{"id":209361,"date":"2024-08-10T12:19:43","date_gmt":"2024-08-10T12:19:43","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=209361"},"modified":"2024-08-10T12:19:43","modified_gmt":"2024-08-10T12:19:43","slug":"rastros-do-futuro-peca-de-teatro-que-inventou-a-palavra-robo-mostra-como-a-ficcao-cientifica-pode-prever-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=209361","title":{"rendered":"Rastros do futuro: pe\u00e7a de teatro que inventou a palavra rob\u00f4 mostra como a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pode prever o futuro"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>\u201cQual <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/03\/26\/se-voce-nao-sabe-como-aquilo-foi-feito-nao-pode-ser-usado-no-setor-publico-avalia-sergio-amadeu\">trabalhador<\/a> voc\u00ea acha virtualmente melhor?\u201d, diz Harry Domin, Diretor Geral da poderosa empresa R.U.R.\u00a0<\/p>\n<p>Helena, uma jovem idealista que acabara de chegar \u00e0 remota ilha onde a f\u00e1brica se localiza, n\u00e3o responde de imediato.\u00a0<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio central absorve uma luz fuliginosa entrando em diagonal pelas largas janelas envidra\u00e7adas, que v\u00e3o do ch\u00e3o ao teto. Ao fundo, podemos contemplar chamin\u00e9s industriais trabalhando a todo vapor.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO melhor?\u201d, ela diz.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cSim, o melhor\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 cartazes e mapas nas paredes. E uma grande escrivaninha com uma cadeira girat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Helena o encara. \u201cTalvez aquele que seja mais honesto e dedicado.\u201d \u00a0 \u00a0<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o\u201d, Harry Domin sorri. \u201cAquele que seja mais barato. Aquele que tenha necessidades m\u00ednimas\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O di\u00e1logo acima, recriado aqui com certa liberdade, est\u00e1 no prel\u00fadio da pe\u00e7a R.U.R: Rob\u00f4s Universais de Rossum, de Karel \u010capek (1890 -1938), relan\u00e7ada em portugu\u00eas este ano pela editora Aleph. Montada pela primeira vez h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, em 1921, a obra influenciou in\u00fameros trabalhos posteriores e cunhou, pela primeira vez, a palavra rob\u00f4. Alguns dos elementos ainda s\u00e3o assustadoramente contempor\u00e2neos. E est\u00e3o na vanguarda do<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/08\/inteligencia-artificial-nao-vai-solucionar-nossos-problemas-enquanto-sociedade-alerta-pesquisadora\"> pensamento sobre biotecnologia<\/a>.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Arqueologias do futuro<\/p>\n<p>R.U.R \u00e9 mais um exemplo, entre tantos, de como a arte, em especial a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, procura n\u00e3o apenas alegorizar, mas pensar as ang\u00fastias do presente e do futuro.\u00a0<\/p>\n<p>Como diz Fredric Jameson em Arqueologias do futuro &#8211; o desejo chamado Utopia e outras fic\u00e7\u00f5es cient\u00edficas (2005), esse g\u00eanero que nasce na segunda metade do s\u00e9culo XIX, com J\u00falio Verne (que chegou \u00e0 Lua antes da Nasa) e A m\u00e1quina do tempo (1895) de H. G. Wells (ou algumas d\u00e9cadas antes, com Frankenstein (1818) de Mary Shelley), \u00e9 um sintoma das profundas transforma\u00e7\u00f5es de sua \u00e9poca e da rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria experi\u00eancia do tempo hist\u00f3rico.\u00a0<\/p>\n<p>Jameson relaciona o surgimento dessa fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com o romance hist\u00f3rico, onde a subjetividade se v\u00ea pela primeira vez atravessada pelos grandes movimentos da Hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m com a produ\u00e7\u00e3o de um tipo cl\u00e1ssico de utopia.\u00a0<\/p>\n<p>Do parentesco com essas duas formas narrativas, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica vai carregar dois legados: por um lado, a apurada encena\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia hist\u00f3rica (pensemos na \u201cpsico-hist\u00f3ria\u201d, da trilogia Funda\u00e7\u00e3o (1951), de Asimov, inspirada num cl\u00e1ssico da historiografia), e tamb\u00e9m a radicalidade dos escritos e imagens ut\u00f3picas ou dist\u00f3picas: instaurar a diferen\u00e7a na identidade, abrir fissuras na homogeneidade, pensar o impens\u00e1vel.<\/p>\n<p>As palavras n\u00e3o s\u00e3o banais. Utopia \u00e9 jun\u00e7\u00e3o dos termos <em>t\u00f3pos<\/em>, lugar (mesmo origem da palavra topografia, por exemplo), acrescida de um \u201cu\u201d que quer dizer n\u00e3o. Em sentido literal, se diz ut\u00f3pico aquilo que est\u00e1 fora lugar, n\u00e3o tem lugar. Da\u00ed o sentido figurado que o g\u00eanero liter\u00e1rio utopia, que nasceu no s\u00e9c. XVI, trataria de coisas que \u201cn\u00e3o tem lugar neste mundo\u201d, logo, s\u00e3o irreais, imagin\u00e1rias, irrealiz\u00e1veis.<\/p>\n<p>Como g\u00eanero liter\u00e1rio, e filos\u00f3fico, as utopias desafiam autoridades, pois negam a naturalidade das coisas. Sua principal caracter\u00edstica \u00e9 desejar, encenar e, \u00e0s vezes, antecipar alguma transforma\u00e7\u00e3o. Em vocabul\u00e1rio de hoje: o pensamento ut\u00f3pico \u00e9 disruptivo, \u201cinovador\u201d, quer \u201cmudar o mindset\u201d dos conservadores.<\/p>\n<p>Se o cl\u00e1ssico Utopia, \u201cum enclave imagin\u00e1rio dentro do corpo social real\u201d, ousou pensar o impens\u00e1vel (um mundo sem dinheiro n\u00e3o \u00e9 um detalhe sup\u00e9rfluo), numa ilha geograficamente distante, as distopias contempor\u00e2neas ousam pensar o insuport\u00e1vel (homens escravizados por m\u00e1quinas, hipnotizados por est\u00edmulos virtuais, viciados em microdoses de dopamina).<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que o historiador Georges Minois coloca a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica entre os dispositivos oraculares no seu longo estudo de pr\u00e1ticas preditivas, Hist\u00f3ria do Futuro &#8211; dos profetas \u00e0 prospectiva (1996).\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto as utopias se deslocam no espa\u00e7o, as distopias se deslocam no tempo, demarcando ang\u00fastias de uma nova \u00e9poca.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Rob\u00f4s e escravos: o corpo incans\u00e1vel\u00a0<\/p>\n<p>M\u00e1quinas aut\u00f4nomas s\u00e3o coisas bem antigas.\u00a0<\/p>\n<p>Na Il\u00edada (IX a.C), Hefesto &#8211; o ambidestro ferreiro dos deuses &#8211; construiu duas mulheres douradas, na tradu\u00e7\u00e3o de Trajano Vieira \u201cs\u00edmiles de mo\u00e7as vivas\u201d com \u201cmentes dotadas de intelig\u00eancia, tinham voz e for\u00e7a\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Hefesto, deus da <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/08\/inteligencia-artificial-nao-vai-solucionar-nossos-problemas-enquanto-sociedade-alerta-pesquisadora\">tecnologia<\/a>, tamb\u00e9m forjou o gigante de bronze Talos, eternizado na vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Jas\u00e3o e Os argonautas (1963) e descrito por Apol\u00f4nio de Rodes (295 a.C. \u2013 215 a.C.), em As Argon\u00e1uticas como \u201ctotalmente feito de bronze, exceto por uma \u00fanica veia que ia do tornozelo ao pesco\u00e7o, contendo o sangue que era sua vida, mantida por uma fina membrana em seu calcanhar\u201d. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de William Sales.<\/p>\n<p>Mas o termo rob\u00f4 surge apenas no s\u00e9culo XX, junto com a prolifera\u00e7\u00e3o de centros urbanos e f\u00e1bricas, que aceleram o tempo, algo muito bem expressado nas cenas de abertura de Metr\u00f3polis (1927), de Fritz Lang, contempor\u00e2neo de R.U.R.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nA palavra &#8220;rob\u00f4&#8221; vem do tcheco robota, que significa &#8220;trabalho for\u00e7ado&#8221; ou &#8220;servid\u00e3o&#8221;, referindo-se ao trabalho compuls\u00f3rio que os servos realizavam para seus senhores feudais. Robota deriva do termo eslavo rab, que significa &#8220;escravo.&#8221;<\/p>\n<p>\u201cA mais barata m\u00e3o de obra: os Rob\u00f4s de Russum\u201d, diz o cartaz publicit\u00e1rio no escrit\u00f3rio central da f\u00e1brica.\u00a0<\/p>\n<p>Rossum, embora seja uma cria\u00e7\u00e3o livre do autor, pode ser um jogo com a palavras tcheca rozum, que significa &#8220;raz\u00e3o&#8221; ou &#8220;intelecto\u201d.<\/p>\n<p>Os rob\u00f4s de Rossum s\u00e3o a corporifica\u00e7\u00e3o do ideal de acelera\u00e7\u00e3o e maximiza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do trabalho.\u00a0<\/p>\n<p>Aqui n\u00e3o temos m\u00e1quinas de ferro e circuitos, mas c\u00f3pias sint\u00e9ticas dos seres humanos, constru\u00eddas de maneira bioqu\u00edmica.\u00a0<\/p>\n<p>Em 1920, o cientista Rossum chega a uma ilha remota, n\u00e3o identificada. Essa clausura geogr\u00e1fica da ilha n\u00e3o \u00e9 gratuita. Soa como sobreviv\u00eancia das utopias cl\u00e1ssicas, que por sua vez remontam ao mito do Para\u00edso Terrestre, cujas portas podem ser alcan\u00e7adas com um barco.\u00a0<\/p>\n<p>Rossum quer brincar de Deus.<\/p>\n<p>O velho Rossum, esp\u00e9cie de pol\u00edmata, pretende estudar biologia marinha. Em 1932, mais de uma d\u00e9cada depois, ele faz uma descoberta revolucion\u00e1ria: um composto qu\u00edmico que imita o protoplasma. Fascinado pela possibilidade de criar vida artificial, Rossum tenta construir um c\u00e3o e um ser humano, mas seus experimentos falham. Seu sobrinho, o Jovem Rossum, o visita, e logo surgem conflitos entre eles.\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto o Velho Rossum v\u00ea em suas cria\u00e7\u00f5es uma oportunidade de provar que Deus \u00e9 desnecess\u00e1rio e inexistente, o Jovem Rossum, um engenheiro, enxerga uma chance de acumular riqueza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil descobrir quem venceu.<\/p>\n<p>O Velho Rossum \u00e9 um iluminista cl\u00e1ssico, que acredita que a raz\u00e3o instrumental pode substituir a natureza, deixar Deus obsoleto. O Jovem Rossum \u00e9 o homem da virada do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, quando a t\u00e9cnica, sob a ideologia do progresso, \u00e9 a express\u00e3o mais apurada da racionalidade capitalista: a vida humana \u00e9 obsoleta e muitas vezes um entrave \u00e0 maximiza\u00e7\u00e3o do lucro. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO jovem Rossum inventou um oper\u00e1rio com o m\u00ednimo poss\u00edvel de necessidades (&#8230;) Removeu tudo que n\u00e3o servia diretamente ao trabalho. Com isso, de fato, dispensou o homem e concebeu o rob\u00f4\u201d, explica o diretor Domin.\u00a0<\/p>\n<p>Os Rossuns, inventores dos rob\u00f4s, parecem avatares de Dr. Eldon Tyrell e Niander Wallace, grandes magnatas-cientistas da saga Blade Runner.<\/p>\n<p>Helena, por sua vez, n\u00e3o consegue perceber que a secret\u00e1ria do escrit\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 uma pessoa. E nesse ponto, R.U.R antecipa reflex\u00f5es do p\u00f3s-humanismo.<\/p>\n<p>\u201cAs m\u00e1quinas do final do s\u00e9culo XX tornaram completamente amb\u00edgua a diferen\u00e7a entre o natural e o artificial, entre a mente e o corpo, entre aquilo que se autocria e aquilo que \u00e9 externamente criado\u201d, escreve a te\u00f3rica feminista Donna Haraway, em seu Manifesto Ciborgue (1985), e continua: \u201cpodendo-se dizer o mesmo de muitas outras distin\u00e7\u00f5es que se costumavam aplicar aos organismos e \u00e0s m\u00e1quinas. Nossas m\u00e1quinas s\u00e3o perturbadoramente vivas e n\u00f3s mesmos assustadoramente inertes\u201d.<\/p>\n<p>Os rob\u00f4s de Karel \u010capek s\u00e3o o primeiro avatar dos replicantes de Blade Runner (1982). Os androides de Ridley Scott est\u00e3o pr\u00f3ximos de clones humanos melhorados e controlados por biotecnologia. Eles s\u00e3o usados como for\u00e7a de trabalho escravizado no processo de expans\u00e3o colonial da humanidade para fora da Terra.\u00a0<\/p>\n<p>O humano robotizado, ou seja, escravizado dentro da legalidade, puramente profissional e eficiente, \u00e9 o sonho ut\u00f3pico do capitalismo tardio. O funcion\u00e1rio descrito pelo CEO da G4 Educa\u00e7\u00e3o. Onde os limites entre vida pessoal e trabalho s\u00e3o dinamitadas, e as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es trabalhistas historicamente conquistadas s\u00e3o subtra\u00eddas, e desmontadas sistematicamente pela racionalidade neoliberal, levando o sujeito \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cempres\u00e1rio de si mesmo\u201d, como Michel Foucault j\u00e1 havia diagnosticado nos anos 70.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Obsolesc\u00eancia e substitui\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea se deitar comigo\u201d, diz Joe, o gigol\u00f4 de I.A &#8211;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/07\/08\/inteligencia-artificial-nao-vai-solucionar-nossos-problemas-enquanto-sociedade-alerta-pesquisadora\"> Intelig\u00eancia Artificial<\/a> (2001), nunca mais vai querer um homem de verdade\u201d.<\/p>\n<p>O replicante K de Blade Runner 2049 (2017) \u00e9 muito mais sens\u00edvel, melanc\u00f3lico, obstinado e com sentimentos mais refinados que muitos de n\u00f3s. Enquanto o android de O exterminador do futuro 2 (1991) interpretado por Arnold Schwarzenegger parece um pai perfeito para o \u00f3rf\u00e3o John Connor, a m\u00e1quina exterminadora de metal l\u00edquido interpretada por Robert Patrick \u00e9 muito mais mortal do que qualquer soldado humano.\u00a0<\/p>\n<p>Em termos darwinistas, tamb\u00e9m os Rob\u00f4s Universais de Rossum s\u00e3o mais aptos ao capitalismo que a pr\u00f3pria humanidade. E por isso, se revoltam e exterminam os homens e d\u00e3o origem a uma nova era na Terra.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Cr\u00edtica \u00e0 ideia de progresso\u00a0<\/p>\n<p>\u201cOs modernos s\u00e3o aqueles que vivem o tempo como esfera do progresso rumo \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o\u201d, escreve Franco Berardi, no seu ensaio Depois do futuro (2009). Nenhum s\u00e9culo acreditou t\u00e3o euforicamente no progresso como o s\u00e9culo XIX, que fez da cren\u00e7a no cientificismo uma seita e trocou a revela\u00e7\u00e3o religiosa pela an\u00e1lise de dados socioecon\u00f4micos, enxergando teleologias por todos os lados: \u201ca lei dos tr\u00eas estados de Auguste Comte \u00e9 surpreendentemente parecida com as tr\u00eas eras de Joaquim de Flora\u201d, na vis\u00e3o de Georges Minois. Joaquim de Flora \u00e9 um m\u00edstico milenarista do s\u00e9culo XIII.<\/p>\n<p>Progresso \u00e9 uma categoria de pensamento conservadora por excel\u00eancia. Tribut\u00e1ria do otimismo positivista, do movimento inercial sem obst\u00e1culo, da continuidade, cujo objetivo da progress\u00e3o \u00e9 conservar a vida \u201ctal e qual\u201d. \u00a0<\/p>\n<p>\u201cO conceito de progresso\u201d, escreveu Walter Benjamin, nas Passagens, \u201cdeve ser fundamentado na ideia de cat\u00e1strofe\u201d. E explica: \u201cQue \u2018as coisas continuem assim\u2019, eis a cat\u00e1strofe.\u201d \u00c9 a tempestade que empurra o Anjo da Hist\u00f3ria, acumulando ru\u00ednas sobre ru\u00ednas.<\/p>\n<p>Uma ci\u00eancia t\u00e3o positiva como a do s\u00e9culo XIX s\u00f3 poderia parir um monstro: a Primeira Guerra Mundial, que vai devastar a Europa no come\u00e7o do s\u00e9culo XX. Mas antes do horror das trincheiras se realizar, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica iria despontar ocupando o lugar da utopia, metamorfoseada em distopia, mas guardando sua energia fundamental: pensar o impens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Frankenstein (1818), de Mary Shelley, cl\u00e1ssico do horror e da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u00e9 uma anomalia desviante n\u00e3o apenas tem\u00e1tica, mas formal, filos\u00f3fica, que nasce dentro do Positivismo ultra racionalista e o questiona. Mostra as consequ\u00eancias da cren\u00e7a exageradamente otimista naquela ci\u00eancia progressista. N\u00e3o \u00e9 o sono da raz\u00e3o que produz monstros, como acreditavam os ing\u00eanuos iluministas: \u00e9 a plena luz da raz\u00e3o iluminando o caminho positivo da t\u00e9cnica que produz \u201cO Prometeu Moderno\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da ci\u00eancia em si carrega um mau press\u00e1gio. \u00c9 preciso desconfiar.\u00a0<\/p>\n<p>Anos mais tarde, A m\u00e1quina do tempo (1895) de H. G. Wells avan\u00e7a milhares de anos de anos no futuro, at\u00e9 802.701 d.C, onde encontra uma sociedade com est\u00e9tica neoprimitivista. Nela, os Elois vivem a felicidade id\u00edlica (quase ut\u00f3pica), de uma vida simples pr\u00f3xima da natureza, mas apenas para servirem de alimentos aos Morlocks, seres subterr\u00e2neos. Hist\u00f3ria \u00e9 conflito. \u00a0 \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Ao final da pe\u00e7a R.U.R, um \u00fanico humano sobrevive: Alquist. \u201c\u00c9 mais velho que os demais, veste-se com desleixo e tem barba e cabelos longos e grisalhos\u201d. Quando o alto escal\u00e3o da f\u00e1brica come\u00e7a a elencar as vantagens de construir cada vez mais rob\u00f4s, o construtor Alquist desconfia.\u00a0<\/p>\n<p>Primeiro, diz que todos os <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/03\/26\/se-voce-nao-sabe-como-aquilo-foi-feito-nao-pode-ser-usado-no-setor-publico-avalia-sergio-amadeu\">trabalhadores<\/a> do mundo ficar\u00e3o desempregados. Depois, ironiza Domin, dizendo que ele est\u00e1 prometendo a abund\u00e2ncia de um Para\u00edso Terrestre. \u201cAcho que havia algo de virtude no trabalho e no cansa\u00e7o\u201d. Dez anos depois, no Primeiro Ato, ele revela estar angustiado com \u201ctodo esse progresso\u201d e que se sente bem com o trabalho manual de assentar tijolos. \u201cN\u00e3o gosto nem um pouquinho desse progresso.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Alquist \u00e9 uma solit\u00e1ria voz dissonante, disruptiva, num coro de otimismo catastr\u00f3fico. Ser\u00e1 o \u00faltimo homem na face da Terra.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">No future<\/p>\n<p>A cren\u00e7a no futuro acabou porque a ideia de progresso perdeu sua hegemonia. N\u00e3o h\u00e1 mais equival\u00eancia entre as palavras progresso e futuro. Nossa experi\u00eancia do tempo, como definiu Fran\u00e7ois Hartog, se alterou profundamente. Entramos em um novo \u201cregime de historicidade\u201d no qual o presente se tornou eterno: o presentismo.<\/p>\n<p>Fredric Jameson diz que se a modernidade era obcecada pelo tempo (algo que ganha forma no romance proustiano), no regime da p\u00f3s-modernidade o que prevalece \u00e9 o espa\u00e7o, o territ\u00f3rio, as cartografias: o que existe no presente \u00e9 o corpo, pura presen\u00e7a, e o corpo \u00e9 espa\u00e7o atomizado.<\/p>\n<p>O corpo assume a forma da alteridade radical no espa\u00e7o incomensur\u00e1vel do horror c\u00f3smico construido por Dan O&#8217;Bannon, em Alien (1979), o mesmo corpo invasor de Invasores de corpos (1979), o corpo descomunal dos vermes de Duna (1965), ent\u00e3o ganha diferentes formas de manifesta\u00e7\u00e3o no body horror de Scanners (1981) e Videodrome (1983), de David Cronenberg, corpo ampliado, espectral, fantasm\u00e1tico, metamorfo, ou o corpo reduzido a pura performance de Crimes do futuro (2022).\u00a0<\/p>\n<p>O corpo infinitesimal dos nano-rob\u00f4s que est\u00e3o por toda parte, e em lugar nenhum, da superintelig\u00eancia artificial alien\u00edgena mal\u00e9fica de O problema dos 3 corpos (2006), de Cixin Liu. Corpo, tempo e linguagem se entrela\u00e7am em Hist\u00f3ria de sua vida (1999), de Ted Chiang que ganhou forma pl\u00e1stica nos corpos tentaculares em A chegada (2016), de Denis Villeneuve.<\/p>\n<p>A viagem para frente e para tr\u00e1s no tempo de H. G. Wells, hipersaturada em Dark (2017) \u00e9 substitu\u00edda pelos deslocamentos nos territ\u00f3rios multidimensionais paralelos, desdobrados infinitamente, em obras como Coherence (2013) e Mat\u00e9ria escura (2016).<\/p>\n<p>Podemos buscar os determinantes na bomba de hidrog\u00eanio, que mostra a face mortal da t\u00e9cnica, n\u00e3o como uma escolha de usos, mas intrinsecamente falaz e mal\u00e9fica. O colapso total dos corpos. Em certa medida, deixamos de entender o mundo, na vis\u00e3o do \u00f3timo romance de Benjam\u00edn Labatut. \u201cN\u00e3o \u00e9 sem sentido, por exemplo, acreditar que a \u00e9poca cient\u00edfica e t\u00e9cnica \u00e9 o come\u00e7o do fim da humanidade\u201d, diz Ludwig Wittgenstein. Se cada \u00e9poca sonha com seu futuro, como especulou Jules Michelet, \u201cO s\u00e9culo XX, desiludido, tem pesadelo premonit\u00f3rios\u201d, nas palavras de Georges Minois. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>O Clube de Roma, fundado em 1968, anuncia os limites do crescimento global. Seu relat\u00f3rio The Limits to Growth (1972) alerta sobre os riscos do crescimento econ\u00f4mico. A ideia de progresso encontra a barreira material do Antropoceno e desaparece. O fracasso sistem\u00e1tico das confer\u00eancias clim\u00e1ticas universais nos conduz para um capitalismo de tintas cada vez mais verdes, onde a iniciativa privada e a racionalidade neoliberal despolitiza a emerg\u00eancia clim\u00e1tica e monetiza a cat\u00e1strofe com pol\u00edticas ESG. O ativismo pontual substitui a pol\u00edtica estrutural. \u00a0 \u00a0<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que come\u00e7a nos anos 1980 agrava os problemas. Para Franco Berardi, o No Future dos Sex Pistols, de 1977, capta essa energia de descontentamento, que vai ganhando concretude no High Tech\/Low Life da est\u00e9tica cyberpunk.<\/p>\n<p>O mundo cyberpunk n\u00e3o \u00e9 uma decad\u00eancia, mas a plena realiza\u00e7\u00e3o dos desejos do capitalismo tardio.\u00a0<\/p>\n<p>De l\u00e1 pra c\u00e1, a tecnologia tem sido sin\u00f4nimo de v\u00edcio doentio, epidemias de problemas de sa\u00fade mental, precariza\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos de trabalho e tem tido uma rela\u00e7\u00e3o umbilical com os novos fascismos. Corpora\u00e7\u00f5es transnacionais s\u00e3o mais poderosas que Estados, colocando as fr\u00e1geis democracias em risco, enquanto bilion\u00e1rios amea\u00e7am governos pelo twitter.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nNo eterno presente do scrolling infinito da internet, a verdade desaparece. Enquanto o discurso triunfalista de alto desempenho de coaches, adotando um estoicismo invertebrado, se alastra pelo espa\u00e7o virtual, no mundo real, a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, v\u00edtima da desigualdade e concentra\u00e7\u00e3o de renda inerente ao sistema, cresce exponencialmente nas grandes cidades. \u00a0<\/p>\n<p>Dos murm\u00farios infernais das imensas fazendas de minera\u00e7\u00e3o de bitcoins do interior do Texas, a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias que vivem debaixo das gigantes p\u00e1s de capta\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica no Nordeste do Brasil, a perspectiva \u00e9 de \u201cterra arrasada\u201d, para lembrar do contra-intuitivo livro de Jonathan Crary: a manuten\u00e7\u00e3o da vida digital deixa um rastro de devasta\u00e7\u00e3o material que tende a aumentar de modo cada vez mais irrevers\u00edvel. A corrida do ouro gerada pela expans\u00e3o da machine learning agrava o problema.<\/p>\n<p>Alta tecnologia. Extin\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Blade Runner (1982) foi incompreendido num primeiro momento apenas para se tornar um cl\u00e1ssico cada vez mais atual. O ciberespa\u00e7o de Neuromancer (1984), de William Gibson, passa de conceito liter\u00e1rio \u00e0 experi\u00eancia emp\u00edrica da vida mediada por algoritmos &#8211; m\u00e1quinas oraculares do prazer e da espionagem. Blade Runner 2049 (2017) traz uma sequ\u00eancia de abertura com fazendas solares a perder de vista, num mundo morto entulhado de tralhas, onde um ser sint\u00e9tico que desperta do sono, abrindo os olhos, sai em busca de si mesmo.<\/p>\n<p>Na pe\u00e7a R.U.R, os Rob\u00f4s Universais de Rossum substituem os humanos. N\u00e3o s\u00e3o melhores apenas para trabalhar, se organizar, se rebelar e matar, mas tamb\u00e9m s\u00e3o mais aptos a amar. E talvez tenhamos seres sint\u00e9ticos melhores que n\u00f3s ocupando o planeta, exatamente como s\u00e3o as fantasias de influencers de ci\u00eancia: rob\u00f4s antropomorfos levando a l\u00f3gica da explora\u00e7\u00e3o e do exterm\u00ednio colonial para outras gal\u00e1xias.\u00a0<\/p>\n<p>De minha parte, como no \u00f3timo jogo Cyberpunk 2077 (2020), vejo mentes copiadas para dentro de espa\u00e7os virtuais. Mas n\u00e3o qualquer mente. Nossos bons bilion\u00e1rios salvar\u00e3o s\u00edmiles virtuais de si mesmos \u201cna nuvem\u201d. Seu legado ser\u00e1 eterno, como a dinastia gen\u00e9tica de Funda\u00e7\u00e3o (Apple TV, 2021). Espalhando seu messianismo filantropo pelo espa\u00e7o sideral.<\/p>\n<p>Como disse Donna Haraway: \u201cA fronteira entre a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a realidade social \u00e9 uma ilus\u00e3o \u00f3tica\u201d.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos esquecer do conceito de \u201cmundo aberto\u201d dos jogos contempor\u00e2neos: nada \u00e9 mais cyberpunk do que a l\u00f3gica da sabotagem. A invenc\u00edvel entropia dos bugs \u00e9 sist\u00eamica. E est\u00e1 sempre \u00e0 espreita em quaisquer circuitos fechados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>* Marcos Vin\u00edcius Almeida \u00e9 escritor, jornalista e redator. Mestre em Literatura e Cr\u00edtica Liter\u00e1ria pela PUC-SP, colaborou com a Ilustr\u00edssima da Folha de S. Paulo e \u00e9 autor do romance Pesadelo Tropical (Aboio, 2023). www.marcosviniciusalmeida.com.<\/em><\/p>\n<p>**<em>Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o. A vis\u00e3o do autor n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do jornal\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns dos elementos da obra R.U.R &#8211; Rob\u00f4s Universais de Rossum ainda s\u00e3o assustadoramente contempor\u00e2neos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1554,1037,389,492,295,777,1098,369,476,904,1381,1130,1385,1114,710,1854,795,1931,961,1099,1921,1358,1748,385,255,414,1604,319,968,345,743,1945,265,890,1689,852,1694,1718,549,1115,1772,551,584,415],"class_list":["post-209361","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-1554","tag-acredita","tag-alimentos","tag-arte","tag-avatar","tag-brasil","tag-centros-urbanos","tag-ciencia","tag-conflitos","tag-crescimento","tag-dados","tag-desempregados","tag-dinheiro","tag-educacao","tag-emergencia","tag-emergencia-climatica","tag-energia","tag-energia-eolica","tag-estados","tag-estudo","tag-expansao","tag-exploracao","tag-familias","tag-genero","tag-geral","tag-homens","tag-ia","tag-inteligencia-artificial","tag-internet","tag-lei","tag-limites","tag-lucro","tag-mulheres","tag-otimismo","tag-passagens","tag-producao","tag-real","tag-relatorio","tag-renda","tag-saude","tag-tecnologia","tag-trabalhador","tag-trabalhadores","tag-trabalho"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/209361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=209361"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/209361\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=209361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=209361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=209361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}