{"id":189967,"date":"2024-07-27T21:18:19","date_gmt":"2024-07-27T21:18:19","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=189967"},"modified":"2024-07-27T21:18:19","modified_gmt":"2024-07-27T21:18:19","slug":"memoria-bdf-na-vespera-de-eleicoes-da-venezuela-relembre-entrevista-historica-com-hugo-chavez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=189967","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria BdF | Na v\u00e9spera de elei\u00e7\u00f5es da Venezuela, relembre entrevista hist\u00f3rica com Hugo Ch\u00e1vez"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p><em>Essa entrevista hist\u00f3rica integra o livro &#8220;\u00c9 Preciso Coragem para Mudar o Brasil&#8221;, publicado pela editora Express\u00e3o Popular em 2006 e que re\u00fane uma s\u00e9rie de conversas com grandes nomes do campo popular, publicadas nos primeiros anos do\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>. Como parte das celebra\u00e7\u00f5es dos 20 anos do jornal, completados no ano passado, vamos publicar mais entrevistas memor\u00e1veis ao longo dos pr\u00f3ximos meses. Este projeto de resgate da mem\u00f3ria do nosso jornalismo \u00e9 uma parceria com a Express\u00e3o Popular.<\/em><\/p>\n<p><strong>Para entender a entrevista<\/strong>: Golpe do 11 de abril \u2013 Nesse dia, em 2002, militares e empres\u00e1rios depuseram e seq\u00fcestraram o presidente Hugo Ch\u00e1vez. Os golpistas receberam apoio e dinheiro do governo estadunidense. Dois dias depois, ap\u00f3s manifesta\u00e7\u00f5es de apoio a Ch\u00e1vez por todo o pa\u00eds, ele voltou ao cargo.<\/p>\n<p>Caracazo \u2013 Levante de trabalhadores e estudantes de Caracas, em fevereiro de 1989, contra as pol\u00edticas neoliberais do ent\u00e3o presidente Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez. Confrontos com a pol\u00edcia deixaram centenas de mortos.<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00e3o bolivariana \u2013 Programa econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social lan\u00e7ado por Ch\u00e1vez para romper com a depend\u00eancia da Venezuela dos Estados Unidos, acabar com a corrup\u00e7\u00e3o no poder p\u00fablico e enfrentar os problemas da popula\u00e7\u00e3o pobre, como falta de acesso \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o se baseia nos ideais do general venezuelano Sim\u00f3n Bol\u00edvar (1783-1830), que lutou pela independ\u00eancia de diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/minuto-a-minuto\/o-que-esta-acontecendo-na-venezuela\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/8498f57379d361a0bc9657365e821fb4.webp\"><\/a><br \/>\n<strong>Clique na imagem para acompanhar a cobertura completa<\/strong> \/ Rafael Canoba\/Brasil de Fato<\/p>\n<p>Considerando a organiza\u00e7\u00e3o popular fundamental para garantir os governos democr\u00e1ticos, Hugo Ch\u00e1vez defende a integra\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina e prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um fundo financeiro, de uma companhia petrol\u00edfera e de uma rede de TV. Ch\u00e1vez recebeu a reportagem do <strong>Brasil de Fato<\/strong> em uma \u00e1rea livre conjunta \u00e0 sua sala de despachos \u2013 onde mandou construir um quiosque de palha que lembra a casa onde nasceu, para \u201cmanter vivas as ra\u00edzes campesinas\u201d.<\/p>\n<p>Seus tra\u00e7os de mistura afro-ind\u00edgena sobrep\u00f5em-se ao seu cansa\u00e7o evidente ao fim de um dia de trabalho e debates com internacionalistas de todos os continentes, que estavam em Caracas para o II Encontro Mundial de Solidariedade com a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana. Seu interesse pelo Brasil n\u00e3o disfar\u00e7a o respeito apaixonado pelo pernambucano Abreu e Lima, general que lutou com Bol\u00edvar. \u201cPor que n\u00e3o temos alguns desses bispos brasileiros por aqui?\u201d, perguntou, ao ver, na edi\u00e7\u00e3o 58 do<strong> Brasil de Fato<\/strong>, a foto de dom Jos\u00e9 Maria Lib\u00f3rio Saracchio beijando os p\u00e9s de um sem-terrinha na cerim\u00f4nia do lava-p\u00e9s da Semana Santa. N\u00e3o h\u00e1 formalismos, a roupa \u00e9 simples, mistura com naturalidade complexas an\u00e1lises pol\u00edticas e versos de uma can\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do cantor venezuelano Al\u00ed Primera.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato:<\/strong> <strong>Como evitar golpes como os que derrubaram Jo\u00e3o Goulart, no Brasil, e Salvador Allende, no Chile? Como evitar outro 11 de abril na Venezuela e fazer que os 13 de abril sejam permanentes na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n<p><strong>Hugo Ch\u00e1vez:<\/strong> Como evitar que as oligarquias, impulsionadas e apoiadas pelo imp\u00e9rio, calem os processos de mudan\u00e7as, cortando as esperan\u00e7as? Como evitar, aqui nestas terras, que se cumpra a c\u00ednica express\u00e3o de Winston Churchill sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: \u201c\u00c9 preciso cortar a cabe\u00e7a do beb\u00ea antes que cres\u00e7a\u201d? Como evitar que os Herodes de hoje cumpram a meta perversa de cortar a cabe\u00e7a do beb\u00ea da esperan\u00e7a A experi\u00eancia da Venezuela pode contribuir para evitar os golpes fascistas que derrotam governos democr\u00e1ticos e leg\u00edtimos, sobretudo progressistas, com projetos de mudan\u00e7as, como o de Allende ou de Goulart.<\/p>\n<p>No nosso caso, o golpe foi derrotado em 24 horas, pois o povo se colocou de p\u00e9 quase de imediato. Um elemento fundamental \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o popular. Eu a colocaria em primeiro lugar! Essas massas de povo que despertaram na Am\u00e9rica Latina, na Venezuela, no Brasil, na Argentina, no Equador, precisam estar organizadas. \u00c9 necess\u00e1rio que os dirigentes, os l\u00edderes naturais, os l\u00edderes pol\u00edticos, os l\u00edderes sociais sejam uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consciente, que articulem um plano e ponham em marcha, no seio das massas, para elevar progressivamente o n\u00edvel de consci\u00eancia e de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sim\u00f3n Rodr\u00edguez dizia: \u201cA for\u00e7a material est\u00e1 na massa e a for\u00e7a moral, no movimento da massa\u201d. Eu, humildemente, na pris\u00e3o, lendo Sim\u00f3n Rodr\u00edguez nas madrugadas, me atrevi a acrescentar uma terceira consigna, pois me parece que faltava a for\u00e7a material que estava na massa e a for\u00e7a moral que estava no movimento. A for\u00e7a transformadora est\u00e1 na massa consciente e organizada, em movimento acelerado e permanente. Muitos movimentos de massa fracassaram por falta de uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma consci\u00eancia, uma ideologia. N\u00e3o tinham um aparelho, chamemos isso de aparelho ou de partido.<\/p>\n<p><strong>\u00c0s vezes as rebeli\u00f5es v\u00eam com um aiatol\u00e1&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sim, no Ir\u00e3 pode ser que sim. \u00c0s vezes s\u00e3o at\u00e9 subjetivos os aparelhos, mas v\u00e3o se transformando em aparelhos concretos, em correntes concretas, enfim, em organiza\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia e ideologia, programa e dire\u00e7\u00e3o, de forma tal que tenhamos uma massa organizada e consciente em movimento. Com uma dire\u00e7\u00e3o determinada. E acredito que esse \u00e9 o fator mais importante e foi o que salvou o processo venezuelano. Salvou inclusive a nossa vida e nos<br \/>\nseguir\u00e1 salvando das amea\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel dos militares nos processos de transforma\u00e7\u00e3o? Qual a import\u00e2ncia da unidade c\u00edvico-militar?<\/strong><\/p>\n<p>Aqui o povo e as for\u00e7as armadas voltaram a se reencontrar. Em 1989, em Caracas, vi quando os soldados foram enviados por Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez para massacrar o povo que se levantou no Caracazo! Descarregaram a fuzilaria sobre os bairros pobres. Foram milhares de mortos.<\/p>\n<p>Falam em trezentos, mas foram milhares de corpos lan\u00e7ados em fossas comuns, que nunca apareceram. Exatamente no dia em que se completavam dez anos daquela trag\u00e9dia, 25 dias depois de termos assumido o governo, come\u00e7amos o \u201cPlano Bol\u00edvar 2000\u201d. Nesse dia, os militares sa\u00edram de todos os quart\u00e9is do pa\u00eds, mas j\u00e1 n\u00e3o iam com a metralhadora da morte e sim com armas carregadas de vida, para fazer trabalho humanit\u00e1rio!<\/p>\n<p>Era uma a\u00e7\u00e3o meramente conjuntural, mas era uma resposta de um governo que come\u00e7ava com grandes dificuldades econ\u00f4micas, uma pesada d\u00edvida externa, a pobreza infinita que tivemos aqui durante todo esse tempo, mas com um gesto: as For\u00e7as Armadas saem para ajudar seu povo e desde ent\u00e3o n\u00e3o pararam mais e n\u00e3o parar\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Agora estamos organizando os reservistas do Ex\u00e9rcito, todos os que passaram pelas fileiras militares, junto com<br \/>\no povo pobre. J\u00e1 temos 80 mil inscritos e aprovamos recursos extraordin\u00e1rios para uniformiz\u00e1- los, para arm\u00e1-los e para trein\u00e1-los.<\/p>\n<p><strong>Quais os antecedentes hist\u00f3ricos dessa unidade c\u00edvicomilitar?<\/strong><\/p>\n<p>99% dos militares da Venezuela v\u00eam dos bairros pobres, dos campos. \u00c9 um povo das classes baixas, nem das classes m\u00e9dias.Na melhor das hip\u00f3teses, ascendemos socialmente no Ex\u00e9rcito e chegamos a ser um pouco classe m\u00e9dia. Mas eu nasci em uma casa de palha. Um militar venezuelano que vem da classe alta \u00e9 um extraterrestre, uma coisa estranha. Na tropa, os suboficiais tamb\u00e9m s\u00e3o de profunda extra\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, sabemos que isso n\u00e3o \u00e9 garantia suficiente porque temos visto na Am\u00e9rica Latina,como aqui, militares arremetendo contra seu pr\u00f3prio povo. Na verdade, o processo revolucion\u00e1rio bolivariano resgatou as ra\u00edzes militares de nossas For\u00e7as Armadas. Eu repeti um milh\u00e3o de vezes aos militares venezuelanos: quando Sim\u00f3n Bol\u00edvar estava morrendo, acompanhado de Abreu e Lima \u2013 o grande revolucion\u00e1rio pernambucano, s\u00edmbolo da integra\u00e7\u00e3o de nossos povos \u2013 afirmou em sua \u00faltima proclama\u00e7\u00e3o que \u201cos militares devem empunhar suas espadas para defender as garantias sociais!\u201d.<\/p>\n<p>Anos antes, dissera: \u201cMaldito seja o soldado que aponte as armas contra seu povo!\u201d. Isso est\u00e1 entranhado profundamente nas For\u00e7as Armadas e, por isso, no golpe de 11 de abril, a elite governante de Washington, a CIA, a elite venezuelana com todos os seus recursos e analistas, a elite petroleira que tinha um governo paralelo, todos se equivocaram bastante. Pensaram que o povo venezuelano ficaria de bra\u00e7os cruzados diante do golpe fascista.<\/p>\n<p><strong>Como foi essa resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Dia 13 de abril, este pal\u00e1cio foi rodeado pelas massas, as cidades foram tomadas e a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a sair para as ruas. Como diz a can\u00e7\u00e3o: \u201cE desceram, e desceram e desceram\u201d (can\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de Al\u00ed Primera). Primeiro, um pequeno grupo, depois uma avalanche com bandeiras e com a Constitui\u00e7\u00e3o, alguns com fuzis, outros com fac\u00f5es, uns cantando e outros chorando, e a\u00ed se levanta um povo campesino, obreiro e desempregado, os camel\u00f4s, os jovens estudantes.<\/p>\n<p>Um artigo escrito por um golpista conta como o ministro, o cardeal e os donos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o estavam numa reuni\u00e3o, aqui no pal\u00e1cio, e algu\u00e9m avisa que t\u00eam que evacuar o pal\u00e1cio porque estavam cercados! Eles sa\u00edram correndo pela porta de tr\u00e1s. Alguns n\u00e3o tiveram nem tempo de sair porque as tropas e o povo tomaram o pal\u00e1cio e os telhados, as portas. Pedro Carmona fugiu pelos fundos junto com os donos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o cardeal fugiu pelo outro lado. Assim, nesse dia come\u00e7ou a se evidenciar o resultado de todo o trabalho, do empenho, da fus\u00e3o civil-militar. Foram as horas em que vivi no fio da navalha.<\/p>\n<p>Porque os golpistas j\u00e1 tinham dado a ordem da minha morte. Estava consciente de que essa gente que havia poupado minha vida em 4 de fevereiro de 1992 n\u00e3o cometeria o mesmo erro de novo. Mas a fus\u00e3o civil-militar come\u00e7ou a brotar por todas partes e a consci\u00eancia dos jovens militares salvou minha vida e deu tempo para que a press\u00e3o popular se unisse inclusive com chefes militares. O general Garcia Carneiro, que era ministro da Defesa, estava preso pelos golpistas. Mas com a ajuda dos soldados escapou pela janela do banheiro do Forte Ti\u00fana e foi para a portaria onde as massas populares se concentravam, buscando alian\u00e7a com os militares.<\/p>\n<p>Carneiro pegou um megafone e incentivou o povo \u00e0 luta. Ouviram-se can\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias: \u201cNo basta rezar&#8230;\u201d e todos cantaram, a tropa e o povo! A\u00ed est\u00e1 uma f\u00f3rmula, um povo unido, organizado, consciente, capaz de se mobilizar e veja que se mobilizou sem ser convocado! Os meios de comunica\u00e7\u00e3o alternativos tiveram papel important\u00edssimo e s\u00e3o a outra parte da f\u00f3rmula para impulsionar a rebeli\u00e3o. Assim como disse Che Guevara, \u201ccriar um, dois, tr\u00eas Vietn\u00e3s na Am\u00e9rica Latina\u201d, temos que impulsionar uma, duas, tr\u00eas mil emissoras de televis\u00e3o e r\u00e1dios comunit\u00e1rias na Am\u00e9rica Latina, que convoquem e orientem o povo.<\/p>\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Col\u00f4mbia agrava-se com a mo\u00e7\u00e3o aprovada pelo senado colombiano que pede a aplica\u00e7\u00e3o da Carta da OEA contra a Venezuela e a revolu\u00e7\u00e3o bolivariana. O que o senhor acha desse quadro?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos atentos aos sinais que est\u00e3o chegando, seja pelo lado esquerdo, seja pela fronteira ocidental. H\u00e1 pouco, em visita \u00e0 Guiana, cheguei a uma conclus\u00e3o: l\u00e1 pelos anos 70, come\u00e7aram a surgir nos quart\u00e9is venezuelanos congressistas e livros falando da necessidade da Venezuela resgatar o territ\u00f3rio de Esequibo. Ati\u00e7aram nos militares venezuelanos um sentimento antiguianense, e agora sei por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a Guiana tinha um governo progressista que permitiu o uso de suas instala\u00e7\u00f5es por tropas cubanas que se deslocavam, indo e vindo de Angola. Apresentavam a Guiana como uma amea\u00e7a, como a nova Cuba da Am\u00e9rica do Sul. Claro que era um plano da Casa Branca, do Pent\u00e1gono e do Comando Sul do Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos, ati\u00e7ando a Venezuela contra a Guiana. O mesmo aconteceu no Iraque, quando triunfou a revolu\u00e7\u00e3o do aiatol\u00e1 Khomeini e os EUA decidem armar Sadam Hussein contra o Ir\u00e3, gerando a guerra que durou dez anos.<\/p>\n<p>Queriam destruir a revolu\u00e7\u00e3o iraniana. N\u00e3o conseguiram, mas fizeram muitos danos, frearam o avan\u00e7o social. Agora ati\u00e7am a oligarquia colombiana contra a Venezuela. A presen\u00e7a militar dos EUA na Col\u00f4mbia, o Plano Col\u00f4mbia, que \u00e9 a m\u00e1scara usada no suposto combate ao narcotr\u00e1fico, na verdade \u00e9 a via de penetra\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio na regi\u00e3o. Solicitam ao Congresso dos EUA duplicar os recursos e o Ex\u00e9rcito para a Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Criaram comandos militares e de intelig\u00eancia perto da nossa fronteira. Os paramilitares mataram, nos \u00faltimos dois anos, mais de 60 l\u00edderes agr\u00e1rios. H\u00e1 dois meses houve uma batalha entre um batalh\u00e3o da Venezuela e paramilitares que penetraram na fronteira. Os paramilitares colombianos s\u00e3o subordinados ao Pent\u00e1gono. No fim, os militares colombianos fizeram um comunicado dizendo que militares venezuelanos penetraram na Col\u00f4mbia para atacar o ex\u00e9rcito colombiano e assim evitar que eles capturassem um l\u00edder da guerrilha. A verdade \u00e9: eles invadiram a fronteira venezuelana e temos imagens mostrando isso claramente.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os planos do imperialismo para a regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo o chefe do Comando Sul do Ex\u00e9rcito dos EUA declarou que \u201cHugo Ch\u00e1vez e seu populismo radical\u201d eram uma amea\u00e7a \u00e0 paz. Antes, o governo espanhol de Jos\u00e9 Mar\u00eda Aznar ofereceu \u00e0 Col\u00f4mbia 40 tanques pesados de guerra. Aznar \u00e9 um subordinado de Washington e atuou no golpe de Estado contra n\u00f3s. A ajuda militar \u00e0 Col\u00f4mbia fornece helic\u00f3pteros aos paramilitares.<\/p>\n<p>Quando alguns senadores colombianos pedem a aplica\u00e7\u00e3o da Carta da OEA e dizem que Ch\u00e1vez \u00e9 um rei, um ditador, significa uma conspira\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Col\u00f4mbia, em Washington, e uma conspira\u00e7\u00e3o militar para atacar a Venezuela. N\u00f3s estamos nos preparando para qualquer coisa e oxal\u00e1 a oligarquia colombiana n\u00e3o leve adiante esses planos porque tamb\u00e9m vai fracassar, assim como o golpe de 11 de abril ou o paro petrolero.<\/p>\n<p><strong>As v\u00e1rias datas rebeldes da \u201cNossa Am\u00e9rica\u201d, como o Bogotazo, o 26 de julho em Cuba, o 4 de fevereiro aqui mostram uma hist\u00f3ria de lutas que, mais recentemente, se ransforma em levantes contra o neoliberalismo. O que significa tudo isso em termos de possibilidade hist\u00f3rica de uma luta comum contra o neoliberalismo?<\/strong><\/p>\n<p>A Nossa Am\u00e9rica, como diz o poeta Jos\u00e9 Mart\u00ed, tem ciclos de lutas. A primeira onda de rebeli\u00f5es foi a da incr\u00edvel resist\u00eancia ind\u00edgena. Uma enorme resist\u00eancia apagada pelos imp\u00e9rios, como aconteceu no Brasil. Depois vieram novas ondas rebeldes ligadas \u00e0s circunst\u00e2ncias mundiais, produtos da guerra de independ\u00eancia dos EUA, da revolu\u00e7\u00e3o francesa, do desgaste do imp\u00e9rio espanhol e do florescimento, neste continente, de um setor criollo (nativo) consciente \u2013 formador de uma massa cr\u00edtica de pensadores, tomando consci\u00eancia desta terra e deste povo, e que se atreveram a criar uma for\u00e7a para, em 1810, declarar a independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Aproveitaram uma conjuntura, mas vinham amadurecendo, com a conspira\u00e7\u00e3o dos negros e ind\u00edgenas. Depois, quase todo o continente se apagou. E ent\u00e3o veio a onda de governos nacionalistas como o de Juan Domingo Per\u00f3n (Argentina), ou de Get\u00falio Vargas (Brasil), ou de L\u00e1zaro C\u00e1rdenas (M\u00e9xico), ou de governos militares progressistas como o de Omar Torrijos (Panam\u00e1) e de Juan Veasco Alvarado (Peru).<\/p>\n<p>Uma erup\u00e7\u00e3o de governos impulsionados pela revolu\u00e7\u00e3o cubana. Uma onda de insurrei\u00e7\u00f5es variadas, militares e progressistas, que logo se apagou e abriu caminho para o neoliberalismo. Sobretudo nos anos 90, ap\u00f3s a queda sovi\u00e9tica, que foi um golpe moral e pol\u00edtico. O neoliberalismo penetra fundo e quase apaga a presen\u00e7a dos movimentos alternativos. Mas agora estamos em nova onda rebelde e de avan\u00e7o nas lutas das massas. E mesmo dentro do monstro h\u00e1 um tremendo movimento antiglobaliza\u00e7\u00e3o, movimentos antiguerra, milh\u00f5es de pessoas protestando contra a invas\u00e3o no Iraque. \u00c9 uma onda crescente que indica caminhos, traz esperan\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Qual o papel dos l\u00edderes populares neste cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Todos os que assumimos circunstancialmente um papel de lideran\u00e7a, de dire\u00e7\u00e3o, em qualquer n\u00edvel, seja nas frentes pol\u00edticas, nos movimentos sociais ou na batalha econ\u00f4mica, todos n\u00f3s que temos consci\u00eancia dessa situa\u00e7\u00e3o, temos uma grande responsabilidade neste momento. O desafio \u00e9 dar \u00e0 massa uma lideran\u00e7a organizativa, org\u00e2nica, dar um n\u00edvel de consci\u00eancia e ideologia capaz de enamorar, apaixonar o povo, de potencializar as lutas, para que n\u00e3o se perca essa nova onda rebelde.<\/p>\n<p>Estamos diante de um grande caminho e espero que os l\u00edderes que est\u00e3o emergindo, na Am\u00e9rica Latina sobretudo, estejam \u00e0 altura desses acontecimentos, para dar forma concreta e transformar esses estados de transi\u00e7\u00e3o que atravessamos na regi\u00e3o. O modelo neoliberal imposto no continente est\u00e1 desmoronando. O capitalismo neoliberal, a democracia burguesa j\u00e1 n\u00e3o tem moral nem for\u00e7a. A \u00e1gua est\u00e1 borbulhando na panela; s\u00f3 ferve aos 100 graus cent\u00edgrados, mas j\u00e1 borbulha! O caminho agora \u00e9 saber o que fazer com essa energia popular, moral, intelectual que est\u00e1 brotando, como concentr\u00e1-la e conseguir a for\u00e7a necess\u00e1ria, a temperatura de 100 graus, para ter \u00eaxito e criar um projeto popular, como estamos fazendo na Venezuela.<\/p>\n<p>Uma democracia popular, participativa, protagonista e um modelo econ\u00f4mico alternativo, social, que sirva para atender as necessidades fundamentais de todos e n\u00e3o para o enriquecimento de uma minoria. Se em toda a Am\u00e9rica do Sul e no Caribe conseguirmos coordenar for\u00e7as, juntar lideran\u00e7as, poderemos, depois de 500 anos, ter algum \u00eaxito e avan\u00e7ar! O que conquistarmos at\u00e9 2010 na Nossa Am\u00e9rica definir\u00e1 o futuro.<\/p>\n<p>Estamos na primeira etapa, mas se fracassarmos agora tudo se perder\u00e1 e seguir\u00e3o imperando as mesmas for\u00e7as dominantes. Se abrirmos espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto maior de transforma\u00e7\u00e3o deste continente, isso pode significar a transforma\u00e7\u00e3o do mundo, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais apenas transforma\u00e7\u00e3o, mas a salva\u00e7\u00e3o do mundo, pois o caminho que estamos trilhando leva \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o total do planeta. Tenho esperan\u00e7a de que esta nova onda rebelde n\u00e3o ser\u00e1 perdida e que nossos filhos ver\u00e3o um continente diferente. Oxal\u00e1 os l\u00edderes estejam \u00e0 altura dos povos.<\/p>\n<p><strong>No paro petrolero o Brasil enviou petr\u00f3leo para a Venezuela. Agora a Venezuela envia petr\u00f3leo \u00e0 Argentina. Isso prova a necessidade e a possibilidade da integra\u00e7\u00e3o latino-americana e caribenha<\/strong><\/p>\n<p>Esses epis\u00f3dios s\u00e3o ensaios dessa integra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos esquecer da ajuda de Fernando Henrique Cardoso e depois de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que tamb\u00e9m nos ajudou enviando navios com combust\u00edvel para aliviar nossos problemas. Agora o presidente N\u00e9stor Kirchner pediu apoio diante de problemas internos com energia e n\u00e3o hesitamos um segundo.<\/p>\n<p>Inclusive quando ele me falou do problema eu disse que se necess\u00e1rio, levar\u00edamos uma refinaria daqui para l\u00e1. Em breve, cumpriremos a cota de 300 mil barris de combust\u00edvel enviados \u00e0 Argentina.<\/p>\n<p><strong>Recentemente, a imprensa divulgou a correspond\u00eancia trocada entre o chanceler do Brasil e o secret\u00e1rio de Estado dos EUA, revelando diferen\u00e7as nas negocia\u00e7\u00f5es da \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (Alca). Como isso refor\u00e7a a proposta da Alternativa Bolivariana para as Am\u00e9ricas (Alba)?<\/strong><\/p>\n<p>Todos sabem que estamos propondo uma alternativa \u00e0 Alca, que \u00e9 um projeto neocolonial: a Alba contra a Alca, que agora vem se estruturando como um modelo de integra\u00e7\u00e3o distinto. Entre Cuba e Venezuela estamos avan\u00e7ando nesse modelo, que chamamos de Alba, mas pensando em uma integra\u00e7\u00e3o para toda a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Quando nos visitaram os presidentes Kirchner e Lula, na reuni\u00e3o do G-15, est\u00e1vamos planejando algumas linhas estrat\u00e9gicas do que poderia ser essa integra\u00e7\u00e3o do Sul, como queria Bol\u00edvar, que pretendia articular um bloco de for\u00e7a pol\u00edtica, n\u00e3o s\u00f3 de integra\u00e7\u00e3o comercial. Estamos propondo para a Am\u00e9rica do Sul um fundo financeiro das regi\u00f5es, que funcionaria como semente de um novo fundo para crescer progressivamente, um fundo latino-americano de reserva. Mas ainda falta decis\u00e3o pol\u00edtica para criar isso, ainda h\u00e1 o temor ante o FMI e o imp\u00e9rio. Propusemos a cria\u00e7\u00e3o da Petrosul, que representaria uma capacidade energ\u00e9tica enorme juntando Petrobras, PDVSA, Petroperu e outras petroleiras da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Somando as reservas petroleiras de todos, ser\u00edamos os maiores do mundo em reserva e em energia! Propusemos tamb\u00e9m uma televis\u00e3o do Sul para que nossos povos n\u00e3o assistam s\u00f3 a CNN ou o que queiram projetar os poderes hegem\u00f4nicos. J\u00e1 temos os mecanismos, o canal 8 da Venezuela, temos a ViveTV. No Brasil h\u00e1 v\u00e1rias emissoras p\u00fablicas, como no Estado do Paran\u00e1; h\u00e1 emissoras comunit\u00e1rias tamb\u00e9m na Argentina.<\/p>\n<p>Basta uma decis\u00e3o pol\u00edtica e far\u00edamos isso amanh\u00e3 mesmo! Temos avan\u00e7ado nas conversas para uma coopera\u00e7\u00e3o entre o canal venezuelano e argentino para fazer essa TV do Sul. Assim, estamos propondo a Petrosul, a TV do Sul e um fundo financeiro latino-americano que incremente nossa soberania econ\u00f4mica. Propomos criar um banco do Sul.<\/p>\n<p>Imagine se, em vez de colocar nossas divisas num banco dos EUA, coloc\u00e1ssemos em banco do Sul, que tamb\u00e9m pode ser articulado com \u00c1frica e \u00c1sia! Criar uma universidade do Sul, articulada. Uma miss\u00e3o Robinson, para que em poucos anos n\u00e3o houvesse mais analfabetos no continente. Uma miss\u00e3o Bairro Adentro, de sa\u00fade e a\u00e7\u00e3o conjunta, inclusive com o apoio das for\u00e7as armadas de cada pa\u00eds, como fazemos aqui na Venezuela. Eu considero que o crit\u00e9rio da Alca est\u00e1 morto.<\/p>\n<p><strong>O governo bolivariano decidiu suspender projetos de soja com sementes transg\u00eanicas?<\/strong><\/p>\n<p>Suspendemos os projetos com transg\u00eanicos e vamos fazer uma esp\u00e9cie de um banco de sementes n\u00e3o transg\u00eanicas para oferecer aos pa\u00edses pobres. Parabenizo o governador do Estado do Paran\u00e1, Roberto Requi\u00e3o, pela decis\u00e3o adotada sobre os transg\u00eanicos e a ele envio minha solidariedade. Tenho muita curiosidade de saber, inclusive, como ele tem desenvolvido os projetos agr\u00edcolas na regi\u00e3o e, quem sabe, fazer um interc\u00e2mbio de experi\u00eancias nesse sentido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Material \u00e9 parte das celebra\u00e7\u00f5es de 20 anos do jornal Brasil de Fato; entrevista foi publicada em abril de 2004<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[978,21,1858,777,995,1364,562,1229,701,312,403,1385,409,1126,739,1114,1819,1040,1005,795,1179,961,778,883,18,659,932,373,1762,892,1493,954,1188,1710,27,1623,374,858,1716,282,1212,447,1614,1232,703,1010,303,1244,301,1539,1042,1504,814,1308,966,1115,564,57,848,584,415,960,1677,881],"class_list":["post-189967","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-abril","tag-argentina","tag-asia","tag-brasil","tag-colombia","tag-combustivel","tag-comercio","tag-comunicacao","tag-congresso","tag-corrupcao","tag-democracia","tag-dinheiro","tag-direcao","tag-divida","tag-editora-expressao-popular","tag-educacao","tag-eleicoes","tag-empresarios","tag-encontro","tag-energia","tag-entrevista","tag-estados","tag-estados-unidos","tag-eua","tag-exercito","tag-filhos","tag-fmi","tag-forcas-armadas","tag-golpe","tag-golpes","tag-governo","tag-ira","tag-jovens","tag-luiz-inacio-lula-da-silva","tag-lula","tag-meta","tag-militares","tag-minha-vida","tag-ministro","tag-morte","tag-mudancas","tag-negros","tag-nomes","tag-petroleiras","tag-petroleo","tag-pobres","tag-policia","tag-presidente","tag-prisao","tag-produtos","tag-projeto","tag-proposta","tag-queda","tag-recursos","tag-reuniao","tag-saude","tag-semana-santa","tag-senado","tag-soberania","tag-trabalhadores","tag-trabalho","tag-uniao","tag-uso","tag-visto"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/189967","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=189967"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/189967\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=189967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=189967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=189967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}