{"id":211883,"date":"2024-08-11T15:39:14","date_gmt":"2024-08-11T15:39:14","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=211883"},"modified":"2024-08-11T15:39:14","modified_gmt":"2024-08-11T15:39:14","slug":"mes-da-visibilidade-lesbica-teatro-e-o-lugar-das-possibilidades-e-de-invencao-coletiva-define-a-atriz-iassana-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=211883","title":{"rendered":"M\u00eas da Visibilidade L\u00e9sbica: &#8216;Teatro \u00e9 o lugar das possibilidades e de inven\u00e7\u00e3o coletiva&#8217;, define a atriz Iassan\u00e3 Martins"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Durante o M\u00eas da <a href=\"https:\/\/www.brasildefatomg.com.br\/2023\/08\/29\/como-foi-o-evento-que-originou-ao-dia-nacional-da-visibilidade-lesbica\">Visibilidade L\u00e9sbica<\/a>, celebrado em agosto, o <strong>Brasil de Fato RS<\/strong>\u00a0apresenta o especial &#8220;Mulheres l\u00e9sbicas da cultura de Porto Alegre que voc\u00ea precisa conhecer&#8221;. A primeira \u00e9 a atriz,\u00a0professora e iluminadora Iassan\u00e3 Martins. Ela \u00e9 Licenciada em Teatro, no DADUFRGS, Mestra e Doutora pela mesma Universidade. Iniciou sua forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica em 2006 na Escola Tem Gente Teatrando, em Caxias do Sul.<\/p>\n<p>Entre seus trabalhos como atriz est\u00e3o: <em>A visita da velha Senhora<\/em> (2007), <em>Do It<\/em> (2012), <em>Ca\u00e7ar e Comer<\/em> (2014), <em>Oficina Hip Hop Hamlet<\/em> (2017), <em>Projeto Mulheragem<\/em> (2017), <em>Todas N\u00f3s<\/em> (2017), <em>Cabar\u00e9 da Mulher Braba<\/em> (2023) e <em>Cabar\u00e9 do Amor Rasgado<\/em> (2023). Assina luz dos Espet\u00e1culos: <em>Umas e Outras<\/em> (2017), <em>Mulheragem<\/em> (2017), <em>Todas n\u00f3s<\/em> (2017), <em>Boca no Mundo<\/em> (2018), <em>Tr\u00eas Can\u00e7\u00f5es<\/em> (2019), <em>No te Pongas Flamenca ou por que ainda temos que brigar?<\/em> (2019), <em>Tiger Balm<\/em> (2019), <em>Moira<\/em> (2019) e <em>Diz o Nome<\/em> (2023).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi professora de Teatro na EMEF Osvaldo Cruz, em Arroio dos Ratos (RS), professora substituta na gradua\u00e7\u00e3o em Teatro DAC\/UDESC de Florian\u00f3polis e professora substituta no Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS. Confira a entrevista:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/brasildefators_enchentes\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/assets\/7f79d3d45758c62a8dbbe78cfa5148e4.gif\"><\/a><\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS &#8211; Como voc\u00ea escolheu o teatro?\u00a0<\/p>\n<p>Iassan\u00e3 Martins &#8211; <\/strong>Aos cinco anos, participei do coral onde minha m\u00e3e trabalhava. No dia da apresenta\u00e7\u00e3o, antes de cantarmos, houve uma pequena encena\u00e7\u00e3o do pres\u00e9pio vivo. Quando vi aquilo, fiquei encantada. Ainda n\u00e3o sabia ler, mas j\u00e1 sabia que queria ser atriz. Cresci com o sonho de ser artista. Fui uma crian\u00e7a noveleira e posso dizer que fui influenciada pelos melhores: Fernanda Montenegro, Aracy Balabanian, Laura Cardoso, Osmar Prado, Lima Duarte e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Uma vez, teve uma pe\u00e7a na escola e lembro de ficar observando as coxias para tentar saber o que e quem estava l\u00e1 atr\u00e1s, na tentativa de compreender como funcionava essa engrenagem que \u00e9 o teatro. Posso dizer que a minha curiosidade e o encantamento por esse universo \u00e9 que me conduziram a ser uma mulher de teatro.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/ffa34e5c3f1c2b78f9e7b964dd65f941.webp\"><br \/>\n&#8220;Aos cinco anos ainda n\u00e3o sabia ler, mas j\u00e1 sabia que queria ser atriz. Cresci com o sonho de ser artista&#8221; \/ Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 ser uma l\u00e9sbica teatreira<\/strong><\/p>\n<p>Nasci em Bento Gon\u00e7alves, pelo menos at\u00e9 16 anos atr\u00e1s, uma cidade com pensamentos bastante limitados quanto \u00e0 diversidade (cultural, racial e sexual). Desde que cheguei em Porto Alegre, tive a sensa\u00e7\u00e3o de estar no meu lugar no mundo. Um lugar que respirava liberdade, provoca\u00e7\u00e3o de pensamentos e possibilidades de um mundo melhor &#8211; a cidade do F\u00f3rum Social Mundial. Ainda assim, sei que minha leitura de cidade perfeita era conduzida pela \u00f3tica ing\u00eanua de uma garota vinda do Interior, com sede pro novo.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>O teatro em si, apesar de estar inserido neste sistema machista, \u00e9 o lugar das possibilidades e de inven\u00e7\u00e3o coletiva. Se existe algo mais poderoso que isso, desconhe\u00e7o<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Entrei na Gradua\u00e7\u00e3o em Teatro em 2009 e foi mais ou menos nessa \u00e9poca que tive minhas primeiras experi\u00eancias sexuais, com homens e mulheres. N\u00e3o posso dizer que as coisas aconteceram naturalmente, pois o processo de me entender como mulher l\u00e9sbica n\u00e3o foi imediato, foi muito pelas beradas: observando como eu me sentia, como viviam minhas amizades LGBTs nos seus v\u00ednculos sociais, como minha m\u00e3e correspondia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas amizades e a possibilidade da filha dela ser uma mulher l\u00e9sbica. Fui compreendendo que eu podia bancar esse lugar, longe de ser confort\u00e1vel, mas fui construindo uma rede que me dava suporte para ser quem eu sou.<\/p>\n<p>Compartilho esse processo, pois cada pessoa tem o seu e posso dizer que ser uma mulher l\u00e9sbica teatreira, \u00e9 tudo o que sou. O teatro em si, apesar de estar inserido neste sistema machista, \u00e9 o lugar das possibilidades e de inven\u00e7\u00e3o coletiva. Se existe algo mais poderoso que isso, desconhe\u00e7o. Na universidade tive professoras, professores e colegas LGBTs, refer\u00eancias de que n\u00e3o havia nada de errado em ser l\u00e9sbica. Alguns dos textos, filmes e pe\u00e7as estudadas tamb\u00e9m abordavam a tem\u00e1tica. Ou seja, me sentia protegida.<\/p>\n<p>Ainda hoje me sinto, pois convivo com pessoas das artes, que tendem a pensar mais amplamente e ver beleza na diversidade. O que nos faz \u00fanicos, n\u00e3o? Para al\u00e9m do teatro, minha rede de conv\u00edvio \u00e9 formada, em sua maioria, por uma rede de pessoas LGBTQIAP+. Ent\u00e3o, sob o aspecto de ser uma artista l\u00e9sbica, dentro desse universo colorido e protegido, \u00e9 bom demais. Mas n\u00e3o d\u00e1 pra ser ing\u00eanua e achar que para todas as pessoas \u00e9 assim. At\u00e9 porque, performo uma mulher cis padr\u00e3o que \u201cn\u00e3o parece sapat\u00e3o\u201d. Mas a\u00ed \u00e9 uma longa hist\u00f3ria, que adentra quest\u00f5es sociais e pol\u00edticas mais profundas.<\/p>\n<p><strong>Alguma hist\u00f3ria curiosa, emocionante ou marcante nesses anos de carreira\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou apaixonada pelas Fernandas: a Montenegro e a Torres. De chegar a sonhar que elas s\u00e3o minhas amigas, que estou em um s\u00edtio na piscina fumando com a Fernanda Torres enquanto a Fernanda Montenegro capina pr\u00f3xima da gente. Ou que estou fazendo cena com elas. Uma loucura! (risos). Adoro assistir os trabalhos delas tanto filmes, s\u00e9ries, novelas, declama\u00e7\u00f5es. O v\u00eddeo da Torres declamando Necrol\u00f3gios dos desiludidos do amor (Carlos Drummond de Andrade), tem o meu cora\u00e7\u00e3o. Volto nele constantemente e vejo em <em>looping<\/em>. \u00c9 quase uma obsess\u00e3o pelas duas. Espero que exista uma boa obsess\u00e3o! Pois elas s\u00e3o refer\u00eancias de artistas, de trabalhos de qualidade, dignidade e de uma intelig\u00eancia absurda.<\/p>\n<p>Teve uma vez que trabalhei de camareira em uma s\u00e9rie em que a Fernanda Montenegro era a protagonista. Eu tinha que vesti-la, mas eu mal conseguia dar bom dia, de t\u00e3o nervosa que ficava, me sentia um bicho do mato. E era, n\u00e9!<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Eu sou apaixonada pelas Fernandas: a Montenegro e a Torres. De chegar a sonhar que elas s\u00e3o minhas amigas<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Quando a &#8216;Fernandona&#8217; estava em cartaz com Viver sem Tempos Mortos, assisti duas vezes. A primeira, no Theatro S\u00e3o Pedro (2011\/POA), sentei na primeira fila e estava nervos\u00edssima. Enquanto esperava, ficava tentando me concentrar pensando: \u201cmeu deus, n\u00e3o vou conseguir prestar aten\u00e7\u00e3o. Acho que vou desmaiar!\u201d. Mas a\u00ed era teatro com Fernanda Montenegro. N\u00e3o tinha como dar ruim. A segunda vez assisti no Teatro Raul Cortez, em 2011, em SP, e minha cadeira era uma das \u00faltimas. Vi que j\u00e1 ia iniciar a pe\u00e7a e que ainda tinham alguns lugares bem na frente, assim que desligaram as luzes fui correndo. Mais uma vez tive a oportunidade de ver a Fernanda Montenegro de pertinho, fazendo tudo com maestria.<\/p>\n<p>Imagina um mon\u00f3logo, a atriz sentada o tempo todo, uma lumin\u00e1ria acima dela e texto, texto, texto. Quando acabou ningu\u00e9m aplaudiu de imediato. Era como se o teatro estivesse em suspenso, respirando junto. Nunca vou esquecer. Pra terminar essa minha ode, quero referenciar o livro Pr\u00f3logo, ato, ep\u00edlogo: mem\u00f3rias, uma autobiografia da Fernanda Montenegro, um livro que me emociona, porque \u00e9 uma parte da hist\u00f3ria do teatro brasileiro escrita por quem viveu intensamente a cena, com amor, dedica\u00e7\u00e3o, muitos perrengues e, t\u00e1 a\u00ed com seus 94 anos, fazendo o que nasceu pra fazer. Tenho a maior admira\u00e7\u00e3o, amor e arrebatamento por essa mulher. Que privil\u00e9gio o nosso!<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, qual a import\u00e2ncia da visibilidade l\u00e9sbica dentro desse espa\u00e7o de cultura<\/strong><\/p>\n<p>Como artista e professora, compreendo a arte e a educa\u00e7\u00e3o como lugares de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento. Mas tamb\u00e9m de desconstru\u00e7\u00e3o, pois a cultura \u00e9 viva, pulsante. Nada em nossa sociedade \u00e9 natural, por isso os tensionamentos e disputas de narrativas, que por muito tempo foram escritas por poucos (brancos, ricos e heterossexuais). \u00c9 inquestion\u00e1vel a import\u00e2ncia da visibilidade l\u00e9sbica no \u00e2mbito da cultura, mas gosto de ampliar o debate. Afinal, ap\u00f3s muitas lutas de mulheres de todos os tempos, podemos escrever nossas hist\u00f3rias, podemos nos referenciar, ocupar diferentes espa\u00e7os e reconhecer entre n\u00f3s, as diferentes &#8216;mulheridades&#8217; e as distintas demandas, que em algum lugar se interseccionam, como nos ensina Kimberl\u00e9 Crenshaw.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Ap\u00f3s muitas lutas de mulheres de todos os tempos, podemos escrever nossas hist\u00f3rias, podemos nos referenciar<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>As artes fazem parte de seu tempo e contexto social, por isso, neste momento, as quest\u00f5es sobre as mulheres sob a perspectivas das mulheres \u00e9 t\u00e3o efervescente, pois enquanto sociedade ainda precisamos evoluir muito. Na mesma propor\u00e7\u00e3o que as demandas das mulheres (cis e trans) estiverem no topo das discuss\u00f5es sociais e pol\u00edticas, estaremos em cena provocando e pensando em alternativas. Pra terminar, quero referenciar uma mulher l\u00e9sbica, a diretora de teatro Ariane Mnouchkine, que diz que \u2018enquanto as leis n\u00e3o estiverem a favor das mulheres, estar\u00e3o contra elas\u2019. Sendo assim continuaremos colocando nossas quest\u00f5es na vida e na cena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conversa inaugura a s\u00e9rie &#8216;Mulheres l\u00e9sbicas da cultura de Porto Alegre que voc\u00ea precisa conhecer&#8217;, do Brasil de Fato RS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[492,1913,777,259,1508,525,1114,1179,414,1604,384,265,1431,1042,1009,1214],"class_list":["post-211883","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-arte","tag-bom-dia","tag-brasil","tag-cultura","tag-debate","tag-diversidade","tag-educacao","tag-entrevista","tag-homens","tag-ia","tag-mulher","tag-mulheres","tag-porto-alegre","tag-projeto","tag-ricos","tag-rs"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=211883"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211883\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=211883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=211883"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=211883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}