{"id":201822,"date":"2024-08-05T10:18:03","date_gmt":"2024-08-05T10:18:03","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=201822"},"modified":"2024-08-05T10:18:03","modified_gmt":"2024-08-05T10:18:03","slug":"dia-nacional-da-saude-como-anda-a-participacao-popular-no-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=201822","title":{"rendered":"Dia Nacional da Sa\u00fade: como anda a participa\u00e7\u00e3o popular no SUS"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>H\u00e1 quase 60 anos o Brasil celebra, em 5 de agosto, o Dia Nacional da Sa\u00fade. A data foi institu\u00edda no anivers\u00e1rio do m\u00e9dico e sanitarista <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/08\/05\/dia-nacional-da-saude-qual-e-o-legado-do-medico-oswaldo-cruz-para-a-ciencia\">Oswaldo Cruz<\/a>, personagem primordial na constru\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica brasileira. \u00a0<\/p>\n<p>Desde que foi decretada a efem\u00e9ride, o Brasil viveu realidades d\u00edspares na economia, na pol\u00edtica e na sociedade. A <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/03\/06\/o-brasil-e-a-escassez-o-que-os-momentos-historicos-de-carestia-nos-ensinam\">desigualdade<\/a> estrutural, no entanto, foi ponto comum da ditatura militar aos per\u00edodos de democracia.\u00a0<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/09\/19\/donas-de-casa-protagonizaram-a-luta-que-levou-a-criacao-do-sus\">participa\u00e7\u00e3o popular<\/a> nos debates e decis\u00f5es tamb\u00e9m passou por altos e baixos e, mesmo com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 garantida na integralidade at\u00e9 hoje. Tanto da Constitui\u00e7\u00e3o Federal quanto nas legisla\u00e7\u00f5es espec\u00edficas sobre o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) ela \u00e9 considera um instrumento primordial\u00a0<\/p>\n<p>Em entrevista ao <strong>Brasil de Fato<\/strong>, a presidenta da <a href=\"https:\/\/abrasco.org.br\/\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva<\/a> (Abrasco), Rosana Onocko afirma que o SUS carrega essa premissa com &#8220;radicalidade&#8221;. \u00a0<\/p>\n<p>Onocko pontua, no entanto, que o fortalecimento dessa estrutura esbarra na falta de financiamento desde o in\u00edcio. Segundo a especialista, paradoxalmente ao apelo popular de sua cria\u00e7\u00e3o, o SUS tamb\u00e9m enfrenta, historicamente, os ideais de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/09\/19\/trinta-anos-sus-resiste-a-desafios-estruturais-desmonte-do-governo-e-pandemia\">austeridade econ\u00f4mica<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;O SUS come\u00e7ou a ser implementado logo quando as pol\u00edticas fiscalistas ganharam maior peso. Quando se come\u00e7a a priorizar que o mais importante para um pa\u00eds \u00e9 gastar tanto quanto ganha, como se isso fosse a principal raz\u00e3o de ser do Estado. Sempre que houve pol\u00edticas fiscalistas, o que se corta \u00e9 a verba para pol\u00edticas p\u00fablicas e n\u00e3o a dos rentistas.&#8221;<\/p>\n<p>Na conversa, Rosana Onocko ressaltou que as dificuldades estruturais somadas ao desmonte do per\u00edodo p\u00f3s-golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff e ao <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/12\/29\/em-quatro-anos-de-bolsonaro-area-da-saude-perdeu-verba-qualidade-e-capilaridade\">Bolsonarismo<\/a>\u00a0aprofundaram a disparidade.<\/p>\n<p>Entre 2016 e 2022, o Brasil perdeu espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o social, financiamento de pol\u00edticas p\u00fablicas importantes e estrutura de setores essenciais. A partir de 2023, com a elei\u00e7\u00e3o de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT), alguns desses processos passaram a ser <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/08\/04\/conferencia-livre-democratica-e-popular-de-saude-busca-solucoes-para-reverter-desmonte-do-sus\">retomados<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;Eles n\u00e3o conseguiram acabar com o Conselho Nacional de Sa\u00fade porque n\u00e3o puderam, mas fecharam muitos outros conselhos. Estamos vendo hoje algo bom e que \u00e9 importante ressaltar desse governo \u00e9 que houve a retomada dos conselhos, mas essa retomada n\u00e3o produz efeitos imediatos. E h\u00e1 problemas que t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a estrutura da sociedade brasileira, que, de certa forma, trabalham contra a participa\u00e7\u00e3o popular.&#8221;<\/p>\n<p>Leia a entrevista na \u00edntegra a seguir ou ou\u00e7a no tocador de \u00e1udio abaixo do t\u00edtulo desta mat\u00e9ria.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Sabemos que o SUS enfrentou muitas dificuldades ao longo dos anos, desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 at\u00e9 sua implementa\u00e7\u00e3o nos anos 90, e durante o per\u00edodo democr\u00e1tico, especialmente a partir de 2016. Enfrentamos obst\u00e1culos, em parte devido ao contexto pol\u00edtico do Brasil, mas tamb\u00e9m a quest\u00f5es estruturais que nem mesmo os governos progressistas conseguiram resolver. Quais s\u00e3o os caminhos para superar essas quest\u00f5es?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rosana Onocko:<\/strong> Essa \u00e9 uma quest\u00e3o \u00f3tima, mas dif\u00edcil de responder. Primeiro, acho que \u00e9 importante fazer uma certa contextualiza\u00e7\u00e3o para entender de que pa\u00eds estamos falando, quando aparece o Sistema \u00danico de Sa\u00fade. No bojo das lutas pela redemocratiza\u00e7\u00e3o e da Constituinte foi muito importante &#8211; como disse S\u00e9rgio Arouca, um marco civilizat\u00f3rio para o Brasil &#8211; a cria\u00e7\u00e3o de um sistema de sa\u00fade \u00fanico, de cobertura universal, que subsidia a oferta como poucos pa\u00edses t\u00e3o grandes quanto o Brasil t\u00eam. Conseguimos um gola\u00e7o em um determinado momento, em uma conjuntura pol\u00edtica de efervesc\u00eancia e de reivindica\u00e7\u00e3o de direitos muito alta.<\/p>\n<p>Agora, veja o paradoxo: o SUS foi criado nessa conjuntura e come\u00e7ou a ser implementado logo quando as pol\u00edticas fiscalistas ganharam maior peso. No momento em que se come\u00e7a a priorizar que o mais importante para um pa\u00eds \u00e9 gastar tanto quanto ganha, como se isso fosse a principal raz\u00e3o de ser do Estado. N\u00e3o estou dizendo para ser irrespons\u00e1vel, mas quero dizer que sempre que essas pol\u00edticas fiscalistas foram colocadas, e isso aconteceu no mundo todo com o neoliberalismo, quem paga a conta sempre s\u00e3o os mesmos. Sempre que houve pol\u00edticas fiscalistas, o que se corta \u00e9 a verba para pol\u00edticas p\u00fablicas e n\u00e3o, por exemplo, a dos rentistas. No Brasil, estamos discutindo isso agora muito recentemente, por causa dos <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/31\/copom-mantem-selic-em-10-5-ao-ano-contrariando-empresarios-trabalhadores-e-governo\">juros<\/a>, se caem ou n\u00e3o caem. N\u00e3o cair os juros significa que o Brasil escolhe pagar mais dinheiro para quem tem dinheiro guardado e aplicado no banco do que cobrir direitos e acesso a direitos para as classes populares. \u00c9 simplesmente isso.<\/p>\n<p>Cada vez que falamos de implanta\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica p\u00fablica no Brasil, o tema \u00e9 levado pela grande m\u00eddia, pelos formadores de opini\u00e3o, pelos lobbies dos rentistas, que s\u00e3o os mais poderosos neste pa\u00eds, para essa discuss\u00e3o do gasto. \u00c9 muito importante marcar o dia 5 de agosto, Dia Nacional da Sa\u00fade. H\u00e1 dois anos fizemos a primeira confer\u00eancia livre, democr\u00e1tica e popular do Brasil. Naquele momento, est\u00e1vamos em plena campanha eleitoral. Neste dia, h\u00e1 dois anos, entregamos uma carta para o ent\u00e3o candidato Lula da Frente pela Vida, com quest\u00f5es fundamentais para o nosso Sistema \u00danico de Sa\u00fade.\u00a0<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, disse a ele que sabia que, se ele ganhasse, no dia 2 de janeiro haveria gente dizendo para ele que o SUS n\u00e3o cabia no or\u00e7amento. Temos visto isso acontecer. Algumas coisas que precisamos resolver dentro do Sistema \u00danico de Sa\u00fade n\u00e3o foram resolvidas nem sequer pelos governos progressistas. E isso acontece por causa da estrutura social e econ\u00f4mica do Brasil. O SUS de fato cobre uma important\u00edssima necessidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira, e acho que podemos dizer com orgulho que temos um dos maiores sistemas universais do planeta. O SUS que visa \u00e0 integralidade com muita radicalidade. Hoje, praticamente todo o transplante e as grandes pr\u00e1ticas de alta especializa\u00e7\u00e3o e complexidade s\u00e3o desenvolvidas pelo SUS e, ao mesmo tempo, persistem problemas de fragilidade na cobertura mais b\u00e1sica da sa\u00fade.\u00a0<\/p>\n<p>Vivemos ao longo desses anos de obscurantismo recentes um retrocesso nas nossas taxas de vacina\u00e7\u00e3o, aumento da taxa de mortalidade materna, aumento dos \u00edndices de viol\u00eancia e les\u00f5es ap\u00f3s a pandemia. Temos taxas assustadoras de mortes de jovens negros e perif\u00e9ricos, e o sistema de sa\u00fade deveria, ao menos, interferir em tudo isso. N\u00e3o \u00e9 que a sa\u00fade v\u00e1 resolver sozinha, h\u00e1 uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que s\u00e3o mazelas sociais e hist\u00f3ricas do Brasil. Mas teria que haver um compromisso muito claro de interromper, de incidir sobre esses assuntos. \u00a0<\/p>\n<p>Entre os pontos que apresentamos na carta que entregamos ao ent\u00e3o candidato Lula estava a cria\u00e7\u00e3o de uma carreira p\u00fablica para o SUS. Estamos o tempo todo criando solu\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias para resolver o SUS, com o que chamamos de provimento. Nada mais \u00e9 do que garantir profissionais bem formados e adequados no lugar onde o povo precisa deles. Temos carreira para os militares, para os ju\u00edzes, temos sal\u00e1rios alt\u00edssimos para a carreira dos assessores e de todo o corpo administrativo do Congresso, mas n\u00e3o temos carreira para o SUS. \u00a0<\/p>\n<p>Sempre se fala que n\u00e3o cabe no or\u00e7amento, mas \u00e9 mentira. Quero chamar muita aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, no or\u00e7amento, cabe o que a gente, pela pol\u00edtica, for capaz de viabilizar. Nesse sentido, os \u00faltimos anos foram muito tristes para n\u00f3s, que defendemos a vida e a sa\u00fade p\u00fablica, porque vimos retrocessos, inclusive momentos de recuo dos pr\u00f3prios movimentos populares e pol\u00edticos nas suas reivindica\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, acho que h\u00e1 uma necessidade de retomada do protagonismo popular na reivindica\u00e7\u00e3o desses direitos para que, de fato, as coisas mudem. As coisas n\u00e3o v\u00e3o mudar sem luta.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia o estado atual do SUS ap\u00f3s o per\u00edodo de desmonte iniciado em 2016? Estamos no caminho para superar esses problemas? E a participa\u00e7\u00e3o popular, j\u00e1 est\u00e1 se manifestando?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Tivemos o teto de gastos, que congelou e retirou recursos da sa\u00fade. No momento da posse de Lula tivemos fez uma retomada de recursos p\u00fablicos, que foi importante para a sa\u00fade, porque, sen\u00e3o, o sistema seria invi\u00e1vel. Mas vivemos um apag\u00e3o de todo tipo no SUS durante o governo passado. Desde o negacionismo com as vacinas, as mentiras com a cloroquina, at\u00e9 o fato de terem desativado in\u00fameros conselhos, que s\u00e3o \u00f3rg\u00e3os que, de certa forma, regulam a participa\u00e7\u00e3o popular. \u00a0<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o conseguiram acabar com o Conselho Nacional de Sa\u00fade porque n\u00e3o puderam, mas fecharam muitos outros conselhos. Estamos vendo hoje algo bom e que \u00e9 importante ressaltar desse governo \u00e9 que houve a retomada dos conselhos, mas essa retomada n\u00e3o produz efeitos imediatos. E h\u00e1 problemas que t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a sociabilidade brasileira ou da hist\u00f3ria e da estrutura da sociedade brasileira, que, de certa forma, trabalham contra a participa\u00e7\u00e3o popular. Temos um compromisso e acho que os trabalhadores da sa\u00fade precisam ter esse engajamento, porque talvez estejamos numa posi\u00e7\u00e3o de poder um pouco melhor que os usu\u00e1rios para capilarizar essa participa\u00e7\u00e3o. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 importante tamb\u00e9m dizer que houve avan\u00e7os. Acho que temos a sorte de ter um Conselho Nacional de Sa\u00fade que \u00e9 muito ativo, que se manteve muito ativo e resistente durante o per\u00edodo do governo de extrema direita. Acho que isso \u00e9 algo importante, que mostra uma certa maturidade da participa\u00e7\u00e3o no Brasil. \u00c9 algo que fortalece muito a participa\u00e7\u00e3o popular. Mas, novamente, esse fortalecimento n\u00e3o ocorre da noite para o dia, porque tamb\u00e9m depende de uma certa organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil.\u00a0<\/p>\n<p>Quero lembrar que tivemos, nos \u00faltimos anos, a cria\u00e7\u00e3o de algumas organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que foram muito importantes, como a Frente Pela Vida. Houve uma s\u00e9rie de redes que se formaram, especialmente durante a pandemia, para lidar com a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade no Brasil. E essas redes continuam existindo e pressionando. A pr\u00f3pria Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede Pensan) tem atuado nesse sentido.\u00a0<\/p>\n<p>Estamos vendo uma tentativa de retomada, mas ela \u00e9 gradual e depende muito de um reengajamento da sociedade. Essa \u00e9 uma tarefa urgente, porque os desafios s\u00e3o muitos. O desmonte foi grande e o apag\u00e3o de dados e informa\u00e7\u00f5es \u00e9 uma realidade que ainda estamos tentando superar. Os movimentos sociais precisam recuperar sua for\u00e7a para garantir que essas quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica voltem a ser priorizadas, e que haja uma press\u00e3o constante para que o governo continue avan\u00e7ando nas pol\u00edticas p\u00fablicas e na recupera\u00e7\u00e3o do SUS.\u00a0<\/p>\n<p>Os \u00faltimos anos foram muito dif\u00edceis para n\u00f3s, defensores da vida e da sa\u00fade p\u00fablica. Vimos retrocessos, inclusive no recuo de movimentos populares e pol\u00edticos em suas reivindica\u00e7\u00f5es. H\u00e1 uma necessidade urgente de retomada do protagonismo popular na luta por esses direitos. As coisas n\u00e3o v\u00e3o mudar sozinhas.\u00a0<\/p>\n<p>No final do ano passado, o Conselho Nacional de Sa\u00fade anunciou a amplia\u00e7\u00e3o dos conselhos populares de sa\u00fade, com a meta de saltar de cerca de mil para 42 mil conselhos em todo o Brasil. Como esses conselhos podem atuar dentro de um hospital ou de uma unidade b\u00e1sica de sa\u00fade? Eles s\u00e3o um passo importante?\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 importante entender que o SUS, quando foi planejado, trouxe uma radicalidade da participa\u00e7\u00e3o ao ponto de que esses conselhos s\u00e3o tripartites, mas pressup\u00f5em 50% de participa\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio, ent\u00e3o s\u00e3o 50% dos usu\u00e1rios, um quarto da gest\u00e3o e um quarto dos trabalhadores.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 uma dificuldade da participa\u00e7\u00e3o popular em alguns setores, mas tamb\u00e9m existe uma ambiguidade, porque ambas as coisas coexistem hoje na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo que temos grupos que s\u00e3o muito ativos e reivindicam muito, tamb\u00e9m h\u00e1 algumas localidades e alguns equipamentos de sa\u00fade que podem estar cooptados pela administra\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/p>\n<p>Claro que isso existe e claro que temos que combater isso. O que precisamos \u00e9 que os usu\u00e1rios representem os usu\u00e1rios, que os trabalhadores representem os trabalhadores, e que a gest\u00e3o, o governo de cada inst\u00e2ncia, tamb\u00e9m se manifeste explicando por que consegue ou n\u00e3o consegue algo. Mas acho que \u00e9 muito importante, muito relevante, que a gente capilarize a participa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>O momento que vivemos que nos empurrou para o virtual, \u00e9 um momento em que esses espa\u00e7os de encontro, de compartilhamento da tomada de decis\u00f5es, de impactar e de empurrar a pol\u00edtica p\u00fablica para o lado que achamos certo, s\u00e3o muito importantes e preciosos.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Como explicar para as pessoas a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o popular nas pol\u00edticas de sa\u00fade, para que esse debate avance sem ressalvas e com consenso dentro dessa tem\u00e1tica\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu venho do um campo de trabalho da sa\u00fade mental, e os movimentos da sa\u00fade mental t\u00eam uma frase que eu gosto muito: &#8220;Nada sobre n\u00f3s sem n\u00f3s&#8221;. Eu acho que essa frase serve para qualquer usu\u00e1rio de qualquer \u00e1rea do SUS. Ningu\u00e9m \u00e9 melhor que a gente para saber o que precisa. \u00a0<\/p>\n<p>Estamos falando do SUS, mas poderia ser sobre educa\u00e7\u00e3o, por exemplo. Precisar\u00edamos ter muitos conselhos de pais com escolas para que nossas escolas de fato melhorassem.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 um campo da pol\u00edtica p\u00fablica que, inclusive, \u00e9 estudado internacionalmente. A participa\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios melhora a qualidade dos servi\u00e7os, melhora a atribui\u00e7\u00e3o de prioridades, por exemplo.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>No Brasil, ainda temos o enfrentamento de usos do poder, coopta\u00e7\u00e3o e captura pela politicagem, que n\u00e3o \u00e9 a grande pol\u00edtica, de determinados espa\u00e7os de decis\u00e3o. Mas quanto mais a gente participa e quanto mais pr\u00f3ximos estamos dos nossos servi\u00e7os, maior a chance de controlarmos adequadamente o que os pol\u00edticos est\u00e3o fazendo com o nosso dinheiro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os obst\u00e1culos mais imediatos que precisamos superar para reconstruir o SUS e implementar efetivamente a participa\u00e7\u00e3o popular no sistema\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Temos falado muito sobre garantir o financiamento e a organiza\u00e7\u00e3o. Recentemente, pela Abrasco, junto com a Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica, realizamos um ciclo de semin\u00e1rios. Focamos em tr\u00eas grandes eixos estrat\u00e9gicos: o financiamento, a regionaliza\u00e7\u00e3o \u2014 ou seja, como organizar a rede por regi\u00f5es, porque pequenas cidades n\u00e3o conseguem cobrir tudo se n\u00e3o se organizarem regionalmente \u2014 e tamb\u00e9m a quest\u00e3o das carreiras, que s\u00e3o tr\u00eas pilares fundamentais e estrat\u00e9gicos para o avan\u00e7o do SUS.\u00a0<\/p>\n<p>Mas eu diria tamb\u00e9m que precisamos preparar o SUS para o enfrentamento das mazelas estruturais do Brasil. Por exemplo, paradoxalmente, \u00e0s vezes vemos o racismo se repetir dentro dos pr\u00f3prios servi\u00e7os de sa\u00fade, tanto na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria quanto nos hospitais. H\u00e1 estudos mostrando que as mulheres negras, por exemplo, s\u00e3o menos bem cuidadas na gravidez do que as mulheres brancas. Tamb\u00e9m vemos machismo e patriarcado dentro dos servi\u00e7os.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, precisamos estar atentos e oferecer treinamentos e qualifica\u00e7\u00f5es para os trabalhadores do SUS, porque eles, como a sociedade, \u00e0s vezes reproduzem essas mazelas estruturais. Precisamos de estrat\u00e9gias ativas de combate a isso. Precisamos de estrat\u00e9gias antirracistas e antipatriarcais nos centros de sa\u00fade, ou n\u00e3o vamos contribuir para mudan\u00e7as.\u00a0<\/p>\n<p>Como mencionei no come\u00e7o, precisamos incidir sobre essas grandes mazelas estruturais do nosso pa\u00eds pela sa\u00fade. Claro que a sa\u00fade n\u00e3o vai resolver tudo sozinha, mas ela tem um papel importante a desempenhar nesse sentido.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BdF conversou com presidenta da Abrasco sobre os caminhos para garantir um dos princ\u00edpios da sa\u00fade p\u00fablica brasileira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1554,323,777,1881,701,1381,1508,403,1421,1385,531,1114,1005,1179,1386,1762,1493,1188,632,1710,27,1623,374,1212,265,447,870,1055,289,273,1308,1115,740,605,848,584,415,1108,881],"class_list":["post-201822","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-1554","tag-apagao","tag-brasil","tag-conferencia","tag-congresso","tag-dados","tag-debate","tag-democracia","tag-dilma-rousseff","tag-dinheiro","tag-economia","tag-educacao","tag-encontro","tag-entrevista","tag-financiamento","tag-golpe","tag-governo","tag-jovens","tag-juros","tag-luiz-inacio-lula-da-silva","tag-lula","tag-meta","tag-militares","tag-mudancas","tag-mulheres","tag-negros","tag-orcamento","tag-pandemia","tag-pesquisa","tag-racismo","tag-recursos","tag-saude","tag-seguranca-alimentar","tag-servicos","tag-soberania","tag-trabalhadores","tag-trabalho","tag-vacinas","tag-visto"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/201822","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=201822"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/201822\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=201822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=201822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=201822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}