{"id":230875,"date":"2024-08-24T18:37:33","date_gmt":"2024-08-24T18:37:33","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=230875"},"modified":"2024-08-24T18:37:33","modified_gmt":"2024-08-24T18:37:33","slug":"filme-alien-romulus-volta-as-origens-da-serie-entrelacando-horror-cosmico-com-o-terror-da-expansao-colonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=230875","title":{"rendered":"Filme &#8216;Alien: Romulus&#8217; volta \u00e0s origens da s\u00e9rie entrela\u00e7ando horror c\u00f3smico com o terror da expans\u00e3o colonial"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p><em>[Aten\u00e7\u00e3o: o texto cont\u00e9m spoilers do filme].\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Quem entrasse desavisado numa <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/08\/12\/estamos-reestruturando-o-cinema-diz-glenda-nicacio-sobre-mulheres-negras-dirigindo-filmes\">sala de cinema<\/a> e contemplasse os primeiros planos de Alien: Romulus (Fede Alvarez, 2024), que estreou esta semana, talvez tivesse a impress\u00e3o de estar vendo um remake do cl\u00e1ssico de 1979. Computadores com teclados mec\u00e2nicos, embalados pelo ru\u00eddo de fitas e HDs magn\u00e9ticos, impulsionando monitores de f\u00f3sforo monocrom\u00e1ticos: uma imagem do futuro imaginado no passado.<\/p>\n<p>Assim como no cl\u00e1ssico de Ridley Scott, o filme come\u00e7a com o<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/08\/10\/rastros-do-futuro-peca-de-teatro-que-inventou-a-palavra-robo-mostra-como-a-ficcao-cientifica-pode-prever-o-futuro\"> despertar de uma m\u00e1quina.<\/a><\/p>\n<p>A refer\u00eancia (ou rever\u00eancia) \u00e0 est\u00e9tica retrofuturista n\u00e3o \u00e9 gratuita. Todo bom artista sabe que a cita\u00e7\u00e3o \u00e9 um valioso m\u00e9todo criativo. N\u00e3o apenas eficaz, mas muito sofisticado. S\u00f3 os med\u00edocres buscam a originalidade dentro da pr\u00f3pria cabe\u00e7a, atormentados pela \u201cang\u00fastia da influ\u00eancia\u201d. No caso do roteiro assinado por Fede Alvarez e Rodo Sayagues a cita\u00e7\u00e3o ganha sentido art\u00edstico e tamb\u00e9m narrativo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">De volta \u00e0 origem\u00a0<\/p>\n<p>O enredo de Alien: Romulus se passa cronologicamente em 2142, ou seja, vinte anos depois dos acontecimentos de O 8\u00ba Passageiro, que est\u00e1 cronologicamente situado em 2122, e um pouco antes de Aliens (James Cameron, 1986) que \u00e9 ambientado em 2179.\u00a0<\/p>\n<p>Parece que finalmente teremos uma trilogia, mesmo que \u201cafetiva\u201d, para uma hist\u00f3ria que tinha ficado marcada por enterrar bons diretores. As sequ\u00eancias de David Fincher e seu planeta pris\u00e3o em Alien 3 (1992) e o humor involunt\u00e1rio dos clones de Alien: A Ressurrei\u00e7\u00e3o (1997) de Jean-Pierre Jeunet podem ser deixadas de lado. \u00a0<\/p>\n<p>Fede Alvarez, conhecido pelos bons trabalhos em <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/04\/01\/dez-filmes-para-entender-a-ditadura-militar-no-brasil\">filmes <\/a>de terror como A Morte do Dem\u00f4nio (2013), se apoia naquilo que \u00e9 s\u00f3lido nos cl\u00e1ssicos de Scott e Cameron para alcan\u00e7ar seus pr\u00f3prios voos. A cena do parto do monstro, aqui mais literal e menos metaf\u00f3rica e psicoanal\u00edtica que nos filmes antigos, \u00e9 um bom exemplo disso. Os tempos s\u00e3o mais literais. As sequ\u00eancias de a\u00e7\u00e3o, como do \u00e1cido verde flutuante, n\u00e3o deixam nada a desejar \u00e0s passagens megaloman\u00edacas de James Cameron, com a fr\u00e1gil garotinha nadando na piscina a poucos cent\u00edmetros do monstro xenomorfo.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Planeta colonial\u00a0<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o planeta col\u00f4nia, com trabalhadores superexplorados pela megacorpora\u00e7\u00e3o Weyland-Yutani, que renova contratos unilaterais de maneira compuls\u00f3ria, e superpovoado com gigantescas m\u00e1quinas de minera\u00e7\u00e3o, lembra os melhores momentos do subtexto ambiental de Avatar (2009) de Cameron e do movimento cyberpunk, algo que comentei de maneira mais demorada no meu artigo anterior aqui no BdF.<\/p>\n<p>A elite humana avan\u00e7a pelo espa\u00e7o sideral apenas para reproduzir a l\u00f3gica do capital, que v\u00ea a natureza como \u00c9den concedido por Deus, onde tudo est\u00e1 a\u00ed, \u201cgr\u00e1tis\u201d, para ser explorado. Mas esse progresso catastr\u00f3fico aqui \u00e9 barrado n\u00e3o pelo limite material do colapso do planeta Terra, j\u00e1 ultrapassado, mas pelo pr\u00f3prio corpo humano.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Organismo perfeito \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A ra\u00e7a humana n\u00e3o se adapta \u00e0 l\u00f3gica da explora\u00e7\u00e3o e crescimento econ\u00f4mico infinito, da competi\u00e7\u00e3o desenfreada, da acelera\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o do capital sem limites. Nada disso \u00e9 inato \u00e0 \u201cnatureza humana\u201d. Tampouco ao corpo humano. Ao contr\u00e1rio do falacioso discurso de coaches e ide\u00f3logos do neoliberalismo, o capitalismo n\u00e3o \u00e9 um espelho da \u201calma humana\u201d. S\u00e3o necess\u00e1rios muitos mecanismos de coer\u00e7\u00e3o f\u00edsica, ideol\u00f3gica e moral, al\u00e9m de aditivos farmacol\u00f3gicos, coquet\u00e9is de alto desempenho, para manter a ilus\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, para uma pessoa funcionar, mesmo que adoecida, sob o regime da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para se realizar plenamente, se expandir rumo ao crescimento sem limites, a grande corpora\u00e7\u00e3o precisa inventar um organismo perfeito, um \u201cFrankenstein Espacial\u201d, cujo corpo seja adapt\u00e1vel a qualquer desafio que as in\u00f3spitas col\u00f4nias espaciais possam ter. \u00a0 \u00a0\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">As ru\u00ednas do imp\u00e9rio\u00a0<\/p>\n<p>\u201cSob o comando deste (&#8230;), aquela famosa Roma igualar\u00e1 sua autoridade sobre a terra com a grandeza do Olimpo\u201d. Este \u00e9 um trecho da Eneida, de Virg\u00edlio, sobre o nascimento do imp\u00e9rio romano. Esse homem que vai comandar essa terra equivalente aos pr\u00f3prios deuses \u00e9 R\u00f4mulo, descendente de troianos exilados e fundador, junto com seu irm\u00e3o Remo, do povo que governou grande parte da Europa da antiguidade.\u00a0<\/p>\n<p>No filme, os jovens trabalhadores querem fugir da sombria col\u00f4nia de minera\u00e7\u00e3o e acabam descobrindo a Esta\u00e7\u00e3o Espacial Renaissance, uma monumental nave em ru\u00ednas, vagando em trajet\u00f3ria de colis\u00e3o com restos de asteroides e detritos de rochas que formam os lindos aneis do planeta col\u00f4nia. Os planos \u00e0 beira do anel de asteroides s\u00e3o o ponto visual mais interessante de um filme que deixa Prometheus parecendo cada vez mais um bel\u00edssimo e est\u00e9ril comercial de Citro\u00ebn.<\/p>\n<p>A imagem de ru\u00edna sobre ru\u00edna ligada ao renascimento cient\u00edfico n\u00e3o \u00e9 gratuita: a raz\u00e3o iluminista \u00e9 o pai do exterm\u00ednio colonial.<\/p>\n<p>Os jovens com aspira\u00e7\u00f5es de liberdade, acompanhados por um ent\u00e3o ing\u00eanuo rob\u00f4, v\u00e3o descobrir da pior maneira poss\u00edvel, que essa esta\u00e7\u00e3o, cujos m\u00f3dulos se chamam R\u00f4mulo e Remo, \u00e9 um grande laborat\u00f3rio para desenvolver experimentos com biotecnologia que visam impulsionar a expans\u00e3o espacial. Ou seja, desenvolver corpos mais aptos ao trabalho em col\u00f4nias de minera\u00e7\u00e3o, mais adaptados \u00e0 l\u00f3gica do lucro sem fim.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 que esse discurso vem da boca do ator Ian Holm, que faleceu em 2020, e havia feito em 1979 o papel do sint\u00e9tico (nome dado aos rob\u00f4s nesse universo), e foi agora recriado digitalmente para o mesmo papel. Um ator que trabalha ap\u00f3s a morte. Impedido de parar de trabalhar. Ressuscitado para continuar trabalhando, quase como Murphy, de Robocop (1987).<\/p>\n<p>Mas os desejos de crescimento exponencial dos gr\u00e1ficos da explora\u00e7\u00e3o esbarram nos limites incompreens\u00edveis do horror c\u00f3smico.\u00a0<\/p>\n<p>Em um horizonte de eventos que se expande incomensuravelmente no espa\u00e7o e no tempo, muito al\u00e9m dos limites da nossa compreens\u00e3o, n\u00e3o podemos prever que esp\u00e9cie de mal puro est\u00e1 \u00e0 espreita. Um mal t\u00e3o antigo, incomensur\u00e1vel, como o pr\u00f3prio universo. E sem quaisquer matizes morais impostos pela nossa psicologia infantilizada, pueril, limitada pelo antropomorfismo iluminista.\u00a0<\/p>\n<p>Uma for\u00e7a capaz de devastar quaisquer expectativas, como um silencioso buraco negro, torcendo a pr\u00f3pria estrutura do espa\u00e7o-tempo, desde as entranhas da mat\u00e9ria, despedan\u00e7ando mol\u00e9culas e \u00e1tomos e os pr\u00f3prios vest\u00edgios desse mesmo desaparecimento.\u00a0<\/p>\n<p>Nem mesmo a mais leve e brilhante part\u00edcula de luz pode se esconder.<\/p>\n<p><em>* Marcos Vin\u00edcius Almeida \u00e9 escritor, jornalista e redator. Mestre em Literatura e Cr\u00edtica Liter\u00e1ria pela PUC-SP, colaborou com a Ilustr\u00edssima da Folha de S. Paulo e \u00e9 autor do romance Pesadelo Tropical (Aboio, 2023). www.marcosviniciusalmeida.com.<\/em><br \/>\n\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas m\u00e3os do diretor uruguaio Fede Alvarez, novo filme chega aos cinemas abandonando tom grandiloquente de Prometheus<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[295,1549,427,904,1921,1358,1045,1188,292,743,1945,282,1689,301,584,415],"class_list":["post-230875","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-avatar","tag-cinema","tag-computadores","tag-crescimento","tag-expansao","tag-exploracao","tag-impostos","tag-jovens","tag-laboratorio","tag-limites","tag-lucro","tag-morte","tag-passagens","tag-prisao","tag-trabalhadores","tag-trabalho"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/230875","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=230875"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/230875\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=230875"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=230875"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=230875"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}