{"id":212130,"date":"2024-08-11T20:19:33","date_gmt":"2024-08-11T20:19:33","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=212130"},"modified":"2024-08-11T20:19:33","modified_gmt":"2024-08-11T20:19:33","slug":"luto-e-luta-na-amazonia-morre-tuire-kayapo-a-indigena-que-adiou-o-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=212130","title":{"rendered":"Luto e luta na Amaz\u00f4nia: morre Tu\u00edre Kayap\u00f3, a ind\u00edgena que adiou o fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Tu\u00edre Kayap\u00f3, uma das maiores lideran\u00e7as ind\u00edgenas do Brasil, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/08\/10\/morre-tuire-kayapo-icone-da-resistencia-indigena-contra-a-construcao-de-belo-monte\">morreu neste s\u00e1bado (10)<\/a> em um hospital na cidade de Reden\u00e7\u00e3o, no Par\u00e1. Ela tinha 57 anos e enfrentava um c\u00e2ncer de \u00fatero. Sua morte encerra uma trajet\u00f3ria marcante na defesa dos direitos dos povos ind\u00edgenas e da floresta amaz\u00f4nica. Desde as disputas em torno da Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte at\u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/06\/04\/tuire-kayapo-convoca-luta-contra-marco-temporal-o-branco-so-quer-destruir-a-nossa-amazonia\">Marco Temporal<\/a>, Tu\u00edre sempre se posicionou em rela\u00e7\u00e3o aos ataques do governo contra os povos da floresta.<\/p>\n<p>Tu\u00edre despertou aten\u00e7\u00e3o internacional em 1989. Nesse ano, ocorreu em Altamira (PA) o 1\u00ba Encontro das Na\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas do Xingu. O evento, que reunia cerca de 600 ind\u00edgenas, todos pintados para a guerra, tinha o objetivo de discutir os projetos da Usina Hidrel\u00e9trica de Karara\u00f4, que posteriormente passou a se chamar Belo Monte.<\/p>\n<p>Em determinado momento, Tu\u00edre, ent\u00e3o com 19 anos, colocou um fac\u00e3o no rosto do presidente da Eletronorte, Jos\u00e9\u00a0Ant\u00f4nio Muniz Lopes. Conforme ela lembra em entrevista de 2023 ao Instituto Socioambiental (ISA), ela disse ao presidente da empresa: &#8220;Branco, voc\u00ea n\u00e3o tem floresta. Essa terra n\u00e3o \u00e9 sua. Voc\u00ea nasceu na cidade e ent\u00e3o veio para c\u00e1 atacar nossa floresta e nossos rios. Voc\u00ea n\u00e3o vai fazer isso&#8221;.<\/p>\n<p>A foto de seu ato correu o mundo e despertou a aten\u00e7\u00e3o de autoridades, ativistas e artistas internacionais, adiando a constru\u00e7\u00e3o da usina em cerca de vinte anos. Depois de constru\u00edda, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/11\/18\/justica-reconhece-etnocidio-causado-por-belo-monte-a-indigenas-e-ordena-mudancas\">Belo Monte<\/a> ficou conhecida como o &#8220;fim do mundo&#8221; da Volta Grande do Xingu. Tu\u00edre foi, para usar as palavras de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/15\/para-ailton-krenak-crise-nao-e-so-climatica-e-de-uma-sociedade-estragada-pela-monocultura-de-tudo\">A\u00edlton Krenak<\/a>, a mulher que adiou o fim do mundo.<\/p>\n<p>Importante lembrar que os Kayap\u00f3 se autodenominam M\u1ebdb\u00eang\u00f4kre, palavra que significa, em sua l\u00edngua, &#8220;povo que saiu do buraco d&#8217;\u00e1gua&#8221;. Para chegar ao mundo, de acordo com sua cosmologia, eles fizeram uma longa travessia, alcan\u00e7ando a superf\u00edcie da terra atrav\u00e9s das \u00e1guas. Os rios s\u00e3o, portanto, as suas ra\u00edzes. Dessa forma, fica f\u00e1cil compreender porque esses ind\u00edgenas se opuseram de forma t\u00e3o veemente contra Belo Monte: um rio barrado e desviado representaria n\u00e3o apenas o fim da pesca e o fim da navega\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o fim de uma forma de ver o mundo. Se o rio s\u00e3o as suas ra\u00edzes, com a usina, os M\u1ebdb\u00eang\u00f4kre ficariam &#8220;desenriozados&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, um outro elemento marcou profundamente as disputas em torno da usina. A princ\u00edpio, Belo Monte se chamaria Karara\u00f4, um grito de guerra na l\u00edngua m\u1ebdb\u00eang\u00f4kre. Os Kayap\u00f3 s\u00e3o um povo guerreiro. A coragem e a for\u00e7a s\u00e3o, para eles, atributos sagrados,\u00a0expressos nos gritos de guerra. Impedir que a grande usina hidrel\u00e9trica fosse batizada como Karara\u00f4 era uma forma de deixar demarcadas as separa\u00e7\u00f5es entre a for\u00e7a dos brancos, no caso a energia el\u00e9trica, e a for\u00e7a dos ind\u00edgenas. Era uma forma de deixar bem expl\u00edcito que, enquanto a for\u00e7a dos brancos era para destruir, a for\u00e7a dos M\u1ebdb\u00eang\u00f4kre era para proteger a floresta.<\/p>\n<p>Estive na presen\u00e7a de Tu\u00edre apenas uma vez, durante uma <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/06\/04\/tuire-kayapo-convoca-luta-contra-marco-temporal-o-branco-so-quer-destruir-a-nossa-amazonia\">entrevista<\/a> na cidade de Bel\u00e9m, no ano passado. Na ocasi\u00e3o, ela j\u00e1 estava realizando tratamento de sa\u00fade, mas decidiu falar com a imprensa sobre o Marco Temporal, ent\u00e3o em vota\u00e7\u00e3o no Congresso. Tu\u00edre falou em l\u00edngua m\u1ebdb\u00eang\u00f4kre, tendo sido traduzida por seu marido, o cacique Dudu. Apesar de n\u00e3o poder entender diretamente as palavras ditas por ela, eu pude sentir a for\u00e7a de sua fala, a firmeza de seu olhar, a convic\u00e7\u00e3o de sua entona\u00e7\u00e3o. For\u00e7a, firmeza e convic\u00e7\u00e3o que se mantiveram as mesmas ao longo de toda a sua vida, independentemente do interlocutor.<\/p>\n<p>Trinta anos ap\u00f3s o Encontro das Na\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas em Altamira, em uma audi\u00eancia na C\u00e2mara, em 2019, Tu\u00edre enfrentou o deputado bolsonarista Jos\u00e9 Medeiros, ent\u00e3o filiado ao Podemos do Mato Grosso. Durante a audi\u00eancia, o deputado criticou as ONGs que trabalham com os povos ind\u00edgenas e defendeu a explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio em terras ind\u00edgenas, tendo sido duramente contestado por Tu\u00edre.<\/p>\n<p>Em 2023, ela enfrentou sua \u00faltima batalha: o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/03\/fazendeiros-usam-lei-do-marco-temporal-para-reivindicar-terra-indigena-onde-cabral-chegou-em-1500\">Marco Temporal<\/a>. Na entrevista concedida a mim, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/06\/04\/tuire-kayapo-convoca-luta-contra-marco-temporal-o-branco-so-quer-destruir-a-nossa-amazonia\">publicada aqui no <strong>Brasil de Fato<\/strong><\/a>, Tu\u00edre critica os pol\u00edticos que, mesmo sem conhecer a floresta, insistem em querer dizer o que \u00e9 melhor para ela: &#8220;Porque senador vive na cidade, deputado vive na cidade. Eles n\u00e3o moram dentro da floresta. N\u00f3s n\u00e3o, n\u00f3s vivemos na floresta, na Amaz\u00f4nia (&#8230;). Eles deveriam fazer alguma coisa, algum programa deles para dentro da cidade. Eles s\u00f3 querem fazer os programas deles, projetos deles, dentro da nossa reserva, nossa floresta, nossa Amaz\u00f4nia. Essa terra aqui \u00e9 nossa. N\u00f3s que vamos criar algum projeto, que vamos fazer algo dentro da nossa floresta&#8221;.<\/p>\n<p>Essas palavras ecoam aquelas outras, que foram ditas por ela ao presidente da Eletronorte, e expressam seu descontentamento com a pol\u00edtica dos brancos: decidir o destino dos povos ind\u00edgenas sem ouvi-los. Nos \u00faltimos 35 anos, foram muitas as tentativas do Estado para calar os povos ind\u00edgenas. A cada uma dessas tentativas, no entanto, se erguia a voz de Tu\u00edre.<\/p>\n<p>A saudade \u00e9 um sentimento muito presente na vida dos M\u1ebdb\u00eang\u00f4kre. Isso vale tanto para os vivos, que sentem saudade de seus mortos, quanto para os mortos, que sentem saudade dos vivos. Depois que uma pessoa M\u1ebdb\u00eang\u00f4kre morre, sua alma, chamada karon, sai de seu corpo e inicia uma travessia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 aldeia dos mortos. L\u00e1, o karon vive uma vida semelhante \u00e0 vida dos vivos: casa-se, tem filhos, guerreia. No entanto, o karon dos mortos costuma frequentar a aldeia dos vivos, principalmente durante as festas. Os rituais m\u1ebdb\u00eang\u00f4kre s\u00e3o, ao mesmo tempo, uma celebra\u00e7\u00e3o da vida e uma homenagem aos mortos. Os Kayap\u00f3 se recusam a se esquecer de seus mortos, e os karon n\u00e3o se esquecem dos vivos. Os M\u1ebdb\u00eang\u00f4kre s\u00e3o t\u00e3o unidos que nem a morte os separa.<\/p>\n<p>Boa travessia, Tu\u00edre. A cosmologia Kayap\u00f3 diz que, quando aqui \u00e9 dia, na aldeia dos mortos \u00e9 noite, e quando aqui \u00e9 noite, l\u00e1 \u00e9 dia \u2013 sempre o oposto. Que a aldeia dos mortos seja uma enorme Amaz\u00f4nia em que as \u00e1rvores permane\u00e7am de p\u00e9 e em que os rios corram livres, sem barragens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada tentativa do Estado para calar os povos ind\u00edgenas, se erguia a voz de Tu\u00edre, falecida neste s\u00e1bado (10)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[452,1411,1512,226,777,280,701,409,1005,795,322,1179,1358,659,453,1622,1493,288,282,384,1211,1505,742,1244,1042,1953,748,1115,708,284,1137],"class_list":["post-212130","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-amazonia","tag-audiencia","tag-belem","tag-bolsonarista","tag-brasil","tag-cacique","tag-congresso","tag-direcao","tag-encontro","tag-energia","tag-energia-eletrica","tag-entrevista","tag-exploracao","tag-filhos","tag-floresta","tag-floresta-amazonica","tag-governo","tag-mato-grosso","tag-morte","tag-mulher","tag-navegacao","tag-para","tag-pesca","tag-presidente","tag-projeto","tag-projetos","tag-rio","tag-saude","tag-temporal","tag-vale","tag-votacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/212130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=212130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/212130\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=212130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=212130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=212130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}