{"id":194380,"date":"2024-07-31T00:40:17","date_gmt":"2024-07-31T00:40:17","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=194380"},"modified":"2024-07-31T00:40:17","modified_gmt":"2024-07-31T00:40:17","slug":"pela-economia-circular-nao-a-incineracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=194380","title":{"rendered":"Pela economia circular, n\u00e3o \u00e0 incinera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Muita gente acredita que tirando os res\u00edduos da sua frente, ele desaparece. Costumamos dizer que &#8220;joguei fora o lixo&#8221;. Mas quase todo mundo j\u00e1 sabe: n\u00e3o existe fora.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que fazer? Devemos nos inspirar na natureza, onde, como j\u00e1 nos ensinaram os cientistas, &#8220;nada se cria, nada se perde, tudo se transforma&#8221;. Inspirados na natureza, devemos agir para garantir que tudo se transforme, continuando a existir e fazer parte de um ciclo virtuoso, onde nada se perde. Por exemplo, uma garrafa de vidro de bebida pode virar um frasco de perfume.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 interesses contr\u00e1rios a isso, e que pretendem dar outra <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2022\/02\/28\/propostas-de-instalacao-de-aterros-sanitarios-mobiliza-comunidades-no-rio-grande-do-sul\">destina\u00e7\u00e3o aos res\u00edduos<\/a> que a gente gera todos os dias nas nossas casas, no trabalho, na escola, no parque, no cinema: pretendem queimar tudo isso pra gerar energia, por meio de v\u00e1rias tecnologias, como a incinera\u00e7\u00e3o (tamb\u00e9m conhecida como mass burn), a pir\u00f3lise e a gaseifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/brasildefators_enchentes\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/assets\/7f79d3d45758c62a8dbbe78cfa5148e4.gif\"><\/a><\/p>\n<p>Todas estas tecnologias destroem os res\u00edduos s\u00f3lidos por meio de t\u00e9cnicas t\u00e9rmicas \u2013 como a combust\u00e3o ou a queima em grandes estruturas industriais \u2013 com a finalidade de gerar energia el\u00e9trica a partir do calor gerado. O resultado dessas tecnologias gera v\u00e1rios impactos.<\/p>\n<p>S\u00e3o tecnologias atrasadas, dos s\u00e9culos passados, e que costumamos dizer que s\u00e3o tecnologias de &#8220;fim de tubo&#8221; &#8211; ou seja, que os processos se encerram ali. N\u00e3o s\u00e3o sustent\u00e1veis, pois: v\u00e3o precisar sempre de res\u00edduos para alimentar seu processo; emitem gases t\u00f3xicos e que contribuem para o aquecimento global; s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0s diretrizes da <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/07\/26\/reflexo-da-enchente-brasil-vem-a-passos-lentos-no-cumprimento-da-politica-nacional-de-residuos-solidos-destaca-especialista\">Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos<\/a>, aprovada em 2010, e n\u00e3o contribuem em nada com a Economia Circular.<\/p>\n<p>Os interessados em implantar esses monstrengos devoradores de lixo d\u00e3o at\u00e9 um nome bonito e pomposo para essas tecnologias atrasadas e poluidoras: Unidade de Recupera\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica (URE). Mas n\u00e3o se engane: como j\u00e1 dizia o poeta popular, &#8220;Por fora, bela viola. Por dentro, p\u00e3o bolorento.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, voltamos \u00e0quela pergunta do in\u00edcio: o que fazer? A resposta tamb\u00e9m t\u00e1 l\u00e1 no in\u00edcio: olhar e se inspirar na natureza. Devemos agir para recuperar o m\u00e1ximo de tudo que for gerado. E como fazer isso? Veja algumas dicas: separe os res\u00edduos em tr\u00eas partes\/fra\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>secos (ou recicl\u00e1veis) &#8211; papel, papel\u00e3o, vidro, metal e pl\u00e1sticos; \u00famidos (ou org\u00e2nicos) &#8211; sobras de alimentos e rejeito &#8211; papel higi\u00eanico, absorventes, fraldas. Fa\u00e7a a gest\u00e3o adequada dos res\u00edduos: n\u00e3o junte o que \u00e9 diferente. Entregue os res\u00edduos secos para a coleta seletiva de sua cidade ou para alguma cooperativa de catadores. Pesquise onde h\u00e1 local para entregar outros tipos de res\u00edduos, como l\u00e2mpadas, eletr\u00f4nicos, pneus, pilhas e baterias. Os fabricantes s\u00e3o obrigados a receber de volta.<\/p>\n<p>Fazendo com que os res\u00edduos retornem ao in\u00edcio dos processos industriais que os geraram garante a manuten\u00e7\u00e3o de todos os elementos que fizeram parte de sua cria\u00e7\u00e3o: mat\u00e9ria-prima, energia, m\u00e3o de obra, etc. Esta \u00e9 a base da Economia Circular: a garantia de que os res\u00edduos voltem a ser novos produtos e insumos.<\/p>\n<p>E, por fim, o que \u00e9 rejeito, dever\u00e1 ir para o aterro sanit\u00e1rio. Mas, como dito acima, interesses econ\u00f4micos querem impor tecnologias sujas como solu\u00e7\u00f5es limpas e renov\u00e1veis, o que \u00e9 um absurdo!<\/p>\n<p>Veja s\u00f3: para uma URE funcionar \u00e9 preciso um grande volume de res\u00edduos que poderiam ser reaproveitados na reciclagem. Al\u00e9m de interromper este ciclo, gera impactos socioambientais significativos e prejudicam quem trabalha em favor da Economia Circular: catadoras e catadores de materiais recicl\u00e1veis e composteiros (quem faz a compostagem dos res\u00edduos org\u00e2nicos).<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.brasildefatodf.com.br\/2022\/09\/20\/residuos-solidos-mais-de-uma-decada-de-politica-e-um-longo-caminho-a-percorrer\">Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos<\/a> define que os res\u00edduos s\u00f3lidos t\u00eam valor econ\u00f4mico, social e ambiental. Portanto, \u00e9 por a\u00ed que deve ocorrer a valoriza\u00e7\u00e3o deles, e n\u00e3o por meio de sua destrui\u00e7\u00e3o completa e definitiva. Se h\u00e1 hoje um baixo percentual de reciclagem \u00e9 devido \u00e0s falhas no processo de gest\u00e3o e na sensibiliza\u00e7\u00e3o da sociedade. Ou seja, na aplica\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos no nosso dia a dia.<\/p>\n<p>Vamos detalhar um pouco mais como essas tecnologias comprometem esses valores: perda de investimentos: quando um produto ou uma mat\u00e9ria-prima s\u00e3o destru\u00eddos, levam junto todo investimento feito na sua produ\u00e7\u00e3o, como os materiais utilizados na sua fabrica\u00e7\u00e3o, a energia, a \u00e1gua e a m\u00e3o de obra; impedimento da cria\u00e7\u00e3o de novos neg\u00f3cios: essa tecnologia precisa de um grande volume de res\u00edduos, impedindo que sejam aproveitados em novos neg\u00f3cios, como a compostagem e a biodigest\u00e3o dos res\u00edduos org\u00e2nicos, que hoje s\u00e3o tratados como rejeitos e encaminhados a aterros sanit\u00e1rios; e perda de postos de trabalho: uma planta de incinera\u00e7\u00e3o (ou de outra tecnologia que destr\u00f3i res\u00edduos para gerar energia) gera cerca de 50 postos de trabalho na fase de funcionamento. J\u00e1 a separa\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos, a reciclagem e a compostagem desses mesmos res\u00edduos geram centenas e at\u00e9 milhares de possibilidades para trabalhadores em diversas fun\u00e7\u00f5es e atividades.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, se for consolidado este caminho pela queima e destrui\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos, n\u00e3o haver\u00e1 empenho da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio em buscar alternativas para melhorar seus produtos e para fortalecer a cadeia de reciclagem dos res\u00edduos gerados no p\u00f3s-consumo, j\u00e1 que tudo seria queimado mesmo.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nVoltando ao funcionamento das UREs, \u00e9 preciso ressaltar que essas tecnologias geram gases de efeito estufa (GEE) e gases t\u00f3xicos, que cont\u00eam subst\u00e2ncias muito perigosas, como dioxinas e furanos &#8211; altamente cancer\u00edgenas &#8211; e exigem monitoramento e controle ambiental que dificilmente Estados e munic\u00edpios ter\u00e3o capacidade t\u00e9cnica e financeira de acompanhar.<\/p>\n<p>Entenda a complexidade e o tamanho do perigo que essas UREs representam: cerca de 60% da estrutura f\u00edsica de uma usina dessas \u00e9 composta por filtros. Ou seja, se mais da metade dos equipamentos de uma unidade industrial \u00e9 de filtros, quer dizer que o que acontece l\u00e1 dentro n\u00e3o \u00e9 nada simples.<\/p>\n<p>E, como essas unidades ser\u00e3o implantadas no cora\u00e7\u00e3o das cidades, podem agravar ainda mais a polui\u00e7\u00e3o do ar, em especial nas comunidades vizinhas onde s\u00e3o instalados, que ficam mais expostas \u00e0 probabilidade de desenvolverem c\u00e2ncer. Isso \u00e9 amplamente comprovado em estudos na \u00e1rea da sa\u00fade e tamb\u00e9m pela pr\u00f3pria estrutura das unidades de incinera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Pesquisas apontam que a qualidade do ar que respiramos tem rela\u00e7\u00e3o direta com a sa\u00fade p\u00fablica. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estima a ocorr\u00eancia de 4,2 milh\u00f5es de mortes prematuras atribu\u00eddas \u00e0 polui\u00e7\u00e3o do ar, especificamente devido ao material particulado em suspens\u00e3o no ar. Implantar uma unidade dessas nas \u00e1reas densamente povoadas \u00e9 agravar ainda mais os problemas atuais, condenando milhares de pessoas a adoecer sem que elas tenham capacidade de escolha.<\/p>\n<p>Da\u00ed vem nova pergunta: existem alternativas \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de res\u00edduos para a gera\u00e7\u00e3o de energia A resposta \u00e9 um sonoro e enorme SIM! As alternativas \u00e0 incinera\u00e7\u00e3o s\u00e3o bem conhecidas e est\u00e3o previstas na Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos: a reciclagem, a compostagem e a biodigest\u00e3o. Estas duas \u00faltimas alternativas s\u00e3o voltadas ao tratamento dos res\u00edduos org\u00e2nicos (sobras de alimentos), enquanto a reciclagem \u00e9 indicada para o tratamento e a recupera\u00e7\u00e3o\/valoriza\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos secos (papel, papel\u00e3o, metais, pl\u00e1sticos e vidros).<\/p>\n<p>Na Uni\u00e3o Europeia e em parte dos Estados Unidos, essas alternativas est\u00e3o sendo fortalecidas e incentivadas, por serem totalmente alinhadas ao conceito da Economia Circular. Tamb\u00e9m porque contribuem para reduzir drasticamente as emiss\u00f5es de GEEs e os impactos socioambientais gerados pelas tecnologias que destroem res\u00edduos para gerar energia.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para o Brasil \u00e9 investir na implementa\u00e7\u00e3o da ordem de prioridade estabelecida na PNRS, come\u00e7ando com as a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 n\u00e3o gera\u00e7\u00e3o e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos. \u00c9 urgente que tenhamos mais educa\u00e7\u00e3o ambiental, campanhas de comunica\u00e7\u00e3o para dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es como separar os res\u00edduos, mais investimento em infraestrutura para gerenciamento de res\u00edduos e, principalmente, \u2060cobran\u00e7a ao setor privado para que assuma sua responsabilidade legal por todo ciclo de vida do produto. \u00c9 vital que se estruture, implante e mantenha um sistema eficiente de log\u00edstica reversa, onde as pessoas possam descartar corretamente seus res\u00edduos p\u00f3s-consumo. Para isso, o setor industrial precisa ser mais coerente e respons\u00e1vel em colocar produtos com menos embalagens e com maior durabilidade e reciclabilidade.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o podemos esquecer que a responsabilidade pelos res\u00edduos \u00e9 compartilhada. E tanto as iniciativas p\u00fablicas e privadas devem se empenhar para reduzir a informalidade do setor da reciclagem. O regime tribut\u00e1rio precisa considerar a necessidade do fortalecimento da cadeia econ\u00f4mica da reciclagem. Mas para tudo isso acontecer, tanto o governo federal, atrav\u00e9s dos seus minist\u00e9rios, quanto a sociedade civil e os diversos segmentos da iniciativa privada precisam se unir pelo bem comum e n\u00e3o se mover apenas por interesses imediatos de cada setor. Pois al\u00e9m de n\u00e3o existir fora, todos estamos respirando o mesmo ar e vivemos no mesmo planeta.<\/p>\n<p><em>* Carlos Henrique Oliveira, arquiteto, co-fundador da Alian\u00e7a Res\u00edduo Zero Brasil.<\/em><\/p>\n<p><em>* Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do <strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;As alternativas est\u00e3o previstas na Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos: a reciclagem, a compostagem e a biodigest\u00e3o&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1255,1037,389,1517,1829,777,165,1176,1549,562,1229,579,531,1114,795,322,961,778,1362,1810,1493,959,813,1106,1375,1288,1331,1282,875,709,852,1539,1760,1115,1772,584,415,960,982],"class_list":["post-194380","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acoes","tag-acredita","tag-alimentos","tag-aquecimento-global","tag-bebida","tag-brasil","tag-calor","tag-casas","tag-cinema","tag-comercio","tag-comunicacao","tag-consumo","tag-economia","tag-educacao","tag-energia","tag-energia-eletrica","tag-estados","tag-estados-unidos","tag-funcionamento","tag-geracao-de-energia","tag-governo","tag-governo-federal","tag-industria","tag-informalidade","tag-investimento","tag-investimentos","tag-ir","tag-ministerios","tag-mover","tag-municipios","tag-producao","tag-produtos","tag-residuos-solidos","tag-saude","tag-tecnologia","tag-trabalhadores","tag-trabalho","tag-uniao","tag-uniao-europeia"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/194380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=194380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/194380\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=194380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=194380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=194380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}