{"id":196643,"date":"2024-08-01T20:42:28","date_gmt":"2024-08-01T20:42:28","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=196643"},"modified":"2024-08-01T20:42:28","modified_gmt":"2024-08-01T20:42:28","slug":"ver-a-amamentacao-a-partir-da-soberania-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=196643","title":{"rendered":"Ver a amamenta\u00e7\u00e3o a partir da soberania alimentar"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Se fechamos os olhos e tentamos imaginar alguma coisa relacionada \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o, certamente vir\u00e1 \u00e0 cabe\u00e7a a imagem id\u00edlica de uma m\u00e3e com seu beb\u00ea mamando no peito. No entanto, as dificuldades que tantas de n\u00f3s encontramos para amamentar n\u00e3o se encaixam nesse ideal de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/06\/13\/relato-amamentacao-tao-particular-e-tao-universal\">maternidade cor-de-rosa<\/a>, t\u00e3o \u00fatil para o sistema patriarcal e capitalista. \u00a0<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/08\/01\/oms-e-unicef-promovem-campanha-mundial-de-amamentacao\">amamenta\u00e7\u00e3o<\/a>, embora seja vista como uma mera op\u00e7\u00e3o individual, de forma romantizada, \u00a0tem muito mais a ver com o contexto socioecon\u00f4mico no qual ela se d\u00e1. Um contexto claramente hostil como tudo o que tem a ver com a <a href=\"https:\/\/www.brasildefatopb.com.br\/2021\/09\/15\/por-uma-maternidade-feminista-e-insubordinada\">maternidade<\/a> e o cuidado dos filhos. E \u00e9 por isso que precisamos olhar para a amamenta\u00e7\u00e3o como uma quest\u00e3o p\u00fablica e coletiva, com consequ\u00eancias pol\u00edticas, e n\u00e3o como uma quest\u00e3o privada. \u00a0<\/p>\n<p>Existe uma evidente quest\u00e3o de classe no tema da <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/08\/12\/aleitamento-materno-tambem-e-questao-de-saude-publica-defende-daiana-almeida\">amamenta\u00e7\u00e3o<\/a>. Em geral, as mulheres que podem amamentar exclusivamente ap\u00f3s os quatro meses da licen\u00e7a maternidade s\u00e3o aquelas que cujo poder aquisitivo possibilita a extens\u00e3o da licen\u00e7a de forma n\u00e3o remunerada. \u00a0<\/p>\n<p>No Estado espanhol, em 2013, as mulheres da classe alta pararam de amamentar seus beb\u00eas aos 8 meses, as de classe m\u00e9dia, aos 6,4, e as mulheres da classe mais baixa, aos 5, segundo os dados da Pesquisa Nacional sobre H\u00e1bitos na Amamenta\u00e7\u00e3o. Isso demonstra que, para defender a amamenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso defender tamb\u00e9m outro modelo trabalhista e social. \u00a0<\/p>\n<p>Amamentar, ou seja, alimentar o beb\u00ea, \u00e9 uma pr\u00e1tica alimentar como todas as outras e n\u00e3o est\u00e1 isenta de todas as tens\u00f5es intr\u00ednsecas aos <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/10\/17\/obesos-e-famintos-sao-frutos-da-logica-que-ve-comida-como-negocio-diz-pesquisadora\">sistemas alimentares<\/a>. Hist\u00f3rica e socialmente, a alimenta\u00e7\u00e3o dos beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos \u00e9 condicionada pelo modelo de alimenta\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nico. Ao longo da hist\u00f3ria, a evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo deu lugar ao que os soci\u00f3logos Harriet Friedmann e Philip McMichael chamam de \u201cregimes alimentares\u201d, que tamb\u00e9m influenciaram e influenciam a constitui\u00e7\u00e3o de determinados regimes de amamenta\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/p>\n<p>A atual globaliza\u00e7\u00e3o alimentar, por exemplo, \u00e9 caracterizada pela subordina\u00e7\u00e3o da amamenta\u00e7\u00e3o aos interesses da ind\u00fastria agroalimentar e aos do sistema m\u00e9dico, e, dentro dela, a cultura da mamadeira se imp\u00f5e \u00e0 cultura da amamenta\u00e7\u00e3o. Apesar dos avan\u00e7os significativos impulsionados pelas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade para a promo\u00e7\u00e3o do aleitamento materno, existe uma dist\u00e2ncia significativa entre o discurso institucional pr\u00f3-aleitamento e a destina\u00e7\u00e3o de recursos para promov\u00ea-lo. Por esse motivo, s\u00e3o muitas as mulheres que n\u00e3o contam com um acompanhamento adequado para as dificuldades enfrentadas para amamentar no p\u00f3s-parto. Al\u00e9m disso, h\u00e1 diversos preconceitos sociais, e tamb\u00e9m m\u00e9dicos, que abalam a confian\u00e7a das m\u00e3es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/p>\n<p>Segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade espanhol de 2017, apenas 39% dos beb\u00eas s\u00e3o alimentados exclusivamente com leite materno at\u00e9 os seis meses &#8211; como recomenda a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). A falta de acesso \u00e0 licen\u00e7a-maternidade, de apenas 120 dias (16 semanas na legisla\u00e7\u00e3o espanhola), n\u00e3o contribui para isso. Ainda assim, atualmente vemos um renascimento da amamenta\u00e7\u00e3o, similar ao que \u00e9 reivindicado de forma mais geral na defesa de outros modelos de produ\u00e7\u00e3o e consumo de alimentos que se baseiam na agroecologia. \u00a0<\/p>\n<p>Apesar dos interesses privados, as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do aleitamento materno est\u00e3o distantes das din\u00e2micas do sistema capitalista. O tempo da amamenta\u00e7\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 l\u00f3gica produtivista, o leite materno \u00e9 o alimento mais sustent\u00e1vel para o beb\u00ea, n\u00e3o gera res\u00edduos nem gases de efeito estufa e, ainda por cima, \u00e9 gratuito. E \u00e9 por isso que podemos afirmar que a amamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica ecol\u00f3gica. E \u00e9 tamb\u00e9m uma pr\u00e1tica feminista, j\u00e1 que \u00e9 ben\u00e9fica para a sa\u00fade f\u00edsica e mental da m\u00e3e, contribuindo para sua recupera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o nascimento do beb\u00ea, com a diminui\u00e7\u00e3o do risco de depress\u00e3o p\u00f3s-parto gra\u00e7as \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de ocitocina. Ao mesmo tempo, a amamenta\u00e7\u00e3o oferece \u00e0s mulheres total autonomia na alimenta\u00e7\u00e3o de seus filhos e filhas. \u00a0<\/p>\n<p>No entanto, o sistema subordina a amamenta\u00e7\u00e3o \u00e0s suas pr\u00f3prias din\u00e2micas, com uma licen\u00e7a-maternidade e licen\u00e7a-amamenta\u00e7\u00e3o extremamente curtas e diversos obst\u00e1culos impostos pelo mercado de trabalho. Com isso, as mulheres s\u00e3o for\u00e7adas a deixar de amamentar ou andar para cima e para baixo com uma bomba para tirar leite, o que tamb\u00e9m traz benef\u00edcios significativos para o setor privado. Mas n\u00e3o se trata de adaptar o aleitamento materno ao mercado, e sim \u00a0transformar a sociedade para que a amamenta\u00e7\u00e3o seja um direito garantido e n\u00e3o uma tarefa tit\u00e2nica. \u00a0<\/p>\n<p>As grandes empresas da ind\u00fastria do leite sabem que a alimenta\u00e7\u00e3o dos beb\u00eas \u00e9 um grande neg\u00f3cio, principalmente quando eles n\u00e3o s\u00e3o amamentados. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, em meados do s\u00e9culo passado, a ind\u00fastria da f\u00f3rmula, em parceria com parte dos profissionais m\u00e9dicos, conseguiu impor a ideia de que dar mamadeira \u00e9 igual ou melhor do que amamentar. Uma tese falsa, como t\u00eam demonstrado diversas pesquisas cient\u00edficas, mas que gera lucros consider\u00e1veis para essas empresas, em detrimento da sa\u00fade das m\u00e3es e dos beb\u00eas, cujas consequ\u00eancias seguimos enfrentando, como os preconceitos em rela\u00e7\u00e3o ao aleitamento materno, a perda da cultura da amamenta\u00e7\u00e3o, e as \u201camizades perigosas\u201d entre empresas e sociedades de pediatria.\u00a0<\/p>\n<p>E isso n\u00e3o significa que dar mamadeira \u00e9 necessariamente ruim, que bom que podemos recorrer a ela quando amamentar n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o poss\u00edvel ou desejada; o problema \u00e9 sermos enganadas para oferec\u00ea-la em nome do lucro, ou precisar utiliz\u00e1-la porque as exig\u00eancias do mercado de trabalho n\u00e3o nos d\u00e3o outra op\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/p>\n<p>Ver a amamenta\u00e7\u00e3o usando as lentes da soberania alimentar \u00e9 extremamente \u00fatil para compreender o conflito de interesses por tr\u00e1s de tal pr\u00e1tica alimentar. Mas o que quer dizer soberania alimentar? Nas palavras da Via Campesina, soberania alimentar \u00e9 o \u201cdireito dos povos a decidir sobre suas pr\u00f3prias pol\u00edticas agr\u00edcolas e alimentares\u201d. Isso significa garantir que o campesinado tenha acesso \u00e0 terra, \u00e0 \u00e1gua, \u00e0s sementes, e que as e os consumidores urbanos possam escolher e saber de onde vem a comida, como foi produzida e em quais condi\u00e7\u00f5es. \u00a0<\/p>\n<p>A soberania alimentar aplicada \u00e0 primeira inf\u00e2ncia corresponde ao aleitamento materno, j\u00e1 que \u00e9 ela que produz e oferece um acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o mais ecol\u00f3gico, saud\u00e1vel e local para os beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos, algo que podemos definir como soberania lactante. A soberania alimentar come\u00e7a na amamenta\u00e7\u00e3o e a soberania lactante \u00e9 o primeiro ato de soberania alimentar. \u00a0<\/p>\n<p>As multinacionais agroalimentares e as grandes cadeias de distribui\u00e7\u00e3o t\u00eam fragilizado a soberania alimentar, ao impedir que o campesinado possa ganhar a vida de forma digna e dificultar o acesso a uma dieta saud\u00e1vel, local e camponesa. J\u00e1 a soberania lactante \u00e9 atacada pela ind\u00fastria da alimenta\u00e7\u00e3o infantil, que coloca diversos obst\u00e1culos \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o e vai minando o direito dos beb\u00eas a serem amamentados. \u00a0<\/p>\n<p>Em ambos os casos, os interesses econ\u00f4micos se sobrep\u00f5em \u00e0s necessidades vitais, e muitas vezes isso ocorre com apoio instrucional, inclusive. \u00a0<\/p>\n<p>A ind\u00fastria agroalimentar e a ind\u00fastria do leite artificial s\u00e3o a mesma. Podemos ver pelo nome de algumas marcas, como Nestl\u00e9 e Danone. As principais empresas que produzem as f\u00f3rmulas s\u00e3o multinacionais que veem nos beb\u00eas de hoje os consumidores de amanh\u00e3. Portanto, a alimenta\u00e7\u00e3o das e dos rec\u00e9m-nascidos n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de escolhas individuais, ela est\u00e1 condicionada por um forte interesse privado e pelo nosso modelo de sociedade. \u00a0<\/p>\n<p>Texto publicado originalmente na <em><a href=\"https:\/\/www.pikaramagazine.com\/2021\/10\/mirar-la-lactancia-materna-desde-la-soberania-alimentaria\/\">Pikara Magazine<\/a><\/em> em outubro de 2021. \u00a0<\/p>\n<p><em>*Esther Vivas \u00e9 jornalista, soci\u00f3loga e escritora catal\u00e3 e se dedica a temas como maternidade e soberania alimentar a partir de uma perspectiva feminista e ecol\u00f3gica. Dois de seus livros est\u00e3o publicados no Brasil: O neg\u00f3cio da comida (Express\u00e3o Popular) e Mam\u00e3e desobediente (Editora Timo). \u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Luiza Man\u00e7ano \u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Revis\u00e3o: Gisele Tronquini\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7am nesta quinta (1\u00ba) o Agosto Dourado e a Semana Mundial do Aleitamento, datas para fortalecer a pr\u00e1tica no mundo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[723,389,1734,777,925,579,259,1381,667,1236,659,255,1045,813,507,309,412,1632,1147,265,289,852,1308,1727,1115,848,415],"class_list":["post-196643","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-alimentacao","tag-alimentos","tag-beneficios","tag-brasil","tag-consumidores","tag-consumo","tag-cultura","tag-dados","tag-empresas","tag-exigencias","tag-filhos","tag-geral","tag-impostos","tag-industria","tag-institucional","tag-legislacao","tag-maternidade","tag-mercado","tag-mercado-de-trabalho","tag-mulheres","tag-pesquisa","tag-producao","tag-recursos","tag-revisao","tag-saude","tag-soberania","tag-trabalho"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/196643","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=196643"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/196643\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=196643"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=196643"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=196643"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}