{"id":216630,"date":"2024-08-15T12:40:08","date_gmt":"2024-08-15T12:40:08","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=216630"},"modified":"2024-08-15T12:40:08","modified_gmt":"2024-08-15T12:40:08","slug":"memoria-nao-morrera-50-anos-sem-frei-tito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=216630","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria n\u00e3o morrer\u00e1: 50 anos sem Frei Tito"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Era para ser apenas um passeio pelo Quartier Latin, escala no caminho de volta para o Brasil, depois de uma estadia na Alemanha de 2 anos e meio. E de repente, numa esquina do Boulevard Saint Michel, naquele julho de 1971, algu\u00e9m me deu um encontr\u00e3o que quase me derrubou: era o Tito, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/08\/10\/50-anos-da-morte-de-frei-tito-representava-a-alianca-entre-a-fe-e-a-revolucao-diz-frei-xavier-ultimo-a-ve-lo-com-vida\">Frei Tito Alencar de Lima<\/a>, afobado, como que fugindo. A alegria de encontrar um conterr\u00e2neo, a surpresa de esbarrar com um camarada longe do pa\u00eds, se esva\u00edram pela tens\u00e3o e nervosismo, que o faziam n\u00e3o responder \u00e0s perguntas que brotavam: desde quando estava em Paris, o que fazia, como ia o Brasil, como estavam os amigos comuns, e a repress\u00e3o? \u00a0Sim, e a repress\u00e3o?<br \/>\n\u00a0<br \/>\nEu n\u00e3o sabia que ele rec\u00e9m integrara o grupo dos 70 presos pol\u00edticos trocados pelo Embaixador su\u00ed\u00e7o sequestrado no Brasil. (Nem ele falou disso, na ocasi\u00e3o; eu s\u00f3 soube ao chegar de volta ao Brasil, quando me informaram tamb\u00e9m que o Tito tinha sido barbaramente torturado). Morando em Berlim e com a correspond\u00eancia censurada, as not\u00edcias pol\u00edticas mais sens\u00edveis do Brasil se reduziam ao pouco que chegava pela imprensa internacional e pelos jornais que a minha fam\u00edlia enviava, sem coment\u00e1rios e sem nada assinalado. Por carta, nunca! Por vezes eu recebia, com atraso de um m\u00eas, vindos por navio, uma Folha ou um Estad\u00e3o inteiros, que eu vasculhava cuidadosamente, na certeza de encontrar algumas linhas dolorosas a respeito de algu\u00e9m conhecido. Podia-se avaliar a intensidade da censura atrav\u00e9s das receitas de cozinha ou de trechos de \u201cOs Lus\u00edadas\u201d com que a imprensa resolveu preencher os espa\u00e7os censurados, evidenciando aos leitores que ali havia material proibido. Mas a morte de Marighella, l\u00edder da ALN, um ano e meio antes, em novembro de 1969, foi noticiada pela imprensa europeia: assassinado a tiros, numa emboscada em que estudantes dominicanos, confrades do Tito, foram torpemente implicados.\u00a0\u00a0 \u00a0<\/p>\n<p>Eu tinha conhecido o Frei Tito em S\u00e3o Paulo, na tensa e intensa d\u00e9cada de 60, cruzando com ele nos corredores do Convento dos Dominicanos, onde ele morava e aonde eu ia frequentemente participar de reuni\u00f5es. Os dominicanos decididamente se tinham colocado na resist\u00eancia \u00e0 Ditadura, e corajosamente franqueavam os espa\u00e7os do Convento de Perdizes para atividades consideradas \u201csubversivas\u201d. Assim, n\u00f3s, estudantes da Maria Antonia (a Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da USP, antes de sua depreda\u00e7\u00e3o e inc\u00eandio pela Direita do Mackenzie, em 1968), bem como universit\u00e1rios da PUC, l\u00e1 realiz\u00e1vamos reuni\u00f5es de v\u00e1rias siglas em que se dividia o movimento estudantil &#8211; no meu caso, eram encontros de AP (A\u00e7\u00e3o Popular) e tamb\u00e9m atividades preparat\u00f3rias para as classes de Alfabetiza\u00e7\u00e3o de Adultos M\u00e9todo Paulo Freire, que aconteciam numa vila oper\u00e1ria de Osasco &#8211; de 1966 a 1968, quando fomos for\u00e7ados a abandonar a empreitada, porque o Dops havia baixado em Vila Iolanda.<\/p>\n<p>Agora, tantas d\u00e9cadas depois, penso que era realmente \u201csubversivo\u201d aquilo: uma tentativa de que os alfabetizandos se reconhecessem como criadores, como sujeitos hist\u00f3ricos, numa percep\u00e7\u00e3o ainda t\u00edmida da jun\u00e7\u00e3o entre a m\u00e3o que faz e a cabe\u00e7a que pensa: o primeiro passo no rumo da t\u00e3o buscada conscientiza\u00e7\u00e3o libertadora. O m\u00e9todo Paulo Freire s\u00f3 poderia mesmo ser proscrito pela Ditadura. \u00a0\u201cIvo viu a uva\u201d, poderiam continuar a dizer as cartilhas. Mas perguntar-se em que condi\u00e7\u00f5es Ivo plantava a uva, como agia o propriet\u00e1rio das terras, qual era o lucro na comercializa\u00e7\u00e3o do vinhedo, etc, etc&#8230; tudo era altamente desestabilizador para o status quo.\u00a0<\/p>\n<p>Volto ao encontro com Frei Tito, em 1971. Convers\u00e1vamos na rua e, de repente, ele agarrou meu bra\u00e7o e literalmente nos arrastou para dentro de um Caf\u00e9. E dizia: voc\u00eas viram o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/08\/26\/de-fleury-para-frei-tito-sp-troca-nome-de-rua-de-torturador-por-torturado-na-ditadura\">Fleury<\/a>? Ele virou a esquina\u201d. Mas no Caf\u00e9 seus olhos n\u00e3o abandonavam a porta por onde, dizia, a qualquer momento ia entrar seu carrasco, o delegado torturador Sergio Paranhos Fleury. Eu n\u00e3o sabia ainda, mas com as sev\u00edcias que o destro\u00e7aram na OBAN, tendo internalizado seu torturador, ele o carregava para onde quer que fosse. Como narra Frei Betto em Batismo de Sangue. Guerrilha e morte de Carlos Marighella\u00a0 &#8211; de leitura obrigat\u00f3ria para quem quiser saber o que se passou na ditadura brasileira &#8211; Frei Tito entrara, sim, como amea\u00e7ou um dos agentes do DOI-CODI, na \u201csucursal do inferno\u201d, da qual s\u00f3 sairia quando a morte buscada o libertou. H\u00e1 50 anos, em 10 de agosto de 1974. Eu acabei sendo uma inesperada testemunha da <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/08\/26\/torturado-frei-tito-foi-perseguido-por-fantasma-de-delegado-ate-sua-morte\">demoli\u00e7\u00e3o ps\u00edquica<\/a> desse rapaz de 26 anos, e tenho o dever de mem\u00f3ria. Como dizem Milton Nascimento e Fernando Brant, em \u201cSentinela\u201d: Morte, vela \/ Sentinela sou \/ do corpo desse meu irm\u00e3o que j\u00e1 se foi \/&#8230; \u00a0\/ Mem\u00f3ria n\u00e3o morrer\u00e1.<\/p>\n<p><em>* Ad\u00e9lia Bezerra de Meneses, professora e ensa\u00edsta, \u00e9 autora de v\u00e1rios livros, entre os quais Chico Buarque ou a Poesia Resistente. Ensaios sobre as letras de can\u00e7\u00f5es recentes, Ateli\u00ea Editorial, 2024.<\/em><\/p>\n<p>**\u00a0Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o. A vis\u00e3o do autor n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do <strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3rias em homenagem ao frade cat\u00f3lico Frei Tito, que lutou durante os anos mais intensos da ditadura<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[777,316,1005,1604,1951,1945,282,556,702,136,438],"class_list":["post-216630","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-brasil","tag-censura","tag-encontro","tag-ia","tag-julho","tag-lucro","tag-morte","tag-noticias","tag-receitas","tag-sao-paulo","tag-usp"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/216630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=216630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/216630\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=216630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=216630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=216630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}