{"id":193495,"date":"2024-07-30T14:58:36","date_gmt":"2024-07-30T14:58:36","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=193495"},"modified":"2024-07-30T14:58:36","modified_gmt":"2024-07-30T14:58:36","slug":"o-que-a-gente-defende-e-produzir-comida-e-nao-commodities-diz-dirigente-da-fetraf-rs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=193495","title":{"rendered":"\u2018O que a gente defende \u00e9 produzir comida e n\u00e3o commodities\u2019, diz dirigente da Fetraf-RS"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Nascida no campo, Cleonice Back se tornou militante das lutas agr\u00e1rias, sindicalista, suplente de senador e hoje ocupa a diretoria da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/10\/20\/o-agro-nao-e-pop-estudo-aponta-que-a-fome-e-resultado-do-agronegocio\"> Agricultura Familiar<\/a> do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS). L\u00e1, atua na Coordena\u00e7\u00e3o da Mulher Agricultora.<\/p>\n<p>Nesta semana, que marca mais uma passagem do\u00a0Dia do Trabalhador e da Trabalhadora Rural e do <a href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/25\/populacao-nao-tem-dimensao-da-importancia-da-agricultura-familiar-que-leva-comida-a-mesa-diz-coordenador-do-mst\">Dia Internacional da Agricultura Familiar<\/a>, a reportagem do <strong>Brasil de Fato RS <\/strong>ouviu a sua hist\u00f3ria.\u00a0<\/p>\n<p>Cleonice \u00e9 testemunha de como a vida dos pequenos agricultores se transformou com a alavanca dos programas sociais. Mas, hoje, \u00e9 preciso mais. \u00c9 preciso, no caso do Rio Grande do Sul, salvar da pobreza quem perdeu tudo com as cheias. Ela tamb\u00e9m defende que o governo federal lance uma vers\u00e3o do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC) para a agricultura familiar.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS \u2013 Para come\u00e7ar, quero ouvir um tanto da tua trajet\u00f3ria. Seus pais eram agricultores, correto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cleonice Back \u2013<\/strong>\u00a0Sim. Durante a minha inf\u00e2ncia, meus pais tinham cinco hectares somente. Trabalhavam com soja, milho, leite. Uma parte da terra eles tinham arrendado, eram do meu av\u00f4. Mor\u00e1vamos numa casa bem prec\u00e1ria, de madeira. E quando eu tinha uns oito anos, meu pai comprou mais uma parte da terra do meu av\u00f4 e aumentou um pouco mais a \u00e1rea, o que melhorou as condi\u00e7\u00f5es do trabalho e renda.\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/brasildefators_enchentes\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/assets\/7f79d3d45758c62a8dbbe78cfa5148e4.gif\"><\/a><\/p>\n<p><strong>BdF:\u00a0 Onde eram as terras?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No munic\u00edpio de Tiradentes do Sul, comunidade de Lajeado do Bugre, onde moro at\u00e9 hoje. \u00c9ramos quatro irm\u00e3os. Minha irm\u00e3 mais velha saiu de casa com 16 anos para trabalhar como empregada dom\u00e9stica e estudar em Tr\u00eas Passos. Minha segunda irm\u00e3 casou tamb\u00e9m aos 16 e saiu de casa. Ficamos eu, meu irm\u00e3o, meu pai e minha m\u00e3e. E minha m\u00e3e sempre teve muitos problemas de sa\u00fade. Comecei muito cedo a ajudar na casa e na lavoura, principalmente na colheita de soja e na produ\u00e7\u00e3o de leite. Na \u00e9poca, n\u00e3o t\u00ednhamos ordenhadeira e se tirava leite tudo \u00e0 m\u00e3o. Comecei aos cinco anos.<\/p>\n<p>Depois, comprou a primeira ordenhadeira, o resfriador, e a\u00ed come\u00e7ou a melhorar um pouco. Minha m\u00e3e tinha de ficar acamada ou internada. De manh\u00e3, eu fazia o almo\u00e7o e \u00e0 tarde, ia pra ro\u00e7a ajudar a colher soja e milho ou plantar. De noite, ia para a aula. Fazia o segundo grau. Chegava em casa, comia algo, dormia e, no dia seguinte, seguia a luta. Muito dura, n\u00e9?<\/p>\n<p>Mas sempre digo que, para mim, me fez bem. Apesar de todas as dificuldades, a gente conseguiu superar todas elas. Meu pai conseguiu fazer um investimento na propriedade atrav\u00e9s do Pronaf (Programa Nacional da Agricultura Familiar) e deu uma melhorada.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Nunca passamos fome. Mas, \u00e0s vezes, n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de comprar g\u00e1s<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Nunca passamos fome. Sempre produzimos muito para comer. Mas, \u00e0s vezes, n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de, por exemplo, comprar g\u00e1s. Ent\u00e3o, era s\u00f3 fog\u00e3o a lenha. N\u00e3o tinha carro, n\u00e3o tinha moto. Para ir na cidade, meu pai usava a carro\u00e7a. No final de semana, a gente ajudava o pai e a m\u00e3e a levar nata, ovos, frango para vender na cidade.<\/p>\n<p>Foi uma inf\u00e2ncia diferente, mas aprendi muito. Quando eu tinha 12 anos, todo s\u00e1bado de manh\u00e3 eu ia fazer faxina na casa do meu av\u00f4 e da minha av\u00f3 que moravam sozinhos. Ganhava R$ 7 na \u00e9poca. Era um recurso que eu tinha. Desde l\u00e1, tinha o meu dinheiro, a minha independ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>BdF: Em que momento exatamente isso aconteceu?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje estou com 41&#8230;Tinha 12 ou 13 anos. Meu pai participava muito do sindicato, e o sindicato queria construir uma sede pr\u00f3pria. E, na \u00e9poca, o sindicato encaminhou as propostas de Pronaf e cobrou R$ 10 de cada associado. A\u00ed, o presidente do sindicato perguntou se tinha algu\u00e9m com um filho ou filha para que pudesse ir l\u00e1 ajudar. A\u00ed eu fui durante tr\u00eas meses, mas acabei ficando seis e aprendi logo muitas outras coisas como encaminhar propostas do Pronaf&#8230;\u00a0<\/p>\n<p><strong>BdF: E foi mordida pela milit\u00e2ncia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, da\u00ed voltei para casa e comecei a trabalhar num com\u00e9rcio que vendia material de constru\u00e7\u00e3o. Mas o pessoal do sindicato foi me procurar de novo. Voltei e j\u00e1 entrei na luta sindical.<\/p>\n<p>Uma das principais bandeiras era a quest\u00e3o da sucess\u00e3o rural. A perman\u00eancia do jovem no campo, sabe? Organizamos grupos de jovens e eu participava da Comiss\u00e3o de Jovens da Fetag (Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na Agricultura\/RS). Vinha de \u00f4nibus para Porto Alegre, viajava a noite inteira.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/bd39fadb40005092d515d2d1936cb3f7.webp\"><br \/>\n&#8220;Sou agricultora familiar gra\u00e7as \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas do governo Lula&#8221; \/ Foto: Rafa Dotti<\/p>\n<p>Foi um per\u00edodo em que o movimento sindical tamb\u00e9m teve uma ruptura. V\u00e1rios sindicatos ajudaram a construir a Fetraf (Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar) nos tr\u00eas estados do sul. Foi nos anos 2000. Nosso sindicato tamb\u00e9m foi e comecei a participar da organiza\u00e7\u00e3o dos jovens da Fetraf. N\u00e3o muito tempo depois, me escolheram como coordenadora estadual da juventude da Fetraf.<\/p>\n<p>Trabalh\u00e1vamos muito a quest\u00e3o do cr\u00e9dito fundi\u00e1rio. Foi uma luta at\u00e9 para conquistar um programa. Fizemos muitas mobiliza\u00e7\u00f5es, entre elas a ocupa\u00e7\u00e3o do INCRA aqui em Porto Alegre. Conquistamos o programa no governo Lula para que os jovens pudessem permanecer no campo e comprar suas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Sempre digo que sou agricultora familiar gra\u00e7as \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas do governo Lula. Tive o privil\u00e9gio de poder falar isso para ele. Meus pais tinham pouca terra. Os pais do meu esposo tamb\u00e9m tinham pouca \u00e1rea. Eu n\u00e3o queria morar com os meus pais ou com o sogro e sogra para tocar a propriedade. Tinha o interesse de permanecer no campo mas de n\u00e3o morar com eles. Ent\u00e3o, pelo programa do Cr\u00e9dito Fundi\u00e1rio, conseguimos comprar 8,8 hectares. Era uma propriedade que n\u00e3o tinha n\u00e3o tinha luz, n\u00e3o tinha nada. Por meio do Luz para Todos conseguimos acessar a energia el\u00e9trica. Com o Minha Casa Minha Vida, conseguimos fazer uma casa. Era pequena, 7mts. por 7,5mts. mas para mim estava \u00f3timo.<\/p>\n<p>No sindicato, ajudei a trabalhar muito isso: a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Aquela era a minha situa\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m a de muitas fam\u00edlias.<\/p>\n<p><strong>BdF: Isso quando voc\u00ea estava na Fetraf?<\/strong><\/p>\n<p>Na Fetraf. Com 20 anos, me filiei ao PT. E me convidaram para ser candidata a vereadora. \u00a0Fui para a campanha mas nunca imaginei que iria me eleger. Fui a vereadora mais jovem no munic\u00edpio. A\u00ed fiquei pensando, e agora O que vou fazer? N\u00e3o tenho no\u00e7\u00e3o disso. Fui estudar e aprender esse novo mundo. Mas continuei atuando no sindicato.<\/p>\n<p>Depois, concorri \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o como vereadora. Mas a oposi\u00e7\u00e3o colocou minha irm\u00e3 de candidata. Faltaram cinco votos para me reeleger.\u00a0<\/p>\n<p><strong>BdF: E depois?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Algumas portas se fecham, outras se abrem. Ent\u00e3o, continuei no movimento sindical. Fui convidada, na \u00e9poca, pelo Altemir Tortelli, que era o coordenador da Fetraf sul, para assumir a Secretaria de Mulheres da federa\u00e7\u00e3o. Eu, primeiro, n\u00e3o queria. Mas ele foi bastante insistente. Ent\u00e3o, fui para a executiva da Fetraf Sul, onde havia nove membros. Comecei a ter essa atua\u00e7\u00e3o sindical em n\u00edvel dos tr\u00eas estados.<\/p>\n<p>Fizemos muitas agendas importantes. Realizamos um encontro com mais de seis mil mulheres da regi\u00e3o sul, munic\u00edpio de Constantina em 2012. Foi um momento tamb\u00e9m muito marcante na minha vida.<\/p>\n<p>E a\u00ed me convidaram para assumir a Fetraf do Rio Grande do Sul. Superei meus medos e aceitei de novo. Fui coordenadora por cinco anos. Decidimos mudar a organiza\u00e7\u00e3o da federa\u00e7\u00e3o e criamos as federa\u00e7\u00f5es estaduais. Criamos a Fetraf RS, que comemora 10 anos em 2024. Fui a primeira coordenadora estadual da Fetraf RS. Foi fundada em Sananduva, com a presen\u00e7a do governador do estado, Tarso Genro, e mais de tr\u00eas mil agricultores. Depois fui para a executiva da CUT.<\/p>\n<p>Mas nunca me desvinculei da propriedade. Quando o pessoal dizia \u00b4mas \u00e9 muito longe, voc\u00ea tem que vir morar mais perto, n\u00e3o sei o qu\u00ea`. Eu sempre respondia que n\u00e3o iria sair da base. Porque quando voc\u00ea tira o p\u00e9 de l\u00e1, teu pensamento \u00e9 outro, tua cabe\u00e7a \u00e9 outra, teu sentimento \u00e9 outro.<\/p>\n<p>Sempre trabalhei e sempre disse que nunca quero depender do movimento sindical ou da pol\u00edtica para viver. Quero ter minha propriedade, meu ganha-p\u00e3o. Ent\u00e3o, quando tomei a decis\u00e3o de ficar mais pelo munic\u00edpio, assumi a presid\u00eancia do sindicato l\u00e1 de novo. Estava tentando a maternidade, n\u00e3o queria ter mais uma atua\u00e7\u00e3o estadual. Porque fica mais dif\u00edcil, n\u00e9?<\/p>\n<p>T\u00ednhamos feito toda essa luta da quest\u00e3o da previd\u00eancia, contra a reforma, e convidamos o senador Paulo Paim e sua equipe para nos acompanhar. Organizamos a Caravana da Agricultura Familiar em Defesa da Previd\u00eancia. Fizemos muitas agendas nas regi\u00f5es. Foi ent\u00e3o que me aproximei mais do senador. Quando eu queria voltar para casa, ele me convidou para estar na chapa majorit\u00e1ria.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Uma das melhores coisas \u00e9 o modo de vida do agricultor familiar<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Acabei aceitando mais um grande desafio para a minha vida. Na conven\u00e7\u00e3o, fui escolhida para ser o segundo nome ao Senado, porque eram dois. E depois o PCdoB veio e eu abri m\u00e3o. O [ent\u00e3o candidato ao governo estadual] Miguel Rosseto me convidou para ser a vice dele. N\u00e3o aceitei porque estava gr\u00e1vida da minha menina. Ent\u00e3o foi a [hoje vereadora] Ana Affonso.<\/p>\n<p>Fui a primeira suplente do senador Paim. Fiz mais de 35 mil quil\u00f4metros com ela na barriga e sempre nessa defesa da agricultura familiar, uma causa que assumi para a minha vida. A defesa do agricultor familiar e, em especial, a quest\u00e3o dos jovens e das mulheres.<\/p>\n<p>Vejo que temos muitas dificuldades ainda de avan\u00e7ar, principalmente na quest\u00e3o da autonomia financeira, na gera\u00e7\u00e3o de renda. N\u00e3o falo por algu\u00e9m que vejo, n\u00e3o. \u00c9 aquilo que eu vivo. Ent\u00e3o, se o pre\u00e7o do leite despenca, l\u00e1 em casa a renda baixa. A gente sabe quando tem estiagem, quando falta \u00e1gua.<\/p>\n<p>Quero viver l\u00e1 porque acho que uma das melhores coisas \u00e9 o modo de vida do agricultor familiar. \u00c9 um bom lugar para se viver. Com as a\u00e7\u00f5es e programas que conquistamos, conseguimos melhorar muito a realidade do campo.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Minha av\u00f3 tinha aquelas lamparinas de querosene. Vivi aquela pobreza e tamb\u00e9m esse processo de melhoria<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>BdF: Qual \u00e9 o paralelo que voc\u00ea faz entre sua inf\u00e2ncia e hoje?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sou uma testemunha da mudan\u00e7a de vida. Lembro que, \u00e0 noite, chegava em casa da aula e a m\u00e3e deixava o feij\u00e3o e o arroz ao lado do fog\u00e3o, e eu fritava um ovo com palha de milho porque n\u00e3o tinha dinheiro para comprar g\u00e1s. E agora, os agricultores t\u00eam g\u00e1s, t\u00eam energia solar, t\u00eam micro-ondas. T\u00eam torneira el\u00e9trica, chaleira el\u00e9trica, at\u00e9 ar-condicionado. \u00c9 outra realidade.<\/p>\n<p>Minha av\u00f3 tinha aquelas lamparinas de querosene. Vivi aquela pobreza e tamb\u00e9m esse processo de melhoria. O grande salto de qualidade de vida dos agricultores familiares foi nos governos Lula e Dilma, com as pol\u00edticas p\u00fablicas. Quando veio o Pronaf com o rebate de R$ 600 para os agricultores, que hoje n\u00e3o \u00e9 muito, mas na \u00e9poca valia bastante, os agricultores come\u00e7aram a ser inclu\u00eddos no cr\u00e9dito, o que antes n\u00e3o eram. O agricultor era mau visto dentro do banco. E a partir do Plano Safra da Agricultura Familiar e da lei que garantiu a profiss\u00e3o de agricultor familiar, cada um pode dizer com orgulho a sua profiss\u00e3o. Temos uma lei que ampara, temos o cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>\u00cdamos para as ruas e diz\u00edamos que t\u00ednhamos cr\u00e9dito, mas n\u00e3o t\u00ednhamos casa. A\u00ed veio o Ol\u00edvio Dutra e criou um programa estadual de habita\u00e7\u00e3o. Depois, Ol\u00edvio se tornou ministro das cidades e criou o programa PNHR Habita\u00e7\u00e3o Rural, quando come\u00e7amos a construir e reformar muitas casas.<\/p>\n<p>Lembro do depoimento de uma mulher que disse assim \u00b4Cleonice, agora n\u00e3o preciso mais ter medo dos meus filhos passarem frio, porque na nossa casa entrava muito vento. Com minha casinha nova, n\u00e3o vou mais sentir esse frio`. Foi um momento melhor da minha vida. E a\u00ed era cr\u00e9dito, era recurso para comprar terra, era recurso para a casa, era recurso para investimento, mais recurso para assist\u00eancia t\u00e9cnica. Foi um per\u00edodo que deu uma mudan\u00e7a de realidade no campo.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Existem muitos problemas ainda como o endividamento, o alto custo de produ\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Antes disso, muitas pessoas tamb\u00e9m deixaram o campo e vieram para as regi\u00f5es metropolitanas buscar renda, emprego. Hoje, minha sobrinha, que trabalhava na prefeitura, foi para casa tirar leite porque ela ganha mais.<\/p>\n<p>Existem muitos problemas ainda na agricultura familiar, principalmente o tema do endividamento, do alto custo de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 um desafio porque voc\u00ea tem que fazer manobras porque baixa, \u00e0s vezes, o pre\u00e7o dos produtos. Tem meses que sobra pouco. Mas hoje os agricultores t\u00eam estrutura. Veio o programa Mais Alimento e o pessoal conseguiu comprar m\u00e1quinas, equipamentos, tratores, caminhonetes.\u00a0<\/p>\n<p>Claro, teve muitos agricultores que n\u00e3o conseguiram acessar essas pol\u00edticas p\u00fablicas, foram para a margem das pol\u00edticas sociais e hoje est\u00e3o no Bolsa Fam\u00edlia ou dependem de um sal\u00e1rio m\u00ednimo de aposentadoria para viver. Nem todos conseguiram ter essa migra\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica estruturante. Ainda temos esse problema.\u00a0<\/p>\n<p><strong>BdF: Voc\u00ea consegue fazer uma an\u00e1lise de quem conseguiu acessar as pol\u00edticas p\u00fablicas e quem n\u00e3o? Os agricultores foram mais organizados em sindicatos, em federa\u00e7\u00f5es, em movimentos?<\/strong><\/p>\n<p>Quem estava organizado teve mais facilidade. E esses n\u00f3s conseguimos beneficiar com muitas pol\u00edticas p\u00fablicas. Tinha aquele que n\u00e3o vinha nas reuni\u00f5es. O sindicato ia para o interior, para a comunidade, mas o agricultor n\u00e3o vinha. E a\u00ed aquele foi praticamente exclu\u00eddo da pol\u00edtica p\u00fablica e continua hoje morando numa casa prec\u00e1ria, acessando pol\u00edticas sociais como o Bolsa Fam\u00edlia. Outra leva tamb\u00e9m que n\u00e3o conseguiu acessar, \u00e0s vezes, por irregularidades na documenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha o documento da terra em dia e n\u00e3o conseguiu acessar habita\u00e7\u00e3o e o Pronaf. Teve muitas \u00e1reas ilegais e, embora a fam\u00edlia vivesse ali havia 100 anos, n\u00e3o tinha o t\u00edtulo.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>O agroneg\u00f3cio tenta cooptar agricultores familiares dizendo que eles s\u00e3o do agro<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Esse \u00e9 o p\u00fablico que foi exclu\u00eddo dessas pol\u00edticas p\u00fablicas. Tamb\u00e9m tivemos casos em que os agricultores fizeram essa busca dos financiamentos mas n\u00e3o conseguiram fazer uma boa gest\u00e3o e foram \u00e0 fal\u00eancia. Parte dos recursos das pol\u00edticas p\u00fablicas era subsidiada, mas parte era financiada. E isso fez com que o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/10\/20\/o-agro-nao-e-pop-estudo-aponta-que-a-fome-e-resultado-do-agronegocio\">agroneg\u00f3cio <\/a>venha cooptando essas propriedades da agricultura familiar. Hoje estamos vivendo uma disputa muito grande entre a agricultura familiar e o agroneg\u00f3cio. O agroneg\u00f3cio tenta cooptar agricultores familiares, dizendo que esses agricultores familiares s\u00e3o do agro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>BdF: \u00c9 uma grande propaganda&#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E tamb\u00e9m muitos agricultores familiares se consideram do agro. Mas a\u00ed se tu vais olhar, mas quanta terra tem? Qual \u00e9 tua renda N\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 agricultor familiar. Porque agricultor familiar \u00e9 aquele que tem uma \u00e1rea de at\u00e9 quatro m\u00f3dulos fiscais. Varia de regi\u00e3o para regi\u00e3o, mas na minha \u00e9 de 80 hectares. Logo, a grande maioria dos agricultores do Rio Grande do Sul s\u00e3o agricultores familiares. A porcentagem do agroneg\u00f3cio \u00e9 muito pequena. Eles podem at\u00e9 se considerar do agro, mas, perante a legisla\u00e7\u00e3o, eles s\u00e3o agricultores familiares.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, a gente brinca: &#8216;se tu \u00e9 do agroneg\u00f3cio, ent\u00e3o n\u00e3o te enquadras como segurado especial da previd\u00eancia. Que \u00e9 a aposentadoria atrav\u00e9s do bloco do produtor. Ent\u00e3o, ele assume&#8217;.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o que \u00e9 um dos grandes desafios que a agricultura familiar tamb\u00e9m vive s\u00e3o as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>BdF: Tivemos seca, enchente&#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cleonice\u00a0\u2013<\/strong> Sim. E depois do impeachment da Dilma tivemos um per\u00edodo de retrocessos. Apesar de que acho que a agricultura familiar foi a \u00fanica n\u00e3o atingida pela reforma da Previd\u00eancia. A \u00fanica coisa que perdemos foi a quest\u00e3o da aposentadoria, a pens\u00e3o integral, porque na idade n\u00e3o se mexeu como se mexeu nos urbanos.<\/p>\n<p>Fui com minha menina de tr\u00eas meses no colo para Bras\u00edlia para uma audi\u00eancia p\u00fablica no Senado. Fui falar em defesa das mulheres agricultoras. Deveriam se aposentar aos 55 anos enquanto o governo queria alterar para 60 anos.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Tivemos seca em que n\u00e3o havia \u00e1gua para o consumo humano<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Mas tivemos a perda do MDA, de v\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00e3o tivemos mais contrata\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o rural desde que a Dilma saiu. Mas, agora, estamos retomando mais recursos, retomando Minha Casa Minha Vida, retomando cr\u00e9ditos novos subsidiados para os agricultores e o grande desafio de ter um olhar especial para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Tivemos seca em que, na minha propriedade, n\u00e3o havia \u00e1gua para lavar lou\u00e7a. N\u00e3o tinha \u00e1gua para o consumo humano. E depois, com tanta chuva e n\u00e3o s\u00f3 onde a enchente chegou, tivemos perda de renda, diminui\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma dos grandes desafios que n\u00f3s temos. Porque a agricultura familiar tem que gerar vida, alimento, produzir, mas em sintonia com o meio ambiente. N\u00e3o vivemos sozinhos no mundo. Temos todo esse problema do aquecimento global e o que ele est\u00e1 impactando.<\/p>\n<p>O que a gente defende \u00e9 produzir comida e n\u00e3o commodities. E com as altas do pre\u00e7o, por exemplo, da soja, um grupo grande de agricultores migrou para a produ\u00e7\u00e3o de soja. Saiu da produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Assim, diminu\u00edmos a produ\u00e7\u00e3o de leite e de feij\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>BdF: Voc\u00eas discutem na Fetraf tamb\u00e9m a agroecologia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cleonice \u2013 <\/strong>Sim, bastante. \u00c0s vezes, temos dificuldade com os agricultores, deles aceitarem trabalhar a agroecologia e a produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica. Estamos come\u00e7ando a discutir, pautamos o governo, um processo de transi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisa mudar da noite para o dia. Vamos pensar em diminuir o uso de agrot\u00f3xicos, cuidar mais do solo e da natureza. \u00c9 poss\u00edvel. Defendemos isso.<\/p>\n<p>Uma das nossas propostas apresentadas \u00e9 um PAC para a agricultura familiar, para o seu desenvolvimento. Um conjunto de quest\u00f5es, olhando n\u00e3o s\u00f3 para o cr\u00e9dito, mas tamb\u00e9m a infraestrutura no campo, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis, a quest\u00e3o das sementes para n\u00e3o termos essa depend\u00eancia que temos hoje das multinacionais.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Minha regi\u00e3o tem um dos maiores \u00edndices de c\u00e2ncer do estado. E o maior \u00edndice de uso de agrot\u00f3xicos<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Os desafios n\u00e3o s\u00e3o pequenos. Mas \u00e9 a luta e a vontade de permanecer no campo produzindo alimentos. Como agricultores familiares, a gente tem essa miss\u00e3o de produzir alimentos. Sempre digo que sou agricultora de profiss\u00e3o e de cora\u00e7\u00e3o. Acredito que \u00e9 poss\u00edvel produzir alimentos saud\u00e1veis, ter um novo modelo produtivo, diminuir, pelo menos, o uso do agrot\u00f3xico. Pensar nos nossos filhos, ter uma comida mais saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Hoje, minha regi\u00e3o tem um dos maiores \u00edndices de c\u00e2ncer do Rio Grande do Sul. E tem o maior \u00edndice de uso de agrot\u00f3xicos. Pesquisas mostram que at\u00e9 no leite materno encontram agrot\u00f3xico. O que vai ser dos nossos filhos? Eu tenho uma filha de cinco anos e n\u00e3o quero isso para ela. Precisamos pensar nisso.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/7370f13c1eb2b793f9e438116661a92a.webp\"><br \/>\n&#8220;O que a gente defende \u00e9 produzir comida e n\u00e3o commodities&#8221; \/ Foto: Rafa Dotti<\/p>\n<p><strong>BdF: Como est\u00e1 a negocia\u00e7\u00e3o com o governo sobre as perdas dos agricultores com as enchentes?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Tivemos v\u00e1rias reuni\u00f5es. Participo tamb\u00e9m pelo F\u00f3rum das entidades ga\u00fachas envolvendo Fetraf, MPA, MST e outros e constru\u00edmos reuni\u00f5es conjuntas com o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio. Foi criado esse novo cr\u00e9dito para os agricultores com um subs\u00eddio que varia entre 25% e 30% de rebate, mas que n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p>Uma das grandes quest\u00f5es em negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 o tema das d\u00edvidas. Temos muitos agricultores endividados, que n\u00e3o conseguem acessar esse novo cr\u00e9dito. Temos outra situa\u00e7\u00e3o de agricultores que n\u00e3o est\u00e3o conseguindo pagar.<\/p>\n<p>Temos a expectativa de que, at\u00e9 o final do m\u00eas, o governo federal edite uma medida provis\u00f3ria beneficiando todos os agricultores familiares. Para quem perdeu tudo, quem sabe, zerar as d\u00edvidas. E, para quem teve menos perda, ter um b\u00f4nus de adimpl\u00eancia, renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o que estamos trabalhando \u00e9 a reconstru\u00e7\u00e3o das casas, da estrutura produtiva. Tivemos agricultores que perderam tudo, fam\u00edlias, propriedades. Por exemplo, em Roca Sales, uma fam\u00edlia que est\u00e1 h\u00e1 130 anos naquela propriedade com produ\u00e7\u00e3o de leite e cria\u00e7\u00e3o de su\u00ednos, passando de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, perdeu tudo. Nem o solo sobrou. Precisamos de cr\u00e9dito para esses agricultores. Tamb\u00e9m habita\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia t\u00e9cnica e, inclusive, apoio psicol\u00f3gico para essas fam\u00edlias poderem dar a volta por cima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para dirigente da Fetraf-RS, o governo Lula tem que lan\u00e7ar um PAC para a agricultura familiar<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1255,1111,1300,560,389,1096,1582,1014,1517,587,1411,596,777,1882,1176,1173,305,562,1423,579,1039,904,1464,1510,1385,756,626,1205,1005,795,322,961,1748,1488,659,859,741,1820,1756,1493,959,734,1604,434,1375,1331,1188,1187,309,345,27,412,806,894,1770,857,736,858,1716,431,1212,202,384,265,480,1687,1436,588,1702,1431,586,1244,1731,852,590,1539,763,1704,1509,1177,1308,549,1266,748,790,1214,1013,827,1115,57,849,551,584,415,1677,881],"class_list":["post-193495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acoes","tag-agricultura","tag-agricultura-familiar","tag-agronegocio","tag-alimentos","tag-alimentos-saudaveis","tag-ana","tag-aposentadoria","tag-aquecimento-global","tag-arroz","tag-audiencia","tag-bolsa-familia","tag-brasil","tag-brasilia","tag-casas","tag-cheias","tag-chuva","tag-comercio","tag-commodities","tag-consumo","tag-credito","tag-crescimento","tag-custo","tag-desenvolvimento","tag-dinheiro","tag-dividas","tag-emprego","tag-enchentes","tag-encontro","tag-energia","tag-energia-eletrica","tag-estados","tag-familias","tag-feijao","tag-filhos","tag-financiamentos","tag-fome","tag-frango","tag-gas","tag-governo","tag-governo-federal","tag-habitacao","tag-ia","tag-incra","tag-investimento","tag-ir","tag-jovens","tag-juventude","tag-legislacao","tag-lei","tag-lula","tag-maternidade","tag-medida-provisoria","tag-meio-ambiente","tag-micro","tag-minha-casa","tag-minha-casa-minha-vida","tag-minha-vida","tag-ministro","tag-mst","tag-mudancas","tag-mudancas-climaticas","tag-mulher","tag-mulheres","tag-ocupacao","tag-onibus","tag-perdas","tag-plano-safra","tag-plano-safra-da-agricultura-familiar","tag-porto-alegre","tag-preco","tag-presidente","tag-previdencia","tag-producao","tag-producao-de-alimentos","tag-produtos","tag-programas-sociais","tag-pronaf","tag-propostas","tag-reconstrucao","tag-recursos","tag-renda","tag-renegociacao","tag-rio","tag-rio-grande-do-sul","tag-rs","tag-salario","tag-salario-minimo","tag-saude","tag-senado","tag-sindicatos","tag-trabalhador","tag-trabalhadores","tag-trabalho","tag-uso","tag-visto"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/193495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=193495"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/193495\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=193495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=193495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=193495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}