{"id":277408,"date":"2024-09-30T19:30:37","date_gmt":"2024-09-30T19:30:37","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=277408"},"modified":"2024-09-30T19:30:37","modified_gmt":"2024-09-30T19:30:37","slug":"60-anos-depois-mafalda-segue-perguntando-porque-permanecemos-silentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=277408","title":{"rendered":"60 anos depois, Mafalda segue perguntando porque permanecemos silentes"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p><span>A mais famosa personagem dos quadrinhos argentinos est\u00e1 completando 60 anos. E segue conosco, questionando porque ainda fazemos t\u00e3o pouco.<\/span><\/p>\n<p><span><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/09\/29\/primeira-publicacao-de-mafalda-completa-53-anos\">Mafalda<\/a>, a menina invocada, perguntadeira e insistente, caracterizada pelo cabelo revolto, vestido encarnado e la\u00e7o borboleta chega a seis d\u00e9cadas de sua primeira publica\u00e7\u00e3o. Apesar de seu papai, Joaquim Salvado, o Quino, a ter produzido por apenas uma d\u00e9cada (entre 1964 e 1973), a guria seguiu ativa perambulando em meio as nuances da hist\u00f3ria e, principalmente, \u00e0s peleias dos povos.<\/span><\/p>\n<p><span>Desaforada, bailou em meio a diferentes ciclos de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/31\/milei-faz-com-que-violencia-politica-volte-a-ser-possivel-na-argentina-diz-sociologa\">autoritarismo<\/a> \u2013 alguns bastante violentos, outros mais violentos ainda, porque todo autoritarismo o \u00e9 \u2013 alegorizando sopas e cassetetes para ensinar a import\u00e2ncia de se fazer perguntas (mesmo quando \u00e9 perigo perguntar).<\/span><\/p>\n<p>Schulz<span> e seu Charlie Brown j\u00e1 haviam quebrado a ideia de que as tiras ditas c\u00f4micas tinham uma certa &#8220;obriga\u00e7\u00e3o&#8221; de fazer rir. A introspec\u00e7\u00e3o j\u00e1 era uma nuance que interessava aos leitores de quadrinhos seriados na \u00e9poca. Se &#8220;fazer pensar&#8221; n\u00e3o era algo novo, talvez o &#8220;incomodar&#8221;, o &#8220;cutucar&#8221;, o &#8220;mover da zona de conforto&#8221;, o &#8220;colocar o dedo na ferida&#8221; que Quino traz com Mafalda sejam as novidades a se apontar ali.<\/span><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.brasildefato.com.br\/media\/259c3be62f8c75c4ddbf389ae0516c02.jpg\"><br \/>\nExposi\u00e7\u00e3o da Mafalda no Rio de Janeiro, em 2015 \/ T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p><span>Ali\u00e1s, os quadrinhos argentinos t\u00eam muitas refer\u00eancias a esse cronismo cotidiano, mas deixemos esse tema para outro escrito, noutro momento. Porque logo precisaremos escrever aqui tamb\u00e9m sobre Oesterheald e o seu Eternauta.<\/span><\/p>\n<p><span>Voltemos a Mafalda. A menina foi parida para ser a garota propaganda de uma m\u00e1quina de lavar roupas da marca Mansfield, cuja campanha foi cancelada pelos executivos. Se n\u00e3o serviu para ser s\u00edmbolo de consumo, caiu com perfei\u00e7\u00e3o como s\u00edmbolo de questionamento aos padr\u00f5es burgueses capitalistas, ao <em>status quo<\/em> dominante de seu tempo (e dos tempos que viram depois do seu).<\/span><\/p>\n<p><span>Erguia-se desde a <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/28\/a-pobreza-aumenta-e-cada-vez-mais-argentinos-sao-deixados-nas-ruas\">Argentina<\/a>, a &#8220;voz&#8221; de uma menina de 6 anos de idade que se tornaria uma improv\u00e1vel anti-hero\u00edna mundo afora com suas falas ingenuamente \u00e1cidas e agudamente inconformistas. Sob o disfarce da interpreta\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia, tocou em temas sociais espinhosos, deu pitacos certeiros na geopol\u00edtica, pontuou preocupa\u00e7\u00f5es sociais urgentes e questionou os adultos que estavam ao lado de fora da tira porque permaneciam silentes. Ali\u00e1s, observe, como continua nos fazendo a mesma pergunta.<\/span><\/p>\n<p><span>Quino parou de publicar Mafalda depois de uma d\u00e9cada de tiras di\u00e1rias. Dizia que havia um risco s\u00e9rio de repetir-se. Hoje podemos compreender. Os ciclos hist\u00f3ricos, de certo modo, comprovaram-se incomodamente circulares, inclusive em seus erros, viola\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias. Mafalda, por\u00e9m, n\u00e3o parou. Apropriada pelo povo, seguiu nas ruas, ressignificada de diversos modos. Tornou-se \u00edcone feminista, ganhou cores de diferentes pautas progressistas, emprestou seu inconformismo \u00e0s mais diversas causas contra-hegem\u00f4nicas mundo afora.<\/span><\/p>\n<p><span>Nessas apropria\u00e7\u00f5es &#8220;n\u00e3o-autorizadas&#8221; pelos detentores dos direitos de publica\u00e7\u00e3o da personagem (mas seguramente bem autorizados pelo ser que habita o imagin\u00e1rio coletivo dos povos), n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar Mafalda personificando a <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/18\/sem-terrinha-comida-saudavel-e-producao-de-alimentos-tambem-e-assunto-de-crianca\">crian\u00e7a sem-terrinha no Brasil<\/a> enfrentando os latifundi\u00e1rios em busca de um peda\u00e7o de ch\u00e3o para plantar suas ro\u00e7as e suas esperan\u00e7as; ou l\u00e1 para os lados do Oriente M\u00e9dio, trajando keffiyeh, como crian\u00e7a palestina de funda na m\u00e3o contra-atacando o tanque de guerra do ex\u00e9rcito agressor em defesa de sua p\u00e1tria; ou nos dias de hoje, na sua Argentina, de m\u00e3os dadas com las Madres de la Plaza de Mayo exigindo respostas e justi\u00e7a por seus filhos assassinados.<\/span><\/p>\n<p><span>A hist\u00f3ria, antes de ser escrita, contada ou interpretada, acontece. \u00c9 din\u00e2mica. \u00c9 tempo presente. Se somos leitores do ontem, somos personagens do agora. Certa vez Quino foi questionado como seria o futuro de Mafalda se a menina tivesse crescido, se teria alcan\u00e7ado o sonho de ser int\u00e9rprete da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es (ONU) para assim ajudar a mediar os <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/09\/26\/pacto-do-futuro-mostra-irrelevancia-da-onu-para-responder-desafios-do-multilateralismo-diz-historiador\">conflitos no mundo<\/a> e alcan\u00e7ar a paz na Terra. Respondeu que se Mafalda tivesse crescido, provavelmente estaria entre as listas de nomes assassinados e desaparecidos pelas ditaduras argentinas. A resposta, dura em sua ess\u00eancia, alinha a import\u00e2ncia de a pequena e inc\u00f4moda menina seguir presente a atuante junto conosco, seguir rebelde para al\u00e9m dos contratos de sua editora, para al\u00e9m da temporalidade de seu papai (que nos deixou em 2020), para al\u00e9m de nossas pr\u00f3prias conveni\u00eancias e lugares de conforto.<\/span><\/p>\n<p><span>Repito o que escrevi h\u00e1 dez anos: Mafalda segue conosco, cada dia emitindo novos olhares sobre esse tempo cinzento no qual convivemos, aprendendo com o passado para ter o direito de sonhar com um futuro melhor. <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/10\/04\/artigo-or-a-intervencao-militar-e-os-democraticos-tateantes\">Paul Ricoeur<\/a> ensinou de forma pertinente: nem sempre a linha que divide hist\u00f3ria e fic\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente. Trata-se, em muitos momentos, de um alinhavo composto por duas linhas, compondo pontos que se sobrep\u00f5em, onde um campo permeia o outro.<\/span><\/p>\n<p><span>Qui\u00e7\u00e1 te demos, Mafalda, a resposta que espera de n\u00f3s. Com palavras e com movimento!<\/span><\/p>\n<p><em><span>* Marcos Antonio Corbari \u00e9 jornalista e comunicador popular, vinculado ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e \u00e0 Via Campesina. Mestre em Literatura, em sua disserta\u00e7\u00e3o teve Mafalda como um dos personagens analisados.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em>** Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o representa necessariamente a linha editorial do\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n<hr>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><span>Duas sugest\u00f5es para celebrar os 60 de Mafalda lendo:<\/span><\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<span>Uma leitura indispens\u00e1vel para quem n\u00e3o conhece Mafalda \u00e9 <em><strong>Toda Mafalda<\/strong><\/em>, publicada no Brasil pela editora Martins Fontes. Bem f\u00e1cil de encontrar atrav\u00e9s de qualquer buscador na Internet e em livrarias f\u00edsicas. Para quem j\u00e1 \u00e9 leitor de Mafalda e quer se aprofundar, sugiro as edi\u00e7\u00f5es publicadas na argentina e em Portugal, que trazem bastante material extra, com textos, entrevistas, artigos e ilustra\u00e7\u00f5es que permitem uma maior inser\u00e7\u00e3o no universo da personagem e do autor. O valor \u00e9 salgado, mas vale cada centavo investido, independente da vers\u00e3o que voc\u00ea escolher!<\/span><\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<span>Entre as publica\u00e7\u00f5es que chegaram alusivas aos 60 anos da personagem destaco <em><strong>Universo Mafalda<\/strong><\/em>, publicado pela Editorial Lumen, por enquanto dispon\u00edvel apenas em espanhol. No Brasil voc\u00ea consegue atrav\u00e9s do site da <a href=\"https:\/\/www.surlivro.com.br\/\">Sur Livro<\/a>. O livro traz depoimentos, fotografias, an\u00e1lises de temas e informa\u00e7\u00f5es importantes sobre o contexto hist\u00f3rico e social do per\u00edodo de publica\u00e7\u00e3o de Mafalda. Na Sur Livro tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel o livro infantil <em>Quino para Chicos y Chicas<\/em>, em que Mafalda apresenta seu autor para os pequenos leitores na mesma linguagem da cole\u00e7\u00e3o anti-her\u00f3is e anti-princesas.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atual e necess\u00e1ria, a menina segue ressignificada em novas lutas e continua ativa seis d\u00e9cadas depois da primeira tira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[21,510,777,476,579,18,659,968,1806,875,2011,1614,134,926,15,748,268,284],"class_list":["post-277408","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-argentina","tag-artigos","tag-brasil","tag-conflitos","tag-consumo","tag-exercito","tag-filhos","tag-internet","tag-justica","tag-mover","tag-mpa","tag-nomes","tag-onu","tag-oriente-medio","tag-palestina","tag-rio","tag-rio-de-janeiro","tag-vale"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/277408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=277408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/277408\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=277408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=277408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=277408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}