{"id":183050,"date":"2024-07-22T23:17:59","date_gmt":"2024-07-22T23:17:59","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=183050"},"modified":"2024-07-22T23:17:59","modified_gmt":"2024-07-22T23:17:59","slug":"o-campesinato-virou-uma-simbologia-de-resistencia-diz-pesquisadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=183050","title":{"rendered":"&#8216;O campesinato virou uma simbologia de resist\u00eancia&#8217;, diz pesquisadora"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Com um p\u00e9 na academia e outro na milit\u00e2ncia, Let\u00edcia Chimini est\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/07\/10\/leticia-chimini-lanca-livro-que-une-campesinato-militancia-e-pesquisa-academica\">lan\u00e7ando seu livro<\/a> <em>A quest\u00e3o agr\u00e1ria no capitalismo dependente: elementos da quest\u00e3o social e a resist\u00eancia do campesinato brasileiro<\/em>. A obra \u00e9 resultado da sua tese de doutorado em Servi\u00e7o Social.<\/p>\n<p>No Papo de S\u00e1bado, feito pelo\u00a0<strong>Brasil de Fato RS <\/strong>no \u00faltimo dia 20 de julho, ela atenta para a diferen\u00e7a entre agricultura familiar e campesinato, critica a a\u00e7\u00e3o do capitalismo no campo brasileiro, destaca a inten\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio de se apresentar como representante de todas as formas de viv\u00eancia no meio rural e adverte que o coronelismo ainda vigora em muitos rinc\u00f5es do Brasil.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/brasildefators_enchentes\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/assets\/7f79d3d45758c62a8dbbe78cfa5148e4.gif\"><\/a><\/p>\n<p>Confira a entrevista na \u00edntegra.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS &#8211; H\u00e1 uma peculiaridade no teu livro, onde a autora tem um p\u00e9 na academia e outro na milit\u00e2ncia. Como foi produzir o livro lidando com essa dualidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Let\u00edcia Chimini<\/strong> &#8211; S\u00e3o coisas que se complementam. N\u00e3o conseguiria fazer de outra forma. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s eu ainda tinha o p\u00e9 na ro\u00e7a tamb\u00e9m. Era uma forma de vivenciar isso. Quando sa\u00ed da universidade formada em Servi\u00e7o Social, fui atuar no movimento das pequenas e dos pequenos agricultores, o que me levou a estudar mais sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria. \u00c9 a teoria que fomenta uma pr\u00e1tica que acaba sendo refletida novamente numa teoria. E esse processo \u00e9 cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o sei nem como seria um livro somente te\u00f3rico, que n\u00e3o olhasse para a realidade. N\u00e3o consigo separar. Toda a pesquisa emp\u00edrica se d\u00e1 na luta. E as teorias embasam isso. N\u00e3o vejo como uma dualidade mas como algo que se complementa. \u00c9 a pr\u00e1xis, de fato, que a pr\u00f3pria teoria social de [Karl] Marx referencia enquanto m\u00e9todo. E isso foi uma consequ\u00eancia, creio que n\u00e3o tenha sido&#8230; Claro que hoje \u00e9 uma escolha pol\u00edtica fazer isso.<\/p>\n<p><strong>Essa escolha tem influ\u00eancia da fam\u00edlia Ou aconteceu a partir da universidade? Em que momento, percebeste que esse mundo era mais desigual do que a propaganda que esse mesmo mundo espalha<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi da fam\u00edlia. Da fam\u00edlia sempre veio, principalmente de meu pai, um &#8220;n\u00e3o desista, siga&#8221;. Mas hoje minha fam\u00edlia \u00e9 quase toda bolsonarista&#8230; Mas isso n\u00e3o nos segregou.<br \/>\n\u00a0<br \/>\n<strong>\u00c9 uma fam\u00edlia de pequenos agricultores?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, a minha av\u00f3 era agricultora. Lembro dela, quando chegou \u00e0 cidade plantando em qualquer cantinho. Na \u00e2nsia de vivenciar o que ela deixou para tr\u00e1s.\u00a0Minha av\u00f3 chegou \u00e0 Porto Alegre com oito filhos pequenos. Meu pai conta: &#8220;aqui, com oito anos, eu engraxava sapato. Aqui, nesse hospital, com sete anos, a gente vendia frutas&#8221;. Eles vieram de Ira\u00ed nos anos 1960, in\u00edcio dos 1970.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>A milit\u00e2ncia social me salvou da ignor\u00e2ncia<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>O \u00eaxodo rural&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente.<\/p>\n<p><strong>Coincide com a mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura tamb\u00e9m, com o avan\u00e7o da grande propriedade.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o que a gente chama de Revolu\u00e7\u00e3o Verde, o que tamb\u00e9m \u00e9 abordado no livro. Voltando \u00e0quela quest\u00e3o da influ\u00eancia, acho que tem a ver com a entrada, de fato, no Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Eu me formei em 2005. Ent\u00e3o, quando eu entrei, realmente, foi um movimento que eu comecei a ver.<\/p>\n<p><strong>Foi em que ano?<\/strong><\/p>\n<p>2006. E consegui vivenciar, inclusive, o mar\u00e7o de 2006 e tudo o que veio desde ent\u00e3o. Ent\u00e3o, acredito que a consci\u00eancia pol\u00edtica, no sentido de aliar as express\u00f5es da quest\u00e3o social com a quest\u00e3o agr\u00e1ria, veio com o movimento. Digo que a milit\u00e2ncia social me salvou da ignor\u00e2ncia mesmo, no sentido de consci\u00eancia de classe. Que muito nos falta, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><strong>Durante o per\u00edodo de escrita, voc\u00ea vivenciou a pandemia, o per\u00edodo Bolsonaro e tamb\u00e9m houve um momento em que estava no Norte do Brasil, regi\u00e3o que tem muita viol\u00eancia contra os militantes dos movimentos sociais do campo. Como isso tudo influenciou na sua tese, no teu livro?<\/strong><\/p>\n<p>Vou come\u00e7ar de tr\u00e1s para a frente com uma boa dial\u00e9tica. Hoje atuo no Programa Federal de Prote\u00e7\u00e3o aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos. E uma das regi\u00f5es [onde atuo] \u00e9 o Norte. Acabou realmente levando a escrita para onde est\u00e1 hoje. Estava realizando a parte da pesquisa no Par\u00e1 quando estourou a pandemia. Andava de assentamento em assentamento com os companheiros do Par\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Vendo o panorama no campo do Rio Grande do Sul e o do Par\u00e1, o que distingue um do outro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Let\u00edcia Chimini &#8211;<\/strong> Primeiro vou te falar do que une os dois, que \u00e9 a luta pela terra. Olhando para a agricultura familiar e camponesa, aqui falta estrutura, falta pol\u00edtica p\u00fablica, falta incentivo para a agroecologia. E no Norte, ainda a luta \u00e9 por ter a terra \u2013 e o Par\u00e1 \u00e9 o estado onde mais se assassinam militantes ambientais e sociais. A luta pela terra movimenta mais a regi\u00e3o Norte, n\u00e3o somente pelos agricultores e agricultoras, mas tamb\u00e9m pelos quilombolas.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Fico pensando nos ind\u00edgenas com um celular tirando fotos de um drone derramando veneno em cima deles<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Est\u00e1 numa etapa anterior ainda em rela\u00e7\u00e3o ao Rio Grande do Sul. E os latif\u00fandios s\u00e3o maiores no Norte tamb\u00e9m&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se seria uma etapa. A gente n\u00e3o gosta muito dessa ideia de etapismo&#8230; Vejo a luta campesina como tent\u00e1culos. L\u00e1 (no Norte) ainda tem essa luta por ter a terra para poder trabalhar. Aqui o pr\u00f3prio MPA nasce da solicita\u00e7\u00e3o por pol\u00edticas p\u00fablicas. Os latif\u00fandios no Norte s\u00e3o enormes. A gente tem que faz\u00ea-los de helic\u00f3ptero.<\/p>\n<p>Cheguei anteontem do Tocantins onde a gente v\u00ea que tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua. As \u00e1guas s\u00e3o cercadas. O conflito aumenta porque, para acessar a \u00e1gua, \u00e9 preciso passar por territ\u00f3rios conflituosos.<\/p>\n<p><strong>Falar que n\u00e3o tem \u00e1gua no Norte \u00e9 uma coisa, n\u00e9? N\u00e3o d\u00e1 para imaginar isso.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tem. Voltamos com uma s\u00e9rie de den\u00fancias. Os rios est\u00e3o muito contaminados por agrot\u00f3xicos. Visitamos aldeias que est\u00e3o isoladas por planta\u00e7\u00f5es de soja. Sou do tempo em que a gente lutava contra jogar agrot\u00f3xico de avi\u00e3o. Hoje eles est\u00e3o usando drones. Fico pensando nos ind\u00edgenas com um celular tirando fotos de um drone que est\u00e1 derramando veneno em cima deles. \u00c9 a barb\u00e1rie pra onde vamos.<\/p>\n<p><strong>O que podes falar sobre essas den\u00fancias que citaste?<\/strong><\/p>\n<p>As den\u00fancias s\u00e3o muitas. \u00c9 algo que tamb\u00e9m escrevi no livro, que \u00e9 a intencionalidade do Estado para com o capital. \u00c9 um absurdo chegar na Secretaria do Meio Ambiente (do Tocantins) para dizer &#8220;Olha, t\u00e1 faltando \u00e1gua aqui, essa \u00e1gua aqui t\u00e1 contaminada&#8221; e eles dizerem &#8220;Pessoal, voc\u00eas v\u00e3o se surpreender da forma como a gente trata bem o nosso campesinato, enfim, os povos ind\u00edgenas e quilombolas&#8221;&#8230;<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Essa patrulha rural est\u00e1 a servi\u00e7o dos latifundi\u00e1rios<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Quem diz isso?<\/strong><\/p>\n<p>Ah, o Estado. Uma den\u00fancia que vou deixar aqui \u00e9 a quest\u00e3o das chamadas patrulhas rurais. Durante muito tempo, denunciamos a falta de seguran\u00e7a no rural brasileiro. Falta de ilumina\u00e7\u00e3o, falta de policiamento, falta de seguran\u00e7a p\u00fablica. E hoje, em alguns estados, existe uma patrulha rural. Eles enchem a boca para falar da patrulha rural.<\/p>\n<p><strong>Mas o que \u00e9 essa patrulha rural?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Let\u00edcia Chimini &#8211;<\/strong> A patrulha rural \u00e9 a seguran\u00e7a p\u00fablica que atua no meio rural. \u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma estrutura do Estado?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, do governo estadual.<\/p>\n<p><strong>Militar?<\/strong><\/p>\n<p>Da Pol\u00edcia Militar, exatamente. E a\u00ed eles chamam de patrulha rural: &#8220;Olha, que bom. Finalmente temos a seguran\u00e7a p\u00fablica atuando&#8221;. Mas n\u00e3o. Essa patrulha rural est\u00e1 a servi\u00e7o dos latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>Por exemplo: Um assentamento chama a patrulha rural por alguma viol\u00eancia. Eles n\u00e3o v\u00e3o. Agora, experimenta fazer uma ocupa\u00e7\u00e3o. A patrulha rural t\u00e1 l\u00e1 para tirar o povo, coisa que n\u00e3o \u00e9 servi\u00e7o da patrulha rural.<\/p>\n<p><strong>Obviamente, a patrulha rural atende aos interesses do governador do estado que, no Norte, \u00e9 quase sempre conservador.<\/strong><\/p>\n<p>Exato. A pol\u00edcia militar aqui \u00e9 descaradamente contra quem luta por terra e territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Como foi trabalhar a rela\u00e7\u00e3o entre a teoria da depend\u00eancia e o campesinato?<\/strong><\/p>\n<p>O campesinato \u00e9 muito diverso. Precisamos olhar para esse campo, embora o agroneg\u00f3cio tente colocar tudo dentro dele. Estes povos do campo s\u00e3o, de alguma forma, todos atravessados e condenados tamb\u00e9m pelo capitalismo.<\/p>\n<p>Quando comecei a estudar vi que havia particularidades no Brasil. Nem pensava em n\u00edvel de Am\u00e9rica Latina. Busquei leituras que pudessem contribuir. A\u00ed, a teoria marxista da depend\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 uma outra teoria de Marx. \u00c9 a teoria social de Marx atenta \u00e0s particularidades da Am\u00e9rica Latina, que tem em comum as suas col\u00f4nias, o acesso desigual \u00e0 terra e aos recursos naturais, o hist\u00f3rico horroroso de escraviza\u00e7\u00e3o e de genoc\u00eddio. E isso at\u00e9 hoje reflete nas formas como o capitalismo avan\u00e7a. Que n\u00e3o tem problema nenhum com ditadura, genoc\u00eddio ou patrulhas rurais constru\u00eddas por milicianos e com toda uma gama de criminosos. A teoria marxista da depend\u00eancia ajuda a botar uma lente em cima disso e nos dizer por onde ir.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 o campesinato hoje no Brasil e como se distingue o campesinato da agricultura familiar?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das perguntas mais feitas pelos alunos e alunas da gradua\u00e7\u00e3o. &#8220;Profe, tu fala em campesinato e tu fala em agricultura familiar, que raio \u00e9 isso?&#8221; Temos, historicamente, um processo de invisibiliza\u00e7\u00e3o do campesinato. Durante a ditadura, falar em campesinato era proibido, porque a gente tem&#8230;<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Todo campon\u00eas \u00e9 um agricultor familiar. Mas nem todo agricultor familiar \u00e9 um campon\u00eas<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00c9 uma palavra perigosa.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, e n\u00f3s temos as Ligas Camponesas, uma das principais resist\u00eancias nesse pa\u00eds e foram dizimadas.<\/p>\n<p><strong>E no Rio Grande do Sul havia o Master, o Movimento dos Agricultores Sem Terra. Havia as Ligas Camponesas do Nordeste e no Rio Grande do Sul, pr\u00e9-ditadura, havia o Master, um antepassado do MST, misturando um pessoal do antigo PCB e do trabalhismo.<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Ent\u00e3o, o campesinato acabou virando uma simbologia de resist\u00eancia. Tanto que se dizer campon\u00eas e camponesa era proibido. At\u00e9 trago isso no livro. Olhando para os documentos, vemos, inclusive, as palavras &#8220;latif\u00fandio&#8221; e &#8220;minif\u00fandio&#8221; sendo retiradas. Ent\u00e3o, no lugar disso, a gente precisa criar outra coisa. A agricultura familiar, ela d\u00e1 essa vis\u00e3o de &#8220;agronegocinho&#8221; inclusive nos financiamentos.<\/p>\n<p><strong>O agroneg\u00f3cio est\u00e1 at\u00e9 fazendo propaganda disso, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Usar &#8220;campesinato&#8221; novamente \u00e9 uma quest\u00e3o muito de refor\u00e7ar esse papel de resist\u00eancia dentro desse processo todo em que tentaram colocar a agricultura familiar. \u00c9 muito t\u00eanue a diferen\u00e7a. Todo campon\u00eas \u00e9 um agricultor familiar. Mas nem todo agricultor familiar \u00e9 um campon\u00eas. Hoje, a gente refor\u00e7a (o termo) &#8220;agricultura familiar camponesa&#8221;. Daqui a pouco, tiramos o &#8220;familiar&#8221; e vai ficar s\u00f3 &#8220;agricultura camponesa&#8221;.<\/p>\n<p>Hoje, o campesinato \u00e9 uma identidade. Refor\u00e7ar a agricultura camponesa \u00e9 falar de uma utiliza\u00e7\u00e3o da terra de forma que n\u00e3o agrida. E n\u00e3o se est\u00e1 falando somente de sustentabilidade ambiental. Estamos falando de sustentabilidade social, estamos falando de um feminismo campon\u00eas e popular, onde a gente n\u00e3o reproduz a explora\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>No pref\u00e1cio do livro, o professor Mathias Luce, da UFRJ, observa que, quando Karl Marx escreveu O 18 Brum\u00e1rio de Luiz Bonaparte, tinha uma vis\u00e3o do campesinato como uma categoria atrasada, uma vez que se submeteu ao imperador. Ao mesmo tempo, repara que existe outro Marx em O Capital com uma vis\u00e3o diferente do papel dessa classe social. O que voc\u00ea poderia falar sobre esses dois Marx?<\/strong><\/p>\n<p>No 18 Brum\u00e1rio, Marx se referia a um campesinato que n\u00e3o queria romper com o sistema, um campesinato conservador.\u00a0Naquele tempo hist\u00f3rico e na realidade a que se referia, era o contato que ele (Marx) tinha. Depois, ele vai escrevendo sobre isso e elabora melhor. Marx teve a capacidade de fazer esses v\u00e1rios olhares e entender que, naquela realidade, era assim.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o era uma classe revolucion\u00e1ria, portanto. Ent\u00e3o, naquele momento, ele n\u00e3o ia exatamente gostar do campesinato franc\u00eas&#8230; Existem revolu\u00e7\u00f5es campesinas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Umas foram dando sustenta\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o para as outras. Se olharmos para as v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina no M\u00e9xico, no Haiti, vamos ver o bra\u00e7o e a alma do campesinato revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Em m\u00e9dia, comemos todos n\u00f3s 7,2 litros de veneno por ano<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Peru, Bol\u00edvia&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. E se hoje, no Brasil, ainda falamos de reforma agr\u00e1ria popular \u00e9 porque temos uma Via Campesina forte que nos lembra todos os dias que \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Tem um outro debate que trazes e que trata da import\u00e2ncia da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, sem agrot\u00f3xico, mas acess\u00edvel a todo mundo. A quest\u00e3o do pre\u00e7o dessa alimenta\u00e7\u00e3o. A necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam que os alimentos sem agrot\u00f3xicos n\u00e3o sejam o alimento da burguesia somente.<\/strong><\/p>\n<p>Assim como existe essa diferen\u00e7a entre a agricultura familiar e o campesinato. Ou os &#8220;agronegocinhos&#8221; que o capitalismo quer que olhemos para ele assim, tamb\u00e9m existe a discuss\u00e3o entre agricultura org\u00e2nica e agricultura agroecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a agroecologia defendida pelos movimentos sociais? \u00c9 que todo mundo tem direito a comer saud\u00e1vel, sem acesso aos venenos. Em m\u00e9dia, comemos todos n\u00f3s 7,2 litros de veneno por ano, sem querer, sem desejar. Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia vai fazer isso. E no Paran\u00e1 s\u00e3o 10 litros&#8230;<\/p>\n<p><strong>Paran\u00e1 \u00e9 o estado que mais usa veneno?<\/strong><\/p>\n<p>Pelo menos \u00e9 o que demonstraram as pesquisas. E defender a agricultura agroecol\u00f3gica \u00e9 afirmar que todos temos direito de comer saud\u00e1vel. Hoje, o miser\u00e1vel vai morrer de fome, o pobre vai comer mal e o rico vai comer bem. A\u00a0 classe trabalhadora n\u00e3o tem R$ 15 para dar por um quilo de tomate sem veneno.<\/p>\n<p><strong>E o rico que vai comer bem, n\u00e3o raro, ser\u00e1 quem est\u00e1 produzindo os alimentos que n\u00e3o vai comer mas exportar&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Primeiro, que a terra n\u00e3o \u00e9 mercadoria, logo, os alimentos tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o mercadoria. Ou n\u00e3o deveriam ser. A comida sem veneno pode ser um nicho de mercado. Posso ter 10 hectares s\u00f3 de br\u00f3colis sem veneno. Mas n\u00e3o \u00e9 essa a l\u00f3gica.<\/p>\n<p>A agroecologia fala de uma natureza que se autoprotege na diversidade. Voc\u00ea imagina, a gente tem 30% das terras. Imagina esse povo com s\u00f3 metade das terras, com 50%. Assim, n\u00e3o se sustenta aquele senso comum que diz que para tu alimentares o povo, precisas ter grandes extens\u00f5es de terra, precisa ter monocultura e precisa ter veneno.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Os coron\u00e9is tem a arma, o bra\u00e7o armado do Estado, as mil\u00edcias, a patrulha rural&#8230;<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Talvez a mais cara da hist\u00f3ria da propaganda brasileira e a mais longa \u00e9 a do &#8220;Agro \u00e9 pop&#8221;. Que n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 nos intervalos comerciais. Est\u00e1 nas novelas, no jornalismo. O n\u00facleo duro do agro, na verdade, produz commodities. Produz para exportar. Quem p\u00f5e a comida na mesa \u00e9 a agricultura familiar. No entanto, a propaganda coloca tudo sob a mesma redoma. Parece que deseja se beneficiar dessa ideia de alimentar o pa\u00eds. Quando ele n\u00e3o alimenta. Faz outra coisa.<\/strong><\/p>\n<p>Eu tinha um professor que dizia que o capital n\u00e3o cria nada, mas se apropria de tudo. Dou a cadeira de Quest\u00e3o Agr\u00e1ria e, em qualquer sala de aula que entro, pergunto &#8220;O agro \u00e9?&#8221; E eles respondem. Na \u00faltima aula, eu disse \u201cOh, gente, agora voc\u00eas n\u00e3o podem errar: o agro \u00e9?\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um semestre de reflex\u00f5es, a gente consegue ver que o agro, de fato, \u00e9 morte. \u00c9 veneno na mesa, \u00e9 fome. Escrevo tamb\u00e9m sobre isso: a fome como consequ\u00eancia e causa do sistema capitalista. Quem conta a hist\u00f3ria \u00c9 o lado hegem\u00f4nico da hist\u00f3ria. Quem venceu do ponto de vista do capitalismo. Mas se existe toda uma for\u00e7a pol\u00edtica para tornar o agro mais verde \u00e9 porque ele est\u00e1 tentando, realmente, botar para debaixo do tapete todo o vermelho. Que \u00e9 forjado pelo sangue derramado dos povos. Ent\u00e3o, o agro n\u00e3o \u00e9 pop. Milh\u00f5es, foram gastos nessa propaganda premiada mundialmente. Precisamos contar a hist\u00f3ria do ponto de vista dos vencidos.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Visitamos um assentamento que o coronel local fechou com cinco cancelas<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Com a hegemonia do agroneg\u00f3cio, conseguiu-se acabar com o princ\u00edpio constitucional da fun\u00e7\u00e3o social da terra. Tanto que hoje aprovam leis que criminalizam as ocupa\u00e7\u00f5es. No sentido de que a luta social \u00e9 crime. E n\u00e3o o que eles fazem de grilagem. \u00c9 o avesso. Acho que o brasileiro, urbano ou rural, n\u00e3o entende o termo &#8220;fun\u00e7\u00e3o social da terra&#8221;. Est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o que a terra deve ter uma fun\u00e7\u00e3o social. Se ela n\u00e3o for bem usada, se for improdutiva, sem dar um retorno \u00e0 sociedade, o governo pode desapropri\u00e1-la e distribu\u00ed-la&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A gente fala &#8220;Ocupar \u00e9 um direito&#8221;. Est\u00e1 estruturado em cima do desigual acesso \u00e0 terra. Quando a gente fala, por exemplo, em uma reforma agr\u00e1ria popular, n\u00e3o dizemos que queremos agricultura familiar e camponesa de Norte a Sul, de Leste a Oeste, desse pa\u00eds. \u00c9 preciso partir do princ\u00edpio de que terra n\u00e3o \u00e9 mercadoria. Mas a terra cercada \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Parece que a ideia de possuir terra no Brasil est\u00e1 profundamente ligada a status e a poder. Muitos presidentes foram ou s\u00e3o propriet\u00e1rios de terras, casos de Get\u00falio Vargas, Jo\u00e3o Goulart, Jos\u00e9 Sarney, Fernando Collor e at\u00e9 Fernando Henrique Cardoso. O imagin\u00e1rio da terra \u00e9 ainda imenso na sociedade brasileira. O que se pode dizer a respeito dessa necessidade de possuir terras para obter reconhecimento social?<\/strong><\/p>\n<p>Terra \u00e9 poder. Por isso, aliamos a discuss\u00e3o de terra ao territ\u00f3rio. Quando se ocupa um territ\u00f3rio, voc\u00ea determina a forma que voc\u00ea vai utilizar esse territ\u00f3rio. E, por isso, lutamos para que cada vez mais o campesinato ocupe territ\u00f3rios. Para poder colocar ali o seu projeto em que acredita. A gente ainda v\u00ea muito viva essa ideia do coronelismo. De pedir a ben\u00e7\u00e3o para o &#8220;coron\u00e9&#8221;&#8230;\u00a0Esses coron\u00e9is tem a arma, o bra\u00e7o armado do Estado, as mil\u00edcias, a patrulha rural&#8230;<\/p>\n<p>A gente n\u00e3o est\u00e1 falando de terra comprada. Ainda que se olhasse para a meritocracia capitalista burguesa, n\u00e3o estamos falando de territ\u00f3rio comprado. Estamos falando de terra grilada, de terra roubada e de genoc\u00eddio em cima dessa terra. N\u00e3o h\u00e1 nada de bonito.<\/p>\n<p><strong>E tudo vem da posse da terra&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Existem lugares em que a gente, enquanto equipe federal, n\u00e3o pode ir sem a escolta da Pol\u00edcia Federal. Somos amea\u00e7ados. Se, para n\u00f3s que vamos com a PF, j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, imagina fazer a luta no cotidiano nesse fund\u00e3o de terra onde n\u00e3o tem visibilidade, n\u00e3o tem linha de celular ainda, n\u00e3o tem luz. O povo fica l\u00e1 na resist\u00eancia mesmo. E se a gente pergunta &#8220;Por que tu n\u00e3o sai? Vai para outra terra&#8221;. Ent\u00e3o, eles respondem &#8220;Mas essa terra \u00e9 minha, tenho o direito. Tenho que fazer o Estado chegar aqui. N\u00e3o tenho que sair&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que eles querem. Visitamos um assentamento que o coronel local foi fechando com cancelas. Para chegar l\u00e1 \u00e9 preciso passar por cinco cancelas. S\u00e3o v\u00e1rias formas de poder.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma vers\u00e3o resumida da entrevista do podcast <em>De Fato<\/em>. Assista ao programa completo abaixo:<\/p>\n<\/p>\n<hr>\n<p><a href=\"https:\/\/api.whatsapp.com\/send?phone=5551998132796&amp;text=Quero%20receber%20not%C3%ADcias%20do%20Brasil%20de%20Fato%20RS\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/238bbb7f5224bf3f2c5cee6f4a148fff.jpeg\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sua tese de doutorado, Let\u00edcia Chimini lembra que a propaganda do agro faz da agricultura familiar um &#8216;agronegocinho&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1037,1111,1300,560,723,389,1757,226,35,777,1423,1508,423,525,1179,961,1358,659,859,741,1493,1604,1331,462,894,1632,282,431,480,1055,1505,289,1740,303,296,170,1431,586,1699,1042,56,1308,432,748,790,1214,719],"class_list":["post-183050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acredita","tag-agricultura","tag-agricultura-familiar","tag-agronegocio","tag-alimentacao","tag-alimentos","tag-bolivia","tag-bolsonarista","tag-bolsonaro","tag-brasil","tag-commodities","tag-debate","tag-denuncia","tag-diversidade","tag-entrevista","tag-estados","tag-exploracao","tag-filhos","tag-financiamentos","tag-fome","tag-governo","tag-ia","tag-ir","tag-marco","tag-meio-ambiente","tag-mercado","tag-morte","tag-mst","tag-ocupacao","tag-pandemia","tag-para","tag-pesquisa","tag-pf","tag-policia","tag-policia-federal","tag-policia-militar","tag-porto-alegre","tag-preco","tag-professor","tag-projeto","tag-quilombolas","tag-recursos","tag-reforma-agraria","tag-rio","tag-rio-grande-do-sul","tag-rs","tag-sustentabilidade"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/183050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=183050"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/183050\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=183050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=183050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=183050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}