer que tamb\u00e9m a esquerda. Os progressistas t\u00eam uma parte importante no que est\u00e3o fazendo e no que est\u00e3o dizendo. At\u00e9 que ponto a sua ret\u00f3rica, \u00e9, de fato, capaz de mudar a realidade?<\/p>\n<p><strong>E at\u00e9 que ponto \u00e9 capaz?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Trazendo para os dias de hoje, olhando o governo federal, eu n\u00e3o tenho d\u00favida que o governo do presidente Lula tem clareza dos limites em que ele assumiu o governo. \u00c9 ineg\u00e1vel que a direita n\u00e3o morreu. A direita est\u00e1 viva, vai disputar as elei\u00e7\u00f5es. Tentou um golpe de Estado\u00a0e\u00a0n\u00e3o est\u00e1 sendo simples compromet\u00ea-los.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 um governo\u00a0de transi\u00e7\u00e3o para uma possibilidade de transforma\u00e7\u00f5es mais profundas. O\u00a0que tem sido poss\u00edvel fazer at\u00e9 agora, diante dos limites impostos, \u00e9 recuperar aquilo que o governo do presidente Lula e da presidente Dilma haviam j\u00e1 estabelecido. Porque n\u00f3s tivemos um retrocesso ineg\u00e1vel de 2016 para c\u00e1.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio IBGE sofreu demasiadamente, sem concurso p\u00fablico, redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, problemas ser\u00edssimos de realiza\u00e7\u00e3o de pesquisas. Mas isso n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfico do IBGE. Isso \u00e9 uma coisa geral. A defesa da privatiza\u00e7\u00e3o, a destrui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, ou seja, reestabelecer isso nas condi\u00e7\u00f5es que o governo do presidente Lula assumiu n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p>Evidentemente que h\u00e1 uma expectativa do que pode ser feito \u00e0 medida que n\u00f3s possamos acumular for\u00e7as. Nesse sentido a quest\u00e3o eleitoral deste ano me parece muito importante para redefinir rumos e, obviamente, garantir que a democracia se sustente no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Nessas perspectivas, qual seria o papel dos Brics? Tu \u00e9s otimista quanto \u00e0s\u00a0possibilidades que ser\u00e3o abertas, ou que est\u00e3o sendo abertas? <\/strong><\/p>\n<p>Parto da hip\u00f3tese de que vivemos uma mudan\u00e7a de \u00e9poca com quatro eixos. O primeiro \u00e9 o deslocamento do centro din\u00e2mico dos Estados Unidos e do Ocidente para a China, abrindo espa\u00e7o para o Sul Global. O Brasil e a Am\u00e9rica se desenvolveram sob o eurocentrismo, mas, com o decl\u00ednio do Ocidente, temos menos a aprender com Europa e EUA. Agora, enfrentamos o apogeu do Oriente, sobre o qual sabemos pouco, e o Brasil, com os Brics, tem a chance de questionar e oferecer uma alternativa \u00e0 governan\u00e7a ocidental.<\/p>\n<p>O segundo eixo \u00e9 a era digital, que reconecta a sociedade de novas formas. O terceiro \u00e9 a mudan\u00e7a no regime clim\u00e1tico. O quarto eixo \u00e9 a mudan\u00e7a demogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>At\u00e9 1800, o mundo tinha cerca de 1 bilh\u00e3o de habitantes. De 1800 a 2000, a popula\u00e7\u00e3o mundial multiplicou-se por 10. Hoje, vemos uma inflex\u00e3o, com o Brasil prevendo regress\u00e3o populacional ap\u00f3s 2040 e pa\u00edses como China, Jap\u00e3o e It\u00e1lia enfrentando quedas significativas em suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9\u00a0uma mudan\u00e7a de \u00e9poca sobre a qual o Brasil precisaria tamb\u00e9m discutir. N\u00f3s estamos razo\u00e1veis, achamos razo\u00e1vel a popula\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos hoje? Com\u00a0212 milh\u00f5es num pa\u00eds de dimens\u00e3o continental, de baixa densidade demogr\u00e1fica, ser\u00e1 que n\u00f3s vamos aceitar mais imigrantes? Por que est\u00e1 havendo a queda na taxa de fecundidade? Por que as mulheres est\u00e3o tendo menos filhos? A gente sabe que est\u00e3o tendo, mas por qu\u00ea? Qual \u00e9 a raz\u00e3o? Falta pol\u00edtica p\u00fablica<\/p>\n<p>Perceba que mudan\u00e7a de \u00e9poca \u00e9, na verdade, um momento de grande questionamento, de oportunidade de disputar o futuro de forma diferente.<\/p>\n<p><strong>O Brasil est\u00e1 presidindo\u00a0o G20. Est\u00e1 acontecendo v\u00e1rios encontros, reuni\u00f5es importantes no Brasil, o que pouco se fala. A popula\u00e7\u00e3o em geral, na verdade, acho que pouco sabe sobre isso. E um dos debates que se faz no G20 \u00e9 justamente a quest\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o dos super-ricos, que o ministro da Economia, o Fernando Haddad, defende uma tributa\u00e7\u00e3o global. Como \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 vendo esse debate?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ele n\u00e3o \u00e9, de certa maneira, novo. Isso j\u00e1 vem do final dos anos 1960 e 1970, a teoriza\u00e7\u00e3o, propostas. E foi retomado,\u00a0agora,\u00a0nesse f\u00f3rum especial, o que \u00e9 o G20. \u00c9 realmente promissor nesse sentido, mas eu imagino que uma decis\u00e3o mais ampla que comece com os pa\u00edses do G20\u00a0precisar\u00e1 ganhar maior dimens\u00e3o, porque o vazamento de tributa\u00e7\u00e3o deve ocorrer na medida em que outros estados possam, na verdade, n\u00e3o se engajar nesse sistema de tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00ed vem uma quest\u00e3o adicional, o esvaziamento das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que \u00e9 um produto do final da Segunda Grande Guerra Mundial e, hoje, realmente, tem dificuldades de estabelecer, normatizar crit\u00e9rios de dimens\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Talvez os Brics possam tamb\u00e9m contribuir nesse sentido, porque, a partir do Sul Global, se olha o mundo noutra perspectiva, e n\u00f3s n\u00e3o esperamos mais o andar de cima do Norte Global, mas n\u00f3s mesmos vamos construir os nossos caminhos.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>A\u00a0raiz dos problemas que o estado do Rio Grande do Sul possui\u00a0est\u00e3o associadas ao pr\u00f3prio receitu\u00e1rio neoliberal<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>E est\u00e1 a\u00ed a \u00c1frica tamb\u00e9m para ser descoberta. Eu quero te fazer uma pergunta para voltar um pouco para as ra\u00edzes aqui, que \u00e9 o seguinte: nas \u00faltimas d\u00e9cadas, nos \u00faltimos 50 anos ou mais, o Rio Grande do Sul tem paulatinamente perdido protagonismo, tanto pol\u00edtico como econ\u00f4mico. Como \u00e9 que tu v\u00eas isso? <\/strong><\/p>\n<p>Nasci no Rio Grande do Sul, mas n\u00e3o sou um estudioso do estado. Associo a decad\u00eancia do Rio Grande do Sul \u00e0s decis\u00f5es tomadas no contexto neoliberal. Com o neoliberalismo, houve queda nas barreiras de importa\u00e7\u00e3o, abertura da conta de capitais, alta taxa de juros, valoriza\u00e7\u00e3o cambial, entre outros, comprometendo a estrutura produtiva interna voltada ao mercado interno.<\/p>\n<p>O estado era bem industrializado, mas o neoliberalismo trouxe um modelo econ\u00f4mico pouco favor\u00e1vel, focado em exporta\u00e7\u00f5es. A Lei Kandir [1996] isentou exporta\u00e7\u00f5es, deixando o governo estadual sem arrecada\u00e7\u00e3o fiscal. Ao mesmo tempo, com a desindustrializa\u00e7\u00e3o, houve uma expans\u00e3o de micro e pequenos neg\u00f3cios, que, pela legisla\u00e7\u00e3o do Simples, t\u00eam pouca tributa\u00e7\u00e3o, o que tamb\u00e9m retirou a base fiscal do estado.<\/p>\n<p>Com isso, o Rio Grande do Sul n\u00e3o conseguiu se adaptar \u00e0 nova din\u00e2mica econ\u00f4mica e, em alguns governos, fortaleceu a perspectiva neoliberal, desfazendo patrim\u00f4nios e cortando possibilidades de arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00a0raiz dos problemas que o estado do Rio Grande do Sul possui\u00a0est\u00e1 associada ao pr\u00f3prio receitu\u00e1rio neoliberal, que n\u00e3o atendeu \u00e0s necessidades locais e do povo ga\u00facho.<\/p>\n<p><strong>Interessante que quando o governo federal toma qualquer medida visando o desenvolvimento do pa\u00eds, tem uma afirma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou tenta fazer uma melhor distribui\u00e7\u00e3o de renda, logo se forma um coro de defensores do rigorismo fiscal, da eleva\u00e7\u00e3o da taxa de juros, do gasto social. A gente ainda vive isso muito fortemente, n\u00e9?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Precisamos compreender que o neoliberalismo se mant\u00e9m porque tem apoio social. Parte da sociedade \u00e9 benefici\u00e1ria e, por isso, controla os meios de comunica\u00e7\u00e3o e a base parlamentar. Essa parte utiliza sabiamente as oportunidades para manter o modelo praticamente intacto.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o tem d\u00edvida externa significativa, a d\u00edvida p\u00fablica \u00e9 em moeda nacional, sob controle do Estado. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 justificativa t\u00e9cnica para a alta taxa de juros que prevalece, que est\u00e1 acima da infla\u00e7\u00e3o e dificulta os neg\u00f3cios e as atividades produtivas.<\/p>\n<p>Isso desestruturou a classe dominante\u00a0do pa\u00eds. Como fal\u00e1vamos anteriormente, se tinha uma burguesia industrial, tinha Ant\u00f4nio Erm\u00edrio de Moraes [presidente do Grupo Votorantim de 1973 a 2001], para citar um, que era, na verdade, uma \u00e2ncora da produ\u00e7\u00e3o, uma disputa com o pr\u00f3prio capitalismo estrangeiro nesse sentido, porque guardava o interesse da produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Na medida em que voc\u00ea teve a domin\u00e2ncia do receitu\u00e1rio neoliberal, ou seja, voc\u00ea tem taxas de juros muito elevadas, fica mais f\u00e1cil voc\u00ea vender o seu neg\u00f3cio, converter o seu neg\u00f3cio em dinheiro e aplicar no seu financeiro. N\u00e3o tem risco algum e tem um ganho espetacular.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o houve uma convers\u00e3o de uma parte importante da burguesia industrial em rentistas, que anteriormente eram contra a taxa de juros, porque atrapalhavam os seus neg\u00f3cios e agora s\u00e3o defensores da taxa de juros, porque ali \u00e9 o ganho, \u00e9 o chamado rentismo, vive de rendas, rendas que n\u00e3o produz.<\/p>\n<p>Por outro lado, aquele segmento da burguesia industrial que conseguiu manter seu neg\u00f3cio e sua f\u00e1brica acaba se tornando uma esp\u00e9cie de comerciante. Ele\u00a0manteve a sua f\u00e1brica, por\u00e9m, s\u00f3 monta, ele compra l\u00e1 fora os componentes e monta aqui no Brasil. Ent\u00e3o esse \u00e9 amante da taxa de c\u00e2mbio valorizada, porque quanto mais valorizada a nossa moeda, \u00e9 mais barato comprar l\u00e1 fora e vender aqui dentro.<\/p>\n<p>A defesa sempre da valoriza\u00e7\u00e3o cambial no nosso pa\u00eds. Com isso, se compra barato l\u00e1 fora, vende caro aqui.\u00a0Esse giro n\u00e3o gera emprego decente, n\u00e3o gera recurso fiscal suficiente e mant\u00e9m a armadilha do Estado, que tem que pagar a taxa de juros elevadas, que tem que manter a taxa de c\u00e2mbio elevada, porque assim \u00e9 mais f\u00e1cil comprar l\u00e1 fora do que produzir internamente. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso, que nos est\u00e1 asfixiando j\u00e1 h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, \u00e9 uma elite que n\u00e3o est\u00e1 preocupada com o desenvolvimento do pa\u00eds.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. At\u00e9 o desenvolvimento pode ocorrer, sendo que esses ricos de hoje continuassem sendo beneficiados, mas n\u00e3o pelo rentismo. A meu ver, isso \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica. O Brasil tem uma poupan\u00e7a de recursos aplicados em t\u00edtulos p\u00fablicos acima de 70% do PIB, ou seja, o dinheiro est\u00e1 aqui, n\u00e3o precisa tomar dinheiro no exterior.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o, falta de tudo, falta casa, falta hospital, falta estrada, falta estrutura. Ou seja, tem espa\u00e7o para o investimento privado e, obviamente, p\u00fablico. Assim, esse dinheiro poderia ser investido nesses setores demandantes. \u00c9 claro que o retorno n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o vantajoso quanto a taxa de juros, a taxa de juros tem que ser muito menor.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem tecnologia, porque o que precisa ser feito no Brasil n\u00e3o precisa de tecnologia estrangeira. Temos m\u00e3o de obra qualificada, preparada para isso. Os fundamentos econ\u00f4micos est\u00e3o dados, n\u00e3o precisamos de ningu\u00e9m. Mas por que, se os fundamentos est\u00e3o adequados, o desenvolvimento n\u00e3o ocorre? Ocorre por uma quest\u00e3o pol\u00edtica, que impede o desenlace nesse sentido.<\/p>\n<p>Se colocarmos o recurso no sistema produtivo, garantimos que n\u00e3o haver\u00e1 recess\u00e3o e que n\u00e3o aumentar\u00e1 o pre\u00e7o da energia. Quem tem dinheiro fica em d\u00favida: se retirar do banco para abrir uma f\u00e1brica, levar\u00e1 um ano para produzir e, quando isso acontecer, o pa\u00eds pode estar em recess\u00e3o. \u00c9 um grande risco, e o papel do Estado \u00e9 garantir que, nesse per\u00edodo, haver\u00e1 crescimento econ\u00f4mico, dando seguran\u00e7a ao investimento.<\/p>\n<p><strong><em>(*) Vers\u00e3o resumida de entrevista ao podcast De Fato. Assista abaixo \u00e0 edi\u00e7\u00e3o completa<\/em><\/strong><\/p>\n<\/p>\n<hr>\n<p><a href=\"https:\/\/api.whatsapp.com\/send?phone=5551998132796&amp;text=Quero%20receber%20not%C3%ADcias%20do%20Brasil%20de%20Fato%20RS\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/238bbb7f5224bf3f2c5cee6f4a148fff.jpeg\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O economista e presidente do IBGE fala dos desafios frente \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas recentes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1554,1037,695,2123,547,572,2040,777,1419,554,871,2236,203,562,1229,2284,1834,2075,904,1464,1381,1508,403,2223,1510,1385,1126,531,1148,1819,710,1749,626,1543,2118,667,1205,795,1179,961,778,1099,883,1921,829,1813,1429,752,642,659,619,255,1762,1743,1493,959,663,110,1193,1045,813,243,968,1375,1288,78,884,1188,1513,632,309,345,743,1945,27,1267,1067,1632,1623,1770,1716,2206,1328,1212,202,265,709,2319,1923,1055,2257,1100,1962,635,1010,2003,833,586,1703,1244,921,984,852,1042,1509,814,1308,2198,549,1009,748,790,1214,70,1013,827,2137,136,1115,1983,605,1647,848,998,1968,1600,1772,2109,415,960,982,639,881],"class_list":["post-307470","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-1554","tag-acredita","tag-arrecadacao","tag-aumento","tag-banco-central","tag-bancos","tag-big-techs","tag-brasil","tag-brics","tag-cambio","tag-china","tag-cidades","tag-clima","tag-comercio","tag-comunicacao","tag-concurso","tag-concurso-publico","tag-concursos-publicos","tag-crescimento","tag-custo","tag-dados","tag-debate","tag-democracia","tag-desafios","tag-desenvolvimento","tag-dinheiro","tag-divida","tag-economia","tag-economista","tag-eleicoes","tag-emergencia","tag-empreendimentos","tag-emprego","tag-empregos","tag-empresario","tag-empresas","tag-enchentes","tag-energia","tag-entrevista","tag-estados","tag-estados-unidos","tag-estudo","tag-eua","tag-expansao","tag-exportacoes","tag-exterior","tag-faturamento","tag-ferias","tag-fernando-haddad","tag-filhos","tag-g20","tag-geral","tag-golpe","tag-governadores","tag-governo","tag-governo-federal","tag-haddad","tag-ibge","tag-importacao","tag-impostos","tag-industria","tag-inflacao","tag-internet","tag-investimento","tag-investimentos","tag-italia","tag-japao","tag-jovens","tag-junho","tag-juros","tag-legislacao","tag-lei","tag-limites","tag-lucro","tag-lula","tag-maio","tag-mais-pobres","tag-mercado","tag-meta","tag-micro","tag-ministro","tag-ministro-da-economia","tag-moeda","tag-mudancas","tag-mudancas-climaticas","tag-mulheres","tag-municipios","tag-negocios","tag-pagamentos","tag-pandemia","tag-pequenos-negocios","tag-pesquisadores","tag-pesquisas","tag-pib","tag-pobres","tag-portos","tag-poupanca","tag-preco","tag-precos","tag-presidente","tag-presidente-lula","tag-privatizacao","tag-producao","tag-projeto","tag-propostas","tag-queda","tag-recursos","tag-reducao","tag-renda","tag-ricos","tag-rio","tag-rio-grande-do-sul","tag-rs","tag-russia","tag-salario","tag-salario-minimo","tag-salarios","tag-sao-paulo","tag-saude","tag-seguranca","tag-servicos","tag-setor-publico","tag-soberania","tag-super-ricos","tag-supermercado","tag-taxa-de-juros","tag-tecnologia","tag-titulos-publicos","tag-trabalho","tag-uniao","tag-uniao-europeia","tag-vazamento","tag-visto"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/307470","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=307470"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/307470\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=307470"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=307470"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=307470"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}