{"id":252372,"date":"2024-09-11T11:30:05","date_gmt":"2024-09-11T11:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=252372"},"modified":"2024-09-11T11:30:05","modified_gmt":"2024-09-11T11:30:05","slug":"em-1974-ditadura-pinochet-instituiu-desaparecimento-forcado-como-politica-de-estado-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=252372","title":{"rendered":"Em 1974, ditadura Pinochet instituiu desaparecimento for\u00e7ado como pol\u00edtica de Estado no Chile"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>O casar\u00e3o localizado no n\u00ba 38 da rua Londres, na capital do Chile, Santiago, foi o primeiro centro de deten\u00e7\u00e3o e tortura da Dire\u00e7\u00e3o de Intelig\u00eancia Nacional (Dina) da <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/06\/victor-jara-um-gigante-da-musica-que-a-selvageria-de-pinochet-nao-conseguiu-calar\">ditadura de Augusto Pinochet<\/a> (1973-1990).<\/p>\n<p>Meses ap\u00f3s o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/08\/exposicao-sobre-allende-na-venezuela-discute-legado-da-via-chilena-e-o-socialismo-na-regiao\">golpe de Estado de 11 de setembro de 1973<\/a>, foi nesse espa\u00e7o que a ditadura Pinochet instituiu o desaparecimento de opositores como uma estrat\u00e9gia do aparelho de repress\u00e3o do Estado, a partir de abril de 1974, contra o Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1ria (MIR), primeiro, e depois contra outras organiza\u00e7\u00f5es da esquerda chilena, como o Partido Socialista (PS) e o Partido Comunista (PC).<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 havia desaparecidos em 73, mas em 74 foi muito mais direcionado e eles come\u00e7aram a implementar [o desaparecimento] com outros m\u00e9todos, poder\u00edamos dizer mais refinados no sentido de buscar a oculta\u00e7\u00e3o mais eficaz dos corpos, que \u00e9 o significado de desaparecimento. Negar, esconder e apagar o destino das pessoas que foram v\u00edtimas da repress\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que come\u00e7a essa pol\u00edtica, e ela come\u00e7a a ser direcionada contra o MIR&#8221;, afirma ao <strong>Brasil de Fato<\/strong> a ativista chilena Gloria Elgueta, ex-militante do MIR.<\/p>\n<p>Elgueta atua hoje no Coletivo Londres 38, que transformou o antigo centro de tortura em um espa\u00e7o de mem\u00f3rias sobre o per\u00edodo autorit\u00e1rio no Chile. O espa\u00e7o foi formalmente entregue para a gest\u00e3o do grupo apenas em 2014, 40 anos ap\u00f3s as primeiras den\u00fancias dos sobreviventes e familiares dos prisioneiros sobre sua utiliza\u00e7\u00e3o como centro de torturas e exterm\u00ednio de opositores pelo regime. O pr\u00e9dio funcionou por dez meses como uma das centenas de locais secretos de tortura, execu\u00e7\u00e3o e desaparecimento praticados pelo governo Pinochet.<\/p>\n<p>&#8220;Foi usado por pouco tempo, mas de forma muito intensa. E nessa \u00e9poca (1974) come\u00e7ou a ser identificado como um local de pris\u00e3o de pessoas e, ainda durante a ditadura, foi denunciado judicialmente&#8221;, aponta.<\/p>\n<p>No casar\u00e3o da rua Londres 38, foram detidos e torturados seus dois irm\u00e3os, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/11\/50-anos-do-golpe-chile-e-uma-panela-de-pressao-e-vai-estourar-em-algum-momento-diz-ex-militante-da-luta-clandestina-contra-a-ditadura\">tamb\u00e9m militantes do MIR<\/a>. Um deles, o estudante de engenharia Mart\u00edn Elgueta Pinto, preso aos 21 anos, se tornou umas das 1.468 pessoas consideradas desaparecidos pol\u00edticos durante a ditadura chilena.\u00a0At\u00e9 o momento, foram reveladas informa\u00e7\u00f5es (nem todas completas) sobre o paradeiro de apenas 307 delas.\u00a0<\/p>\n<p>No local, um n\u00famero ainda indeterminado de pessoas foi detido e torturado. At\u00e9 onde foi poss\u00edvel apurar, 98 pessoas desapareceram ou foram executadas pela Dina naquele endere\u00e7o.\u00a0<\/p>\n<p>Apesar da promessa do governo de Gabriel Boric, de um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/08\/31\/governo-chileno-vai-assumir-busca-por-1-162-vitimas-desaparecidas-da-ditadura\">plano de busca<\/a>\u00a0dos desaparecidos, a ativista chilena aponta que essa pol\u00edtica ainda esbarra em obst\u00e1culos para ser efetivamente implementada no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;No momento de implement\u00e1-la, os mesmos obst\u00e1culos come\u00e7am a aparecer.\u00a0 \u00c9 muito dif\u00edcil implementar uma pol\u00edtica quando n\u00e3o houve um diagn\u00f3stico suficiente dos obst\u00e1culos existentes, que t\u00eam a ver com cumplicidades, formas de oculta\u00e7\u00e3o dentro do Estado e a cumplicidade do judici\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Londres 38 e as pol\u00edticas de mem\u00f3ria no Chile<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/cadaadcb7a3e5ddfcb0f55db313825fa.jpeg\"><br \/>\nEm frente ao Espa\u00e7o de Mem\u00f3ria Londres 38, Gloria Elgueta conversa com um amigo que tamb\u00e9m teve de se exilar durante a ditadura \/ Gabriela Moncau<\/p>\n<p>Constru\u00eddo em 1925, o casar\u00e3o na rua Londres foi adquirido em 1970 pelo Partido Socialista,\u00a0para ser usado como sede da filial da Oitava Comuna dessa organiza\u00e7\u00e3o. Tomado\u00a0 pela ditadura chilena ap\u00f3s o golpe de 1973, o espa\u00e7o foi desocupado pelos militares em 1975. Em 1978, por meio de um decreto assinado por Pinochet, a propriedade foi transferida para o Instituto\u00a0O&#8217;Higginiano, vinculado ao Ex\u00e9rcito, financiado pelo Estado e dirigido at\u00e9 2006 pelo general da reserva\u00a0Washington Carrasco, que foi vice-comandante em chefe do Ex\u00e9rcito e ministro da Defesa do ditador chileno.<\/p>\n<p>Em agosto de 2007, a propriedade foi recuperada pelo Estado no governo de Michelle Bachelet. Em dezembro do mesmo ano, o Instituto O&#8217;Higginiano deixou o local e, pela primeira vez, houve uma visita\u00e7\u00e3o massiva por parte de ex-presos pol\u00edticos e parentes das v\u00edtimas da ditadura ao local.\u00a0<\/p>\n<p>A proposta de transforma\u00e7\u00e3o do casar\u00e3o em um centro de mem\u00f3rias come\u00e7ou a ganhar forma no ano de 2009, em di\u00e1logo com o governo Bachelet ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o de um grupo de trabalho com cerca de 20 pessoas.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Durante nove meses, elaboramos um projeto preliminar para aquela casa e depois discutimos e propusemos o que ach\u00e1vamos que deveria ser, n\u00e3o como um espa\u00e7o para os parentes das v\u00edtimas, mas que pudesse dialogar com a sociedade. Para fazer uma liga\u00e7\u00e3o entre essa parte da nossa hist\u00f3ria e os problemas do presente, que est\u00e3o t\u00e3o intimamente relacionados \u00e0 hist\u00f3ria da ditadura. Falamos muito sobre os legados e as consequ\u00eancias da ditadura no presente, que em muitos casos permanecem intactos, come\u00e7ando pelo modelo econ\u00f4mico, pelo tipo de rela\u00e7\u00f5es trabalhistas que existem no Chile, pelas caracter\u00edsticas, por exemplo, da pol\u00edcia.&#8221;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de preservar a mem\u00f3ria daqueles que passaram por aquele espa\u00e7o durante o per\u00edodo de repress\u00e3o, o Londres 38 busca se conectar com os momentos de mobiliza\u00e7\u00e3o social mais intensa que o Chile vive nos dias atuais. &#8220;Nos relacionamos muito com esses setores. Estou falando, por exemplo, das grandes mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis ou das mobiliza\u00e7\u00f5es contra o sistema de pens\u00f5es que existe no Chile, que levaram a mobiliza\u00e7\u00f5es muito grandes em 2016 e 2017.&#8221;<\/p>\n<p>Durante as intensas mobiliza\u00e7\u00f5es de rua vivenciadas pelo Chile naquele per\u00edodo, o casar\u00e3o funcionou como um espa\u00e7o de apoio para os manifestantes, e acolhida para aqueles que retornaram feridos dos protestos, com o intenso uso de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e balas de borracha por parte da pol\u00edcia chiliena.<\/p>\n<p>&#8220;Essas foram algumas das maneiras pelas quais procuramos relacionar as duas hist\u00f3rias: a que est\u00e1 sendo constru\u00edda no presente e a da qual Londres 38 faz parte, mas que, para n\u00f3s, \u00e9 atual, \u00e9 um passado presente.&#8221;<\/p>\n<p>Neste 11 de setembro, em que completam 51 anos do golpe contra o governo de Salvador Allende, Elgueta reafirma a luta do Coletivo Londres 38 de que a mem\u00f3ria da ditadura chilena deve ser trabalhada pelo conjunto da sociedade chilena e n\u00e3o apenas dos ex-presos pol\u00edticos e dos familiares das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>&#8220;Quando o dano \u00e9 t\u00e3o personalizado, \u00e9 uma forma de privatiz\u00e1-lo e tamb\u00e9m de reduzi-lo. Nossos parentes, \u00e9 claro que sentimos falta deles. Eu sinto falta do meu irm\u00e3o, obviamente, mas eles tamb\u00e9m fazem falta ao Chile, fazem falta a este pa\u00eds. E \u00e9 isso que temos tentado instalar permanentemente e conscientizar sobre esse aspecto, como um problema coletivo, n\u00e3o como um problema individual de algumas fam\u00edlias.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Centro de torturas no Chile marca a luta de presos pol\u00edticos e familiares das v\u00edtimas por Verdade, Mem\u00f3ria e Justi\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1078,978,2046,777,1561,409,18,1748,1756,1762,1493,1719,1806,374,1716,303,301,1042,1504,415,1677],"class_list":["post-252372","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-51-anos","tag-abril","tag-agosto","tag-brasil","tag-decreto","tag-direcao","tag-exercito","tag-familias","tag-gas","tag-golpe","tag-governo","tag-grupo-de-trabalho","tag-justica","tag-militares","tag-ministro","tag-policia","tag-prisao","tag-projeto","tag-proposta","tag-trabalho","tag-uso"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/252372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=252372"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/252372\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=252372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=252372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=252372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}