{"id":186045,"date":"2024-07-25T09:30:07","date_gmt":"2024-07-25T09:30:07","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=186045"},"modified":"2024-07-25T09:30:07","modified_gmt":"2024-07-25T09:30:07","slug":"o-bom-e-velho-prato-feito-esta-sob-ameaca-das-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=186045","title":{"rendered":"O bom e velho prato feito est\u00e1 sob amea\u00e7a das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>J\u00e1 pensou se, daqui a um tempo, a refei\u00e7\u00e3o que n\u00f3s brasileiros consumimos diariamente n\u00e3o tivesse mais arroz, feij\u00e3o, carne ou salada A hip\u00f3tese pode parecer um pouco radical, mas n\u00e3o deve ser totalmente descartada, de acordo com especialistas ouvidos pelo <strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/p>\n<p>Os efeitos das <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/01\/governo-sanciona-lei-que-estabalece-plano-de-adaptacao-as-mudancas-climaticas\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a> para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos ainda s\u00e3o pouco mapeados e j\u00e1 se mostraram desafiadores, mesmo num pa\u00eds de clima relativamente privilegiado como o brasileiro. &#8220;Pesquisadores de universidades est\u00e3o come\u00e7ando a se debru\u00e7ar sobre esses dados de como a produ\u00e7\u00e3o de alimentos est\u00e1 sendo afetada e o quanto isso pode impactar na soberania alimentar brasileira&#8221;, diz Sandra Bonetti, secret\u00e1ria de Meio Ambiente da Contag (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).<\/p>\n<p>A seca recorde na Amaz\u00f4nia em 2023, que fez minguar o volume dos rios e dos peixes locais, ondas de calor no sudeste e as inunda\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas que avan\u00e7aram sobre grande parte do Rio Grande do Sul. Eventos clim\u00e1ticos recentes e de grande dimens\u00e3o ajudaram a acender o sinal vermelho sobre a necessidade de criar solu\u00e7\u00f5es emergenciais de abastecimento.<\/p>\n<p>&#8220;Porto Alegre ficou desabastecida por bastante tempo e vai ficar desabastecida ainda por muito tempo, porque as regi\u00f5es que foram mais afetadas &#8211; o entorno de Porto Alegre e regi\u00e3o de Serra &#8211; s\u00e3o basicamente de agricultura familiar&#8221;, afirma Sandra, que refor\u00e7a o dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) de que s\u00e3o os produtores de pequeno porte que abastecem cerca de 70% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. &#8220;Vamos ter que recuperar o solo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 limpar a \u00e1rea. A gente n\u00e3o tem mais solo f\u00e9rtil para produzir. O solo demora anos para se recompor.&#8221;<\/p>\n<\/p>\n<p>A extens\u00e3o da crise tamb\u00e9m exp\u00f5e a popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha a um aumento prolongado de consumo de ultraprocessados e outros alimentos industrializados de baixo valor nutricional, alerta Manuela Dolinsky, diretora do Conselho Federal de Nutricionistas e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 claro que, numa situa\u00e7\u00e3o de calamidade, como a que acontece em Porto Alegre, onde a cidade ainda n\u00e3o foi recomposta, n\u00e3o se pode passar fome. Ent\u00e3o enviamos a comida dispon\u00edvel e com controle higi\u00eanico-sanit\u00e1rio, nesse caso, o ultraprocessado. Mas isso n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel a longo prazo&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Manuela menciona o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/04\/brasil-precisa-de-revolucao-no-uso-do-solo-para-frear-impactos-climaticos-na-saude\">Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/a>, lan\u00e7ado h\u00e1 10 anos e que se tornou refer\u00eancia no exterior e para o Plano Brasil de Fome, pelas recomenda\u00e7\u00f5es feitas. Priorizar os alimentos in natura e predominantemente de origem vegetal e moderar o uso de \u00f3leos, a\u00e7\u00facares e gordura s\u00e3o algumas das indica\u00e7\u00f5es. O objetivo, segundo ela, \u00e9 agir preventivamente em prol da sa\u00fade e para evitar o sobrepeso, a obesidade e tamb\u00e9m doen\u00e7as cr\u00f4nicas ou agravadas pela alimenta\u00e7\u00e3o inadequada.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Planta-se o que se pode colher<\/p>\n<p>V\u00e1rias etapas est\u00e3o envolvidas at\u00e9 os alimentos de qualidade chegarem \u00e0 nossa mesa, entre elas: produ\u00e7\u00e3o, log\u00edstica e armazenamento. As condi\u00e7\u00f5es desse processo se refletem na oferta e nos pre\u00e7os que chegam ao consumidor. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m fazem parte deste c\u00e1lculo, conforme explica o engenheiro florestal Giampaolo Pellegrino, que coordena o portf\u00f3lio sobre o tema na <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/25\/formacao-prepara-agentes-para-trabalhar-com-agricultores-familiares-no-projeto-bem-viver-pampa\">Embrapa<\/a>.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Nosso enfoque vai desde entender o impacto da mudan\u00e7a clim\u00e1tica sobre o desenvolvimento das culturas e produ\u00e7\u00f5es, sob a \u00f3tica da potencial redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de cultivo no futuro, ao das t\u00e9cnicas de mitiga\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00e3o de g\u00e1s de efeito estufa&#8221;, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o de cen\u00e1rios ajuda a antecipar medidas necess\u00e1rias para adaptar culturas ou, ocasionalmente, promover interc\u00e2mbios de conhecimentos entre produtores de regi\u00f5es &#8220;cujos clima e ecossistemas passaram a ser mais parecidos&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Antes, eu plantava o tomate no campo. Agora, vou ter que usar sistemas protegidos, estufas, controle de temperatura, controle de umidade, usar outra tecnologia, se eu quiser continuar com a minha planta\u00e7\u00e3o de tomate nesse local. Se n\u00e3o, plantar tomate n\u00e3o ser\u00e1 mais favor\u00e1vel&#8221;, exemplifica Pellegrino.<\/p>\n<p>Levar novos conhecimentos e t\u00e9cnicas para produtores n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil e exige um longo trabalho de convencimento sobre um olhar menos imediatista, aponta Sandra Bonetti. &#8220;Quando eu chego para falar que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica afeta diretamente os agricultores e as agricultoras, de pronto me olham e questionam &#8216;do que voc\u00ea est\u00e1 falando? Clima Eu estou preocupado com a minha produ\u00e7\u00e3o e com as pragas na minha propriedade'&#8221;, relata.<\/p>\n<p>A ambientalista da Contag tamb\u00e9m comenta que, naturalmente, os pr\u00f3prios produtores v\u00e3o se adaptando \u00e0s culturas que d\u00e3o melhores resultados. &#8220;Se eu tenho uma \u00e1rea para produzir mandioca, mas n\u00e3o estou conseguindo produzir a mesma quantia todo ano, ent\u00e3o vou reduzindo ou trocando, infelizmente&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso eu falo que a pesquisa tamb\u00e9m \u00e9 um fator muito importante, seja ela p\u00fablica ou privada, de pensar sistemas produtivos para esses alimentos principais, para que a gente n\u00e3o perca culturalmente o que a gente come no dia a dia.&#8221;<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Mitiga\u00e7\u00e3o de riscos ambientais: via de m\u00e3o dupla<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o Brasil tamb\u00e9m percebeu que n\u00e3o bastaria contornar os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Era necess\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o agrav\u00e1-los na produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Por isso, o governo Dilma Rousseff lan\u00e7ou em 2010 o Plano de Agropecu\u00e1ria de Baixo Carbono, ou Plano ABC, que mais tarde seria relan\u00e7ado como Plano ABC+. A meta do programa \u00e9 ajudar a reduzir a emiss\u00e3o de carbono, com volume estipulado de 1,1 bilh\u00e3o de toneladas de CO2 apenas no setor agropecu\u00e1rio, at\u00e9 2030.<\/p>\n<p>Segundo Giampaolo, s\u00e3o feitos investimentos em pesquisa sobre a redu\u00e7\u00e3o do impacto da mudan\u00e7a clim\u00e1tica na agricultura. &#8220;S\u00e3o v\u00e1rias vertentes, como diversificar a produ\u00e7\u00e3o, aumentar a renda e solu\u00e7\u00f5es de temperatura. Ent\u00e3o h\u00e1 integra\u00e7\u00e3o da lavoura com a floresta, da pecu\u00e1ria com as florestas, sistemas de plantios diretos, plantio de florestas mesmo&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m explica que as culturas mais tropicais, como a cana e a mandioca, por exemplo, tendem a sofrer menos impacto com a eleva\u00e7\u00e3o de temperatura. &#8220;Outras culturas como <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/21\/arroz-com-preco-justo-e-garantia-de-seguranca-alimentar-nacional-diz-movimento-dos-pequenos-agricultores\">arroz<\/a>, feij\u00e3o, milho e soja teriam a perda da \u00e1rea potencial total no Brasil. Dependendo do cen\u00e1rio, a redu\u00e7\u00e3o chega de 30% at\u00e9 a 40% a depender da regi\u00e3o&#8221;, projeta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses gr\u00e3os, Manuela tamb\u00e9m elenca outros desafios j\u00e1 bem contornados: &#8220;algumas frutas tropicais que s\u00e3o mais sens\u00edveis a essas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como a banana, o abacaxi, o maracuj\u00e1, que fazem parte do padr\u00e3o alimentar da popula\u00e7\u00e3o brasileira. E, mais al\u00e9m, a pecu\u00e1ria, pela quest\u00e3o das pastagens e do acesso \u00e0 \u00e1gua. H\u00e1 um poss\u00edvel impacto tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o de carnes, leites, queijos e derivados, al\u00e9m da pesca, que poder\u00e1 ser afetada pelas varia\u00e7\u00f5es oce\u00e2nicas&#8221;.<\/p>\n<p>A possibilidade do aquecimento global gerar infla\u00e7\u00e3o em alimentos b\u00e1sicos foi mapeada em <a href=\"https:\/\/files.springernature.com\/getResource\/Full%20text%20article.pdf?token=qYBCH8QVmU36VoGXXyH9slqO117lqbrJDby0pNKgHorxeBjbfOvOJZQr199g4tXo5nGNRLRhvqvrdclf%2FuYEloZ3%2BHnt3o1kdBvfeBJEZdW8Zma54DETBLWEhzHypxHBNv5qEQKulXjj3ZCBiQN6oOGIFXaGPwA9koYMU5P%2Bvw4u1RzKo76twBAvXo5Xi%2FUfKor9LBxN60aXQ4kQV6sg1lr8pRbGzQZeAQxXk0lk2vkcdR2XNdAAJP8xDllvCVaCECPMTi5tLoFY1cZJyhES5dbS7kMd30Q6jBIEPoNq5kjpuA2LWjYf2oRN%2FzFNGLLAVA96DOjP7nQMO1bLa85gg8%2BkhfFixZw%2FUycKKJvERmV74GUkcHl7f0V2pfqNgMovR43LqMBp%2B24UWejAcUmjRku0d5k%3D\">estudo recente publicado na Alemanha.<\/a> A alta dos pre\u00e7os poderia passar de 3% ao ano ainda nesta d\u00e9cada. Com isso, se prev\u00ea uma adapta\u00e7\u00e3o na rotina alimentar na Europa e que se estenderia a todo o mundo no futuro.<\/p>\n<p>Do ponto de vista nutricional, segundo Manuela, seria poss\u00edvel substituir o arroz por vegetais ricos em carboidrato, como a batata e o car\u00e1; e o feij\u00e3o por gr\u00e3o-de-bico, por exemplo. Mas a que custo?\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Ter\u00edamos como fazer sem essa adequa\u00e7\u00e3o, mas eu acho de uma tristeza muito grande, porque, afinal de contas, o consumo de alimentos n\u00e3o perpassa s\u00f3 pela composi\u00e7\u00e3o desses alimentos. A gente tem uma quest\u00e3o cultural forte, uma regionalidade forte, uma identidade, enquanto brasileiros, que atravessa o nosso padr\u00e3o alimentar. Seria uma perda muito grande alterar a nossa identidade alimentar&#8221;, finaliza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquecimento global, estiagem e inunda\u00e7\u00f5es desafiam os produtores e distribuidores de alimentos no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1443,1111,1300,723,389,452,1517,587,777,1619,165,1697,822,203,629,579,1281,1464,1381,1510,1421,1077,1099,1564,1813,1488,453,470,741,1756,1493,110,243,1288,894,1623,1454,1212,202,824,742,289,1100,1431,1703,852,590,1717,549,1009,748,790,1115,848,1772,584,415,1677],"class_list":["post-186045","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-abastecimento","tag-agricultura","tag-agricultura-familiar","tag-alimentacao","tag-alimentos","tag-amazonia","tag-aquecimento-global","tag-arroz","tag-brasil","tag-calculo","tag-calor","tag-carne","tag-carnes","tag-clima","tag-consumidor","tag-consumo","tag-contag","tag-custo","tag-dados","tag-desenvolvimento","tag-dilma-rousseff","tag-embrapa","tag-estudo","tag-eventos-climaticos","tag-exterior","tag-feijao","tag-floresta","tag-fluminense","tag-fome","tag-gas","tag-governo","tag-ibge","tag-inflacao","tag-investimentos","tag-meio-ambiente","tag-meta","tag-mudanca-climatica","tag-mudancas","tag-mudancas-climaticas","tag-pecuaria","tag-pesca","tag-pesquisa","tag-pesquisadores","tag-porto-alegre","tag-precos","tag-producao","tag-producao-de-alimentos","tag-produtores","tag-renda","tag-ricos","tag-rio","tag-rio-grande-do-sul","tag-saude","tag-soberania","tag-tecnologia","tag-trabalhadores","tag-trabalho","tag-uso"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/186045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=186045"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/186045\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=186045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=186045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=186045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}