{"id":280996,"date":"2024-10-03T10:20:29","date_gmt":"2024-10-03T10:20:29","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=280996"},"modified":"2024-10-03T10:20:29","modified_gmt":"2024-10-03T10:20:29","slug":"obras-de-ana-primavesi-previram-desastres-e-dao-norte-para-recuperacao-de-ecossistemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=280996","title":{"rendered":"Obras de Ana Primavesi previram desastres e d\u00e3o norte para recupera\u00e7\u00e3o de ecossistemas"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>O solo, sempre o solo, foi o protagonista na exist\u00eancia de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/10\/03\/centenario-de-ana-primavesi-uma-vida-de-amor-a-terra\">Ana Primavesi<\/a>. Hoje, uma nova gera\u00e7\u00e3o \u00e9 fascinada pelo estudo dos solos gra\u00e7as a ela e tamb\u00e9m a outras pessoas que perceberam que &#8220;o solo \u00e9 a base de toda a vida&#8221;. \u00a0<\/p>\n<p>Ana sentia tamanha paix\u00e3o por estudar o solo que seu primeiro manuscrito em terras brasileiras, <em>O Solo e sua Vida<\/em>, embri\u00e3o de seu mais importante livro (<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/01\/21\/primavesi-rompeu-monopolio-de-conhecimento-do-agronegocio\"><em>Manejo Ecol\u00f3gico do Solo<\/em><\/a>) foi o presente pelo 32\u00ba anivers\u00e1rio de seu marido, Artur. Ambos chegaram ao Brasil com o filho Odo, de 8 meses, nos bra\u00e7os e com a expectativa (e perspectiva) de recome\u00e7o ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra. Sem dinheiro para presentear o marido, ela sentou-se \u00e0 m\u00e1quina de escrever e datilografou o trabalho, tendo ainda o capricho de ilustr\u00e1-lo com pinturas em aquarela. Um trabalho** escrito com amor, expressando seu amor \u00e0 sua profiss\u00e3o, ao amor de sua vida.<\/p>\n<p>Esta mo\u00e7a, que <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/01\/25\/o-papel-de-ana-primavesi-e-a-vitoria-da-agroecologia-nos-40-anos-do-mst\">estudou a vida do solo a vida inteira<\/a>, morreu com quase 100 anos. Mo\u00e7a ainda, estudou e perseverou, desbravou um universo que at\u00e9 hoje \u00e9 um mist\u00e9rio: afinal, o que h\u00e1, o que acontece sob nossos p\u00e9s? Ela sabia. Dizia n\u00e3o saber tudo, mas era quase tudo. \u00a0<\/p>\n<p>Annemarie Baronesa Conrad era seu nome de solteira. Filha de bar\u00e3o, baronesa por registro, tradi\u00e7\u00e3o e direito, nunca mencionou tal adorno, justamente por ser o que essa palavra mesmo significava. Uma baronesa que viveu a vida como camponesa, em gestos, atitudes, palavras. Seus livros eram escritos exatamente assim, palavras simples, num jeitinho descomplicado, terno e amoroso de falar sobre o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/01\/04\/artigo-o-encantamento-de-primavesi\">objeto de sua paix\u00e3o<\/a>. A ci\u00eancia, toda pomposa, reagiu. Aquilo n\u00e3o era cient\u00edfico. Por qu\u00ea? Era sim. V\u00e1 para o campo e aplique o que est\u00e1 escrito, que tudo vai dar certo. Se a ci\u00eancia n\u00e3o favorece a natureza, para que, afinal, ela serve?\u00a0<\/p>\n<p>Mais velha, passou a ser mais <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/03\/amor-a-terra-e-tecnica-fizeram-ana-primavesi-abrir-caminho-para-agroecologia-define-biografia\">reconhecida por seu trabalho<\/a>. Era uma sumidade em biologia, qu\u00edmica, bioqu\u00edmica. Da sala de aula ao laborat\u00f3rio, da casa ao campo, unia saberes cient\u00edficos aos ancestrais, estes aprendidos ao longo da vida, aqui no Brasil. Um exemplo foi quando, em 1952, houve um surto de febre amarela em Passos (MG), onde o casal Primavesi morava. Artur foi infectado, e, levado para o hospital, mostraram uma lista de rem\u00e9dios que deveriam ser ministrados. &#8220;E isso cura&#8221;, Ana quis saber. &#8220;N\u00e3o, febre amarela n\u00e3o tem cura.&#8221; &#8220;E para que os rem\u00e9dios?&#8221; Por fim, ante a cara do homem, que n\u00e3o tinha nem a solu\u00e7\u00e3o nem a resposta para suas perguntas, ela resolveu: &#8220;Vou pedir que meu marido fique em casa mesmo. Pelo menos ele poder\u00e1 morrer em meio \u00e0 sua fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p>Ana saiu \u00e0 procura de ervas que pudessem curar febre amarela. Foi para o mato, procurou os ind\u00edgenas mas quando dizia &#8220;febre amarela&#8221;, todos abanavam a cabe\u00e7a: &#8220;Para isso n\u00e3o tem rem\u00e9dio, n\u00e3o tem cura.&#8221; Ela percebeu que a pergunta tinha que ser diferente: &#8220;O que voc\u00eas fazem para problemas de f\u00edgado e b\u00edlis?&#8221; Ningu\u00e9m tinha dito que o f\u00edgado era atacado, mas era evidente que por causa disso o doente ficava com aquela cor amarelada. E as receitas apareceram: xarope de agri\u00e3o; ch\u00e1 de raiz de jurubeba e pariparoba;\u00a0 quebra-pedra, raiz de mentrasto e erva- tost\u00e3o; raiz de pic\u00e3o-preto e frutinhas de jurubeba; ch\u00e1 de cabelos de milho; ch\u00e1 de folhas de alcachofra; suco de lim\u00e3o e de laranja doce; sementes de veludinho colocados em vinho do Porto; levedura de cerveja. \u00a0<\/p>\n<p>Ana n\u00e3o distinguia a maioria das ervas, mas contava com a ajuda de Perciliana, que trabalhava em sua casa desde o nascimento de sua filha Carin, que tinha dois anos \u00e0 \u00e9poca. Perciliana n\u00e3o era uma pessoa comum: ela tinha o dom de ver al\u00e9m das paredes, a longas &#8220;dist\u00e2ncias&#8221;, e foi ela que coletou as plantas. Ana fez de tudo e deu de tudo, e o milagre aconteceu. Artur sarou! O \u00fanico, entre todos os que tinham sido infectados. Foi uma sensa\u00e7\u00e3o, e o feito se espalhou. Vieram pessoas da Universidade de S\u00e3o Paulo e de Belo Horizonte para saber como tinha conseguido, mas ela n\u00e3o sabia responder. Podia ter sido uma das receitas, ou a combina\u00e7\u00e3o de todas elas, ou de algumas delas, ou a ordem em que foram dadas. Artur estava curado. \u00a0<\/p>\n<p>Mulher de poucas palavras, mas significativas quando pronunciadas, lia muito. Sua intelig\u00eancia extrapolava a ci\u00eancia, porque sabia tirar da vida o que lhe era poss\u00edvel, n\u00e3o se atendo \u00e0s perdas, olhando para frente, sem amarguras. \u00a0<\/p>\n<p>Ana sabia das dificuldades que a agricultura enfrentava. Sabia que desmantelar um sistema que opera pela l\u00f3gica do lucro, n\u00e3o da natureza, era dif\u00edcil, n\u00e3o porque n\u00e3o se pudesse fazer isso ecologicamente, mas porque a gan\u00e2ncia do homem sobressairia. Ela sabia (e n\u00f3s n\u00e3o percebemos isso ainda) que se o solo perdesse sua vida, n\u00e3o poder\u00edamos comer dinheiro. E \u00e9 incr\u00edvel como todas as quest\u00f5es ambientais pelas quais passamos est\u00e3o descritas em sua obra, sejam secas, enchentes, alagamentos, tempestades de terra, dentre outras.\u00a0<\/p>\n<p>Num dos contos de seu livro <em>A Conven\u00e7\u00e3o dos Ventos \u2013 Agroecologia em Contos<\/em>*** ela descreve a saga de tr\u00eas gotinhas de chuva: quando caem em solo vivo, coberto pela mata, as gotinhas escorregam at\u00e9 as portinhas do solo, seus poros. Uma gotinha vai direto para a raiz porque entra num t\u00fanel mais estreito, e a raiz a manda para a folha carregando o c\u00e1lcio. A raiz a adverte: &#8220;cuidado com a turbul\u00eancia!&#8221;. As outras duas seguem para o len\u00e7ol fre\u00e1tico, e evaporam. \u00c9 o ciclo da \u00e1gua. Mas depois de um tempo, quando retornam, n\u00e3o h\u00e1 mais &#8220;escorregadores&#8221; verdes, n\u00e3o h\u00e1 mais portinhas para penetrar. O solo est\u00e1 nu, compactado, a monocultura impera. A terra aquecida n\u00e3o deixa a nuvem descer. E quando elas finalmente caem, escorrem e causam eros\u00e3o, enchentes. O ciclo se rompeu. Palavras prof\u00e9ticas de uma pessoa que enxergava al\u00e9m de nosso tempo.\u00a0<\/p>\n<p>Nosso pa\u00eds arde e ela n\u00e3o est\u00e1 mais aqui para nos acudir com sua fala clara, precisa. Mas ela escreveu, escreveu muito, e sobre seus livros devemos nos debru\u00e7ar, arrega\u00e7ar as mangas e reflorestar o que se foi. Ana dizia: &#8220;A terra n\u00e3o \u00e9 f\u00e1brica de alimentos e n\u00e3o produz ilimitadamente. Amemos nossa terra e procuremos saber o que ela \u00e9 capaz de produzir quando a tratamos carinhosamente. Tudo corre melhor quando feito com amor.&#8221; Imbu\u00eddos por esse amor \u00e0 terra, ao solo, que esta data seja sempre o chamamento para a a\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica consciente, um tipo de aterramento, uma reconex\u00e3o, que passa por a\u00e7\u00f5es simples, sinceras, humildes.<\/p>\n<p>Em seu anivers\u00e1rio, costumava ganhar presentes, mas o que mais gostava de ganhar mesmo eram as cestas de frutas. Presentes ef\u00eameros, simples e deliciosos, que ela desfrutava \u2013 com a licen\u00e7a po\u00e9tica da palavra. Hoje, 104 anos ap\u00f3s seu nascimento neste planeta, se ela estivesse presente, estaria entristecida com as queimadas, com os rios secos, com os animais chamuscados, mas acredito que teria uma palavra amiga e construtiva, de muita for\u00e7a, que nos levantaria e nos faria reagir. \u00a0<\/p>\n<p>Assim ela escreveu: &#8220;Peguemos nossa p\u00e1, perguntemos \u00e0 nossa terra o que lhe est\u00e1 faltando e tratemo-la depois convenientemente dentro dos limites que a natureza nos imp\u00f5e, e a antiga exuber\u00e2ncia voltar\u00e1 aos nossos campos e a prosperidade aos nossos lares.&#8221;<\/p>\n<p>Vamos reflorestar nosso Brasil, vamos praticar agroecologia. Esse \u00e9 o \u00fanico caminho para que possamos continuar a habitar essa terra. Esta Terra.\u00a0<\/p>\n<p><em>*Virg\u00ednia Mendon\u00e7a Knabben \u00e9 ge\u00f3grafa e autora do livro Ana Maria Primavesi: Hist\u00f3rias de Vida e Agroecologia, da editora Express\u00e3o Popular. \u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>**Esse manuscrito foi incorporado ao final do livro \u201cCartilha da terra\u201d, primeiro livro p\u00f3stumo de Ana Primavesi, publicado pela editora Express\u00e3o Popular em 2020. \u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>***Esse conto foi rec\u00e9m-publicado pela editora Express\u00e3o Popular como livro infanto-juvenil ilustrado em 2024. \u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>****Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o representa necessariamente a linha editorial do <strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que esta data, dia da Agroecologia, seja sempre o chamamento para a a\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica consciente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1255,1111,389,1582,1861,334,777,1469,305,369,1895,1385,739,1205,1099,2159,292,743,1945,2131,384,1436,1196,290,702,136,415],"class_list":["post-280996","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acoes","tag-agricultura","tag-alimentos","tag-ana","tag-atacado","tag-belo-horizonte","tag-brasil","tag-cerveja","tag-chuva","tag-ciencia","tag-desastres","tag-dinheiro","tag-editora-expressao-popular","tag-enchentes","tag-estudo","tag-familia","tag-laboratorio","tag-limites","tag-lucro","tag-milho","tag-mulher","tag-perdas","tag-presentes","tag-queimadas","tag-receitas","tag-sao-paulo","tag-trabalho"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/280996","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=280996"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/280996\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=280996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=280996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=280996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}