{"id":283968,"date":"2024-10-05T20:16:53","date_gmt":"2024-10-05T20:16:53","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=283968"},"modified":"2024-10-05T20:16:53","modified_gmt":"2024-10-05T20:16:53","slug":"a-substancia-e-o-terror-da-imagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=283968","title":{"rendered":"&#8216;A Subst\u00e2ncia&#8217; e o terror da imagem"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p><em>[Cont\u00e9m spoilers]<\/em><\/p>\n<p>Elisabeth Sparkle, a estrela midi\u00e1tica interpretada por Demi Moore, finalmente resolve aceitar o convite de sair com um admirador para jantar. Ela est\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/08\/30\/levantamento-mostra-que-45-das-mulheres-brasileiras-apresentam-algum-tipo-de-transtorno-mental-no-pos-pandemia\">diante do espelho<\/a>, maquiando-se, num banheiro de azulejos muitos brancos. O olho da c\u00e2mera guia nosso olhar para uma imagem est\u00e1tica. Vemos seu rosto, mas n\u00e3o o rosto real. Chega at\u00e9 n\u00f3s o reflexo emoldurado e capturado pelo espelho do arm\u00e1rio do banheiro. O espelho capturado pela proje\u00e7\u00e3o diante de n\u00f3s. Uma dupla imagem. A foto de uma foto.\u00a0<\/p>\n<p>Os frames se encadeiam de modo lento, demorado. A ilumina\u00e7\u00e3o da cena remete \u00e0 clareza est\u00e9ril de um ambiente hospitalar. Sentimos, concretamente, o tempo passar nessa lentid\u00e3o proposital. Quando o rel\u00f3gio aparece, \u00e9 para mostrar, como numa <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/03\/04\/o-tempo-e-suas-marcas-reflexoes-sobre-o-envelhecimento\">contagem regressiva<\/a>, que o tempo est\u00e1 acabando.<\/p>\n<p>E junto do olhar dessa atriz que interpreta uma atriz, temos a impress\u00e3o de que a imagem do seu rosto vem de um \u00e2ngulo mais cru. A c\u00e2mera n\u00e3o quer embelezar seus tra\u00e7os, talvez at\u00e9 distorc\u00ea-los. Junto com Elisabeth, na cena que talvez seja sua \u00fanica chance de escapar do pacto f\u00e1ustico no qual se meteu, nossos olhos come\u00e7am a duvidar daquilo que vemos no espelho. Alguma coisa n\u00e3o est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Por duas vezes, ela sai at\u00e9 a porta. Coloca a chave na fechadura. Mas n\u00e3o se sente confiante e retorna at\u00e9 o espelho. Enfrenta mais uma vez a imagem que parece n\u00e3o obedecer seus olhos. Aumenta a carga de maquiagem, coloca um len\u00e7o estampado ao redor do pesco\u00e7o e um par de luvas longas para cobrir os efeitos colaterais da subst\u00e2ncia em seu corpo. Nada parece ajudar. Solta um suspiro, apaga a luz. Ouvimos os passos angustiados de sua caminha com o casaco amarelo pelo corredor escuro.<\/p>\n<p>No meio da sala do luxuoso apartamento com l\u00e2minas de vidro transparente que v\u00e3o do ch\u00e3o ao teto, de onde a cidade \u00e9 uma paisagem aos seus p\u00e9s, h\u00e1 mais duas imagens. Imagens que est\u00e3o em confronto entre si e oprimindo a outrora grande estrela da televis\u00e3o. Um quadro da pr\u00f3pria Elisabeth Sparkle, que lembra <em>O Retrato de Dorian Gray<\/em> (1890), de Oscar Wilde (1854-1990) e um imenso outdoor de Sue, &#8220;a melhor vers\u00e3o de si mesmo&#8221;, que nasceu das pr\u00f3prias entranhas da atriz de 50 anos, demitida da TV, a despeito de sua gloriosa carreira de sucesso. \u00a0<\/p>\n<p>O romance filos\u00f3fico-moralista de Wilde, que tamb\u00e9m tematiza as quest\u00f5es da beleza e juventude, coloca o desejo obsessivo de cristalizar esse estado como uma degenera\u00e7\u00e3o demon\u00edaco. Aqui tamb\u00e9m a atriz faz um contrato com uma estranha entidade biotecnol\u00f3gica que promete n\u00e3o apenas manter a juventude, mas traz\u00ea-la de volta, atrav\u00e9s de um <em>dopperlanger<\/em> melhorado. Um duplo sombrio, como a empresa insiste em dizer, n\u00e3o \u00e9 outro ser, mas um mesmo ser que vive agora numa din\u00e2mica de interdepend\u00eancia.<\/p>\n<p>Elisabeth enfia a chave na fechadura. Mas n\u00e3o tem coragem de sair. A c\u00e2mera avan\u00e7a sobre os ombros da atriz e faz um <em>zoom in<\/em>, atra\u00eddo pela monumental imagem publicit\u00e1ria de Sue no outdoor l\u00e1 fora: um sorriso ir\u00f4nico, o mai\u00f4 rosa-met\u00e1lico e os olhos claros e a pele branca e lisa como uma folha de papel. O rosto de Elisabeth Sparkle aparece deformado e curvo e angustiado na superf\u00edcie do olho m\u00e1gico da porta. \u00c9 derrotada ao mesmo tempo pela pr\u00f3pria imagem e pela imagem inalcan\u00e7\u00e1vel que a ind\u00fastria vendeu para ela como solu\u00e7\u00e3o. Uma imagem artificial, que longe de lhe trazer a felicidade, rouba tudo que ela tem.<\/p>\n<p>Enquanto o jovem Dorian Gray, fazendo uso do poder de sua beleza, se deliciava em orgias e banquetes, vivendo a fantasia de fazer de cada momento a frui\u00e7\u00e3o de um prazer infinito, seu retrato envelhecia e sangrava escondido no s\u00f3t\u00e3o. No caso de <em>A Subst\u00e2ncia<\/em>, o quadro \u00e9 a pr\u00f3pria Elisabeth. Trancada em seu apartamento, \u00e0 beira da loucura e da depress\u00e3o, se empanturrando de comida, submetida \u00e0 cruel e mis\u00f3gina <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/05\/26\/como-a-industria-de-cosmeticos-exclui-mulheres-de-pele-negra-no-brasil\">ind\u00fastria da beleza<\/a>, onde as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas por homens asquerosos e sem escr\u00fapulos. Um dos pontos mais altos do filme \u00e9 a pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o de Demi Moore, encenando com primor a queda de uma atriz que poderia ser ela mesma.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa \u00f3tima passagem, o <em>body horror<\/em> da diretora Coralie Fargeat exp\u00f5e de maneira cr\u00edtica os poderes de objetifica\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o das imagens dos corpos das mulheres. O terceiro e monstruoso ato do filme, numa clara refer\u00eancia \u00e0 <em>Carrie, a Estranha<\/em> (1976), vem nos sugerir que, nessa ind\u00fastria, todos t\u00eam sangue nas m\u00e3os.\u00a0<\/p>\n<p>A jovem Margaret Qualley, nas coreografadas cenas de dan\u00e7a, nos lembra que essa ditadura da imagem irreal se desprendeu do olho onisciente da ind\u00fastria da televis\u00e3o e se fragmentou em bilh\u00f5es de olhos de abelha dos perfis de Tiktok e Instagram. N\u00e3o mais um sol radiante, mas uma constela\u00e7\u00e3o de estrelas, destruindo as fronteiras de emissor e receptor.\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto coaches querem nos vender nossa melhor vers\u00e3o, filmes com <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/08\/24\/filme-alien-romulus-volta-as-origens-da-serie-entrelacando-horror-cosmico-com-o-terror-da-expansao-colonial\"><em>Alien: Romulus<\/em><\/a> e <em>A Subst\u00e2ncia<\/em> nos lembram que essas imagens do hiper trabalhador incans\u00e1vel, no caso do primeiro, e da beleza irreal e opressiva, no caso do segundo, produzem monstros terr\u00edveis, chocantes e insuport\u00e1veis. Corpos que, j\u00e1 na sua concep\u00e7\u00e3o, encarnam o terror da imagem.<\/p>\n<p><em>*Marcos Vin\u00edcius Almeida \u00e9 escritor, jornalista e redator. Mestre em Literatura e Cr\u00edtica Liter\u00e1ria pela PUC-SP, colaborou com a Ilustr\u00edssima da Folha de S. Paulo e \u00e9 autor do romance Pesadelo Tropical (Aboio, 2023). www.marcosviniciusalmeida.com.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>**Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o representa necessariamente a linha editorial do <strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pacto f\u00e1ustico em busca de padr\u00e3o irreal de beleza \u00e9 caminho sem volta para adoecimento e autodestrui\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[777,414,813,1187,265,802,814,1694,551,1677],"class_list":["post-283968","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-brasil","tag-homens","tag-industria","tag-juventude","tag-mulheres","tag-pacto","tag-queda","tag-real","tag-trabalhador","tag-uso"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/283968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=283968"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/283968\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=283968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=283968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=283968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}