{"id":200244,"date":"2024-08-03T12:50:07","date_gmt":"2024-08-03T12:50:07","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=200244"},"modified":"2024-08-03T12:50:07","modified_gmt":"2024-08-03T12:50:07","slug":"voluntaria-em-crises-humanitarias-jornalista-viu-mais-tristeza-no-rs-que-em-paises-da-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=200244","title":{"rendered":"Volunt\u00e1ria em crises humanit\u00e1rias, jornalista viu mais tristeza no RS que em pa\u00edses da \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres em crises humanit\u00e1rias, normalmente est\u00e3o sozinhas. Porque os seus companheiros, se sobreviveram em um caso de guerra e conflito, eles ficaram nas aldeias, ficaram nas comunidades de origem. Ou est\u00e3o lutando na linha de frente. E essas mulheres t\u00eam uma penca de filhos. E s\u00e3o chefes de fam\u00edlia. Elas precisam tocar a vida. E fugir. E caminhar. E cruzar a fronteira. E encontrar prote\u00e7\u00e3o\u201d, descreve a jornalista Fernanda Baumhardt.\u00a0<\/p>\n<p>Formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), a ga\u00facha Fernanda estava no topo da carreira de publicidade, em cargos executivos nos canais Bloomberg e CNN, quando pediu demiss\u00e3o e deu uma virada na sua trajet\u00f3ria.\u00a0<\/p>\n<p>Autora do livro \u201cVozes \u00e0 Flor da Pele &#8211; uma humanit\u00e1ria brasileira em busca de prop\u00f3sito\u201d, nos \u00faltimos 16 anos tem se dedicado ao trabalho humanit\u00e1rio em comunidades devastadas por desastres ambientais, em campos de refugiados ou deslocados, como ocorreu no Malau\u00ed, Afeganist\u00e3o, Sud\u00e3o do Sul, Equador e Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/22bfc3f3ac7f39067afed86d7fc72104.webp\"><br \/>\nA jornalista Fernanda Baumhard \u00e9 formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) \/ Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>Passou por 25 pa\u00edses e cerca de 40 miss\u00f5es atuando com organiza\u00e7\u00f5es como a ONU, a Cruz Vermelha e o Conselho Noruegu\u00eas para Refugiados (NRC). Assim foi a conversa que tivemos com ela:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS &#8211; Para come\u00e7ar, conta um pouco da tua trajet\u00f3ria.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda\u00a0Baumhard &#8211; <\/strong>Me formei em Jornalismo na Unisinos em 1994. A disciplina em que obtive a melhor nota foi Comunica\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria que, na \u00e9poca, ainda existia. Hoje, algumas faculdades falam sobre Jornalismo Cidad\u00e3o. Mas \u00e9 essa ideia de gerar conte\u00fado com e para pessoas em minoria, em guetos, no fundo do mundo. \u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/brasildefators_enchentes\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/assets\/7f79d3d45758c62a8dbbe78cfa5148e4.gif\"><\/a><\/p>\n<p>Era isso que sempre me interessou. S\u00f3 que vendi a minha alma com 28 anos para a publicidade. As portas se abriram e acabei indo para o ve\u00edculo. Ser comercial, vender an\u00fancios, trazer dinheiro. Foi uma grande trai\u00e7\u00e3o da minha ess\u00eancia, mas que tamb\u00e9m me faz entender que n\u00e3o se pode ficar s\u00f3 olhando para o idealismo. Temos que olhar para a praticidade tamb\u00e9m. E, ent\u00e3o, eu n\u00e3o tinha grana, precisava pagar minhas contas, como hoje tamb\u00e9m n\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Quando cheguei ao topo do mundo me deparei com um grande vazio<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Fiquei na publicidade durante quase 12 anos. Cheguei na CNN, fiquei oito anos na Turner Broadcasting, na \u00e9poca era TV paga. Eu era comercial do Cartoon Network, TNT e CNN. N\u00e3o pensava em nada al\u00e9m da minha carreira. N\u00e3o era altru\u00edsta, n\u00e3o tinha despertado para esse lado humano.<\/p>\n<p>E quando cheguei no topo do mundo sem ver o mundo ao meu redor, me deparei com um grande vazio. Talvez essa crise existencial j\u00e1 estivesse em um crescendo mas estava meio silenciosa. Procurei a medita\u00e7\u00e3o budista para tentar me dar um norte interno, tipo \u00b4O que est\u00e1 acontecendo comigo?`<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Quando foi essa virada de chave?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211;<\/strong> Em 2007. Estava na CNN em Los Angeles, era executiva de contas ainda na publicidade da CNN Digital. Era a \u00fanica brasileira funcion\u00e1ria daquela divis\u00e3o nova. Estava l\u00e1, de frente pra Hollywood, com tudo aos meus p\u00e9s, com dinheiro, com poder, com glamour. E a chave virou quando vi que nada daquilo me trazia preenchimento.<\/p>\n<p>O que vejo a sociedade fazendo quando isso acontece? Muita gente procurando rem\u00e9dio, Rivotril, antidepressivo e muito poucas pessoas usando a pr\u00f3pria espiritualidade, um mergulho interior para ver o que est\u00e1 faltando. Fui por esse caminho. Precisava, para me sentir algu\u00e9m, preenchida, com sentido de vida, fazer algo pelo outro. Foi quando pedi demiss\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; E qual foi o teu primeiro trabalho nessa virada\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211;<\/strong> N\u00e3o foi um trabalho e sim uma experi\u00eancia como pesquisadora. Fui fazer um mestrado na Holanda. Quando pedi demiss\u00e3o, fui crucificada por todos. Tive uma \u00fanica tia no meu pequeno c\u00edrculo que me deu apoio. Porque, inclusive, a pr\u00f3pria CNN disse, \u00b4Vais para onde? Vais para o concorrente?` Ningu\u00e9m aceitava o que eu dizia: vou buscar um caminho. Porque essa resposta, em 2007, n\u00e3o existia.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Mas quando se fala de deslocamento for\u00e7ado com comunidades fugindo do Talib\u00e3, como em 2018?<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Ent\u00e3o nesse processo na Holanda&#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211; <\/strong>Fui fazer mestrado em Gest\u00e3o Ambiental para aprender sobre os maiores problemas do mundo. O (ex-vice-presidente dos EUA) Al Gore tinha lan\u00e7ado o document\u00e1rio Uma Verdade Inconveniente, come\u00e7ando a falar sobre crise clim\u00e1tica. E aquilo me preocupava.\u00a0<\/p>\n<p>Queria aprender o que estava acontecendo com o planeta. Minha pesquisa de campo foi com a Cruz Vermelha, em Malau\u00ed, na \u00c1frica. Foi minha primeira experi\u00eancia. Tr\u00eas meses como pesquisadora trabalhando com alde\u00f5es de cinco aldeias.\u00a0<\/p>\n<p>Minha pesquisa envolvia ajud\u00e1-los a documentar em v\u00eddeo as pr\u00e1ticas de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica que estavam fazendo. Como, por exemplo, substituir galinhas por patos. Porque eles se deram conta que os patos flutuam. E que as galinhas morriam nas enchentes repentinas. E o v\u00eddeo foi indo para outras comunidades. Foi o meu primeiro processo de v\u00eddeo participativo. Que \u00e9 uma metodologia no qual eu sou especialista.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/84b0491ea8ebae43633f12b7ab273eed.webp\"><br \/>\n&#8220;Isso me trouxe para um lugar de humildade profunda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 grandeza dessas pessoas que lutam pela sobreviv\u00eancia&#8221; \/ Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; E essas Vozes \u00e0 Flor da Pele, o que te trouxeram?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211;<\/strong> Uma necessidade de sacudir o mundo. Em todas as esferas. Vi muito sofrimento humano. No Afeganist\u00e3o, por exemplo, a menina dos olhos mais tristes do mundo, como relato no livro.\u00a0<\/p>\n<p>E sofrimento humano em que grau? Deslocamento for\u00e7ado \u00e9 o que vimos aqui no Rio Grande do Sul como consequ\u00eancia das inunda\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Mas quando se fala de deslocamento for\u00e7ado com comunidades fugindo do Talib\u00e3, como em 2018? Mil quil\u00f4metros, sem comida, sem \u00e1gua, com doen\u00e7a, sem apoio nenhum das autoridades, correndo risco de vida. S\u00e3o muitas crises somadas.\u00a0<\/p>\n<p>E isso me trouxe para um lugar de humildade profunda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 grandeza dessas pessoas que lutam pela sobreviv\u00eancia. Quando voc\u00ea se depara com essas crises m\u00faltiplas somadas, a gente chama de emerg\u00eancia complexa.\u00a0<\/p>\n<p>O que me interessa, na verdade \u00e9 mostrar para quem est\u00e1 no comando do mundo que \u00b4Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam a menor ideia do que \u00e9 esse sofrimento`. Porque, se \u00a0tivessem, teriam tomado outro rumo e outras decis\u00f5es. O que me trouxe tamb\u00e9m muita indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>As mulheres, nas crises humanit\u00e1rias, normalmente est\u00e3o sozinhas<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>BdF RS &#8211; E o livro enfatiza a voz das mulheres &#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211; <\/strong>Por que as mulheres? As mulheres, nas crises humanit\u00e1rias, normalmente est\u00e3o sozinhas. Seus companheiros, se sobreviveram em caso de guerra, ficaram nas comunidades de origem. Ou est\u00e3o lutando na linha de frente. E essas mulheres t\u00eam uma penca de filhos. S\u00e3o chefes de fam\u00edlia. Precisam tocar a vida. E fugir. E caminhar. E cruzar a fronteira. E encontrar prote\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Ouvi mulheres na linha de frente, por exemplo, na Col\u00f4mbia, as sobreviventes daquele conflito que n\u00e3o termina nunca. Apesar dos grandes holofotes em acordos de paz que n\u00e3o existem de fato. Essas mulheres tem que proteger umas \u00e0s outras. E tendo muito mais sucesso nesses movimentos sociais e nas organiza\u00e7\u00f5es de base comunit\u00e1ria do que em interven\u00e7\u00f5es de ag\u00eancias internacionais, muitas vezes, cheias de pompa.<\/p>\n<p>Tem a voz da Juana Francisca, por exemplo, no cap\u00edtulo da Col\u00f4mbia. Juana, a tecedora de dor em cor. Fort\u00edssima a voz dela. Da Mayra, uma representante de uma comunidade ind\u00edgena que tamb\u00e9m narra sua hist\u00f3ria de luta.<\/p>\n<p>E s\u00e3o vozes, o que \u00e9 mais interessante, que v\u00eam do amor e da constru\u00e7\u00e3o. A Mayra fala &#8216;N\u00f3s, mulheres, somos construtoras de paz. Precisamos ter o nosso lugar na mesa, um lugar na decis\u00e3o&#8217;.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/fd207608cef78b942185f7ba0c8d6980.webp\"><br \/>\n&#8220;Eu tenho algo para falar&#8221; \/ Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Onde essas vozes se encontram?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211; <\/strong>Humanidade. A gente acha que sabe o que \u00e9 humanidade, mas n\u00e3o sabemos. Humanidade, em um grau que eu s\u00f3 vi no terreno, e quanto pior a situa\u00e7\u00e3o de risco e de necessidade, maior a humanidade.\u00a0<\/p>\n<p>Outra coisa, o poder da comunidade unida. Quando existe essa uni\u00e3o em prol um mesmo objetivo. Eu vi muito presente nas mulheres da Col\u00f4mbia, afro-colombianas, ind\u00edgenas, que est\u00e3o na linha de frente do conflito armado. S\u00e3o sobreviventes, s\u00e3o m\u00e3es, s\u00e3o irm\u00e3s. E se unem em prol de um mesmo e \u00fanico objetivo que \u00e9 a paz.<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; E o que as diferencia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211;<\/strong> N\u00e3o d\u00e1 para dizer que a Maryam, do Afeganist\u00e3o, pela quest\u00e3o tribal, cultural, que a for\u00e7a de comunica\u00e7\u00e3o dela \u00e9 a mesma de outras mulheres em outros continentes. Tive que ter muito mais tempo com a Maryam. E o quanto que ela teve que fazer for\u00e7a para sair do fundo da sala e de baixo da sua burca para chegar at\u00e9 o microfone e dizer, &#8216;Eu tenho algo para falar&#8217;.\u00a0<\/p>\n<p>As colombianas me ensinaram muito. Se a gente olhar na Am\u00e9rica Latina, o conflito da Col\u00f4mbia \u00e9 o maior em termos de tempo. Essas mulheres lutam pela paz h\u00e1 d\u00e9cadas, apesar de todas as dores. Juana Francisca e sua filha foram violentadas. Ent\u00e3o, essa for\u00e7a n\u00e3o d\u00e1 para comparar, culturalmente falando, com a de uma Maryan no Afeganist\u00e3o.\u00a0\u00a0Mas todas, independentemente da dificuldade cultural ou da opress\u00e3o, precisam de tempo e de apoio para chegarem at\u00e9 o microfone e organizar a sua fala.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h3>N\u00e3o existiu nenhuma escuta aqui a n\u00e3o ser sobre as hist\u00f3rias de sofrimento<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Como voc\u00ea analisa o que n\u00f3s vivemos aqui?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211;<\/strong> \u00a0N\u00e3o posso fazer uma an\u00e1lise completa da situa\u00e7\u00e3o. O que posso falar \u00e9 o que vi e ouvi em um dos maiores abrigos de Porto Alegre onde vim voluntariar. Conversei com algumas fam\u00edlias para entender a situa\u00e7\u00e3o. Queria entender se estavam sendo ouvidas e se existia algum tipo de associa\u00e7\u00e3o reunindo essas vozes de forma un\u00edssona. Para que pudessem colocar nas diferentes mesas de decis\u00e3o que estavam acontecendo em paralelo ao desastre humanit\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o existia nenhuma organiza\u00e7\u00e3o de uma voz \u00fanica. Estou falando de uma voz \u00fanica apartid\u00e1ria. Estou falando da gente fazer uma consulta cidad\u00e3 em todos os abrigos, como no Peru, por exemplo. O governo do Peru fez isso na \u00e9poca da inunda\u00e7\u00e3o, em 2017. Participei disso, da Consulta Ciudadana para a prioriza\u00e7\u00e3o da reconstru\u00e7\u00e3o. Tem rodas de di\u00e1logo e in\u00fameras metodologias participativas. N\u00e3o existiu nenhuma escuta aqui a n\u00e3o ser sobre as hist\u00f3rias de sofrimento e aquilo, como jornalista tamb\u00e9m, me faz perguntar: onde est\u00e3o os jornalistas humanit\u00e1rios? Onde est\u00e3o as perguntas abertas? \u00a0<\/p>\n<p>Na minha ideia de comunicadora humanit\u00e1ria, as perguntas devem tamb\u00e9m incluir: \u00b4O que voc\u00ea precisa, nesse momento? Qual \u00e9 a sua sugest\u00e3o? Qual \u00e9 a sua prioridade? O que tu ouves mais o pessoal falar no abrigo? Qual a informa\u00e7\u00e3o que falta Quais s\u00e3o as pontas desconectadas?\u00a0<\/p>\n<p>Senti uma grande disputa de vozes, que existe ainda, com megafones, e cada vez mais essas vozes das comunidades afetadas que s\u00e3o as mais importantes, quando se fala em crise humanit\u00e1ria. Elas perderam tudo e, a meu ver, n\u00e3o receberam uma oportunidade de escuta ativa, propositiva, relevante.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Vi olhos de crian\u00e7as chegando no terceiro abrigo com medo<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Estou falando com uma lente humanit\u00e1ria, de resposta \u00e0 emerg\u00eancia. Conheci fam\u00edlias que mudaram de abrigo tr\u00eas vezes. Vi olhos de crian\u00e7as chegando no terceiro abrigo com medo. Por que? Porque, de novo, j\u00e1 haviam perdido as suas casas, n\u00e3o sabiam quando iriam voltar, n\u00e3o sabiam qual seria a solu\u00e7\u00e3o, e estavam no terceiro abrigo em 35 dias! Havia crian\u00e7as muito assustadas. Diziam \u00b4N\u00e3o, profe, n\u00e3o, tia, tenho medo de sair daqui do meu cantinho para ir brincar`. Foi de cortar o cora\u00e7\u00e3o. Fiquei t\u00e3o mais triste aqui do que nos piores pa\u00edses do mundo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>BdFRS &#8211; Nesse sentido do medo que essa situa\u00e7\u00e3o gera e os reflexos na sa\u00fade mental &#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211;<\/strong> Estive em campos de refugiados, com crian\u00e7as, como, por exemplo no Equador, que \u00e9 um pa\u00eds relativamente seguro. Em 2016, quando estava l\u00e1, um terremoto de 7.9 (na escala Richter), destruiu a costa do pa\u00eds. Essas fam\u00edlias com crian\u00e7as perderam suas casas e familiares soterrados. Quando estive l\u00e1 eram 26 campos. Abrigavam o que a gente chama de deslocados internos (IDPs). N\u00e3o s\u00e3o exatamente refugiados j\u00e1 que est\u00e3o no mesmo pa\u00eds. Havia 28 mil pessoas vivendo nesses campos.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 um problema de sa\u00fade mental tamb\u00e9m. Porque os tremores n\u00e3o param. Continuam assim como a chuva. No caso da chuva, ainda h\u00e1, minimamente, um alerta meteorol\u00f3gico. No terremoto n\u00e3o tem aviso nenhum. Come\u00e7a tudo a tremer, as crian\u00e7as se jogam no ch\u00e3o. Aquele p\u00e2nico \u00e9 um estado de alerta constante. Mas l\u00e1, nos olhos daquelas crian\u00e7as &#8211; \u00e9 nos olhos que tu v\u00eas &#8211; n\u00e3o vi neles o que vi aqui. \u00c9 algo dif\u00edcil de descrever. \u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h3>\u00c9 uma inseguran\u00e7a profunda que n\u00e3o vi nas crian\u00e7as do Equador<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Por que que esse olhar daqui foi t\u00e3o impactante?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda &#8211; <\/strong>N\u00e3o tenho essa resposta. Estou observando como comunicadora e como humanit\u00e1ria, pela minha experi\u00eancia, mas n\u00e3o pelo vi\u00e9s da psicologia e do trauma. Mas existe uma pesquisa da UFRGS sobre o alto percentual de ansiedade presente no estado.\u00a0<\/p>\n<p>A ansiedade j\u00e1 est\u00e1 muito alta, mas certamente existe tamb\u00e9m muito trauma. Acho que a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a que gera essa tristeza, essa paralisia. \u00c9 uma inseguran\u00e7a profunda que n\u00e3o vi nas crian\u00e7as do Equador. Outra coisa importante e positiva \u00e9 que, no abrigo em que estive, tinha comida e \u00e1gua. N\u00e3o tinha bomba caindo pr\u00f3ximo como em outros campos que fui onde havia uma guerra do outro lado.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/04efa42555b705ab658645269494359b.webp\"><br \/>\n&#8220;Humanidade, em um grau que eu s\u00f3 vi no terreno, e quanto pior a situa\u00e7\u00e3o de risco e de necessidade, maior a humanidade&#8221; \/ Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>Por exemplo, no campo do Sud\u00e3o do Sul, a comida era escassa e as torneiras s\u00f3 eram abertas duas vezes por dia. Mas as crian\u00e7as pareciam bem mais felizes do que as que vi aqui. Ent\u00e3o, a gente pode sim entrar numa an\u00e1lise de resili\u00eancia. As crian\u00e7as que vi l\u00e1, muitas, h\u00e1 cinco anos vivendo no mesmo lugar, estavam adaptadas.\u00a0<\/p>\n<p>Mas o meu ponto \u00e9 que vou embora do Rio Grande do Sul com essa sensa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia. Quero ver se organizo as minhas ideias para escrever inclusive sobre os motivos de tanto sofrimento.\u00a0<\/p>\n<hr>\n<p><a href=\"https:\/\/api.whatsapp.com\/send?phone=5551998132796&amp;text=Quero%20receber%20not%C3%ADcias%20do%20Brasil%20de%20Fato%20RS\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/238bbb7f5224bf3f2c5cee6f4a148fff.jpeg\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com atua\u00e7\u00e3o no Sud\u00e3o do Sul e Malau\u00ed, Fernanda Baumhardt encontrou inseguran\u00e7a, ansiedade e medo nos abrigos ga\u00fachos\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[351,777,1176,1173,305,995,1229,705,1359,1837,1241,1895,1385,477,710,1205,883,1748,659,1493,1331,1454,265,134,289,1431,1244,1177,748,790,1214,1115,415,960,284],"class_list":["post-200244","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acordos","tag-brasil","tag-casas","tag-cheias","tag-chuva","tag-colombia","tag-comunicacao","tag-consulta","tag-costa","tag-crise-climatica","tag-demissao","tag-desastres","tag-dinheiro","tag-documentario","tag-emergencia","tag-enchentes","tag-eua","tag-familias","tag-filhos","tag-governo","tag-ir","tag-mudanca-climatica","tag-mulheres","tag-onu","tag-pesquisa","tag-porto-alegre","tag-presidente","tag-reconstrucao","tag-rio","tag-rio-grande-do-sul","tag-rs","tag-saude","tag-trabalho","tag-uniao","tag-vale"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/200244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=200244"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/200244\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=200244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=200244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=200244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}