{"id":289066,"date":"2024-10-09T12:50:01","date_gmt":"2024-10-09T12:50:01","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=289066"},"modified":"2024-10-09T12:50:01","modified_gmt":"2024-10-09T12:50:01","slug":"memoria-bdf-relembre-entrevista-historica-de-guerrilheiro-que-lutou-ao-lado-de-che-guevara-para-o-brasil-de-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=289066","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria BdF | Relembre entrevista hist\u00f3rica de guerrilheiro que lutou ao lado de Che Guevara para o Brasil de Fato"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p><em>Essa entrevista hist\u00f3rica integra o livro &#8220;\u00c9 Preciso Coragem para Mudar o Brasil&#8221;, publicado pela editora Express\u00e3o Popular em 2006 e que re\u00fane uma s\u00e9rie de conversas com grandes nomes do campo popular, publicadas nos primeiros anos do\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>. Como parte das celebra\u00e7\u00f5es dos 20 anos do jornal, completados no ano passado, vamos publicar mais entrevistas memor\u00e1veis ao longo dos pr\u00f3ximos meses. Este projeto de resgate da mem\u00f3ria do nosso jornalismo \u00e9 uma parceria com a Express\u00e3o Popular.<\/em><\/p>\n<p>Aos 65 anos, Harry &#8220;Pombo&#8221; Villegas Tamayo foi um guerrilheiro que lutou com Che Guevara nas montanhas da Sierra Maestra, no Congo e na Bol\u00edvia. Foram dez anos de conviv\u00eancia com o comandante, at\u00e9 a sua morte, em 1967.<\/p>\n<p>Ele esteve no Brasil para participar da confer\u00eancia internacional <em>Pensamento e Movimentos Sociais na Am\u00e9rica Latina e Caribe: Imperialismo e Resist\u00eancias<\/em>, promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e pela Via Campesina. Em entrevista ao <strong>Brasil de Fato<\/strong>, Pombo explica que o desfecho tr\u00e1gico da guerrilha na Bol\u00edvia, quando Che foi assassinado, teve origem na trai\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Boliviano e na decis\u00e3o de Che de n\u00e3o abandonar uma coluna de guerrilheiros que havia se desgarrado. Ao comentar a situa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, Pombo diz que a Venezuela \u00e9 a esperan\u00e7a do povo do continente e do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 ***<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Brasil de Fato \u2013 De onde vem o codinome Pombo? Sabe-se que, no Congo, Che usou n\u00fameros na l\u00edngua local para renomear os guerrilheiros. Em Swahili \u2013 uma das l\u00ednguas mais faladas na \u00c1frica \u2013, Che passou a se chamar Tatu (que significa tr\u00eas), Jos\u00e9 Maria Tamayo tornou-se Mbili (dois) e Victor Dreke, Moja (um).\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Harry \u2013 Eu n\u00e3o estava entre os primeiros que foram para o Congo, e que receberam codinomes de n\u00fameros. Eu estava no Ex\u00e9rcito Ocidental quando o presidente Fidel Castro me disse que Che havia mandado me chamar na \u00c1frica. S\u00f3 que, com o aumento do n\u00famero de guerrilheiros, era complicado continuar dando nomes referentes a n\u00fameros porque ficavam muito compridos. Che decidiu, ent\u00e3o, procurar nomes em um dicion\u00e1rio. Escolheu para mim o nome Pombo Poljo, que significa n\u00e9ctar verde. Da mesma forma, escolheu Tumaini Tuma para nomear Carlos Coelho.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Antes do Congo, o senhor havia se oferecido para ir com um grupo de guerrilheiros \u00e0 Argentina, mas Che n\u00e3o quis. Como foi a sua rea\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">No momento da sa\u00edda do grupo, eu n\u00e3o entendi. S\u00f3 depois percebi que, por ser negro, seria muito dif\u00edcil me camuflar entre os argentinos. Ent\u00e3o Che disse que eu n\u00e3o iria enquanto a guerrilha n\u00e3o adquirisse uma determinada for\u00e7a e at\u00e9 que ele pr\u00f3prio tamb\u00e9m j\u00e1 tivesse ido. Hermes Pe\u00f1a e Alberto Castellano foram se juntar a Jorge Massetti (jornalista argentino que entrevistou Che e Fidel, em 1958, na Sierra Maestra, e comandou a primeira guerrilha guevarista na Argentina, em 1963).\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Como foi o seu primeiro contato com Che?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Era 1957, eu tinha 16 anos e j\u00e1 participava de uma c\u00e9lula no meu povoado, ao p\u00e9 da Sierra Maestra. Pich\u00e1vamos paredes com propaganda do Movimento Revolucion\u00e1rio 26 de julho, faz\u00edamos a\u00e7\u00f5es contra as redes de eletricidade e a todo instante \u00edamos presos. Como est\u00e1vamos coladinhos \u00e0 Sierra, resolvemos subi-la.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Foi quando entramos em contato com um pelot\u00e3o da coluna de Che. Pediram para que esper\u00e1ssemos porque Che estava percorrendo outros pelot\u00f5es. Quando ele chegou, sua figura me impressionou: era esbelto, mas usava uma boina esfarrapada e desengon\u00e7ada. Ele perguntou o que\u00a0faz\u00edamos ali.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Respondemos que t\u00ednhamos ido lutar contra a tirania batistiana (de Fulg\u00eancio Batista, ditador apoiado pelos Estados Unidos). Ele retrucou: \u201cCom o qu\u00ea?\u201d Mostrei um pequeno fuzil 22 e ele come\u00e7ou a rir e disse: \u201cVoc\u00ea acha que com isso vai derrubar Batista Desce a montanha, se esconde atr\u00e1s de um arbusto, d\u00e1 uma gravata num dos soldados que est\u00e3o aos montes por a\u00ed e lhe tire o fuzil\u201d. Eu pensei que fosse f\u00e1cil. Voltei para o meu povoado, onde havia muitos chivatos (informantes do Ex\u00e9rcito), mas me denunciaram. Consegui escapar do cerco e troquei minha arma por uma escopeta calibre 12.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">N\u00e3o era o que Che havia pedido, os soldados nem usavam escopetas. Mas, ao voltar, Che me disse que o importante n\u00e3o era a arma, mas a minha decis\u00e3o de lutar contra a tirania.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>A certeza de vencer era muito forte na Sierra Maestra\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">A certeza sempre nos acompanhou. Uma coisa que tem Fidel, tinha Che, e \u00e9 pr\u00f3pria de todo revolucion\u00e1rio, \u00e9 a confian\u00e7a na vit\u00f3ria, nas massas. Por isso Fidel disse que com cinco fuzis e sete pessoas a revolu\u00e7\u00e3o estava feita (ao sobreviver com poucos homens ap\u00f3s o desastroso desembarque do Granma, onde sobraram, ao todo, 12 homens dos 82 iniciais).<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Por\u00e9m, quando seria a vit\u00f3ria, ningu\u00e9m sabia. Che pensava que fosse demorar mais.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Existiam outros estrangeiros na Sierra, al\u00e9m de Che?<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Sim. Um mexicano, um franc\u00eas e, entre os v\u00e1rios estadunidenses, at\u00e9 um sargento veterano da Guerra da Coreia (1950-1953), que foi instrutor e chefe da vanguarda no deslocamento da coluna de Che para o centro da ilha.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>O que Che acharia de ver o seu rosto estampado em camisetas, a servi\u00e7o da m\u00e1quina capitalista\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Penso que ele n\u00e3o gostaria. Eu nunca vi o Che usando uma camiseta de Marx ou de Lenin. Mas eu acho que, se uma pessoa traz o Che no peito, com orgulho, para se sentir motivada, para divulgar quem foi Che, para que se vinculem a ele, essa camiseta \u00e9 \u00fatil. A camiseta ajuda a lembrar. Se voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea o Che nas camisetas, n\u00e3o pensa nele.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Para a revolu\u00e7\u00e3o, Che acabou sendo mais importante morto? Como seria se ele estivesse vivo, hoje, com 77 anos?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Penso que ele seria mais importante vivo. N\u00e3o tanto em rela\u00e7\u00e3o a sua import\u00e2ncia, mas ao que poderia fazer de \u00fatil. Ele era um homem com um pensamento em desenvolvimento, com uma capacidade extraordin\u00e1ria de autodid\u00e1tica, com esp\u00edrito de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Estava escrevendo um livro sobre a economia pol\u00edtica do socialismo. Pensava em escrever sobre sua concep\u00e7\u00e3o, do ponto de vista filos\u00f3fico, de como construir uma sociedade socialista para a Am\u00e9rica, que n\u00e3o fosse a mesma da Europa ou da \u00c1sia.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Tinha em mente que, no continente, somos muito parecidos, mas n\u00e3o somos todos cubanos. Hoje, em Cuba, Che representaria uma grande ajuda a Fidel.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Como Che conciliava a vida familiar com a vida revolucion\u00e1ria\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">O mais importante, para ele, era formar uma sociedade mais justa. Quando prenderam um filho de um dos nossos l\u00edderes da independ\u00eancia, Carlos Manoel C\u00e9spedes (primeiro fazendeiro a libertar seus escravos para lutarem contra os espanh\u00f3is), lhe impuseram a condi\u00e7\u00e3o de que abandonasse a luta para o rapaz ser liberto.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">E C\u00e9spedes disse: \u201cN\u00e3o, eu sou o pai de todos os cubanos\u201d \u2013 raz\u00e3o pela qual n\u00f3s o chamamos de Pai da P\u00e1tria. Da mesma forma, se Che tivesse que decidir entre a sua fam\u00edlia e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, ou os interesses da p\u00e1tria, ele decidiria pelos interesses da p\u00e1tria. Mas isso n\u00e3o quer dizer que Che renegasse a fam\u00edlia.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Porque ele queria muito bem \u00e0 sua fam\u00edlia. Mas n\u00e3o no sentido estreito, de sua mulher, de seus filhos. Num sentido mais amplo, com uma confian\u00e7a absoluta na sociedade. Ele sabia que, por sua luta, seus filhos teriam direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, assim como todos os cubanos. Che n\u00e3o se desprende do elemento familiar. N\u00e3o \u00e9 como os inimigos do marxismo dizem, que o marxismo destr\u00f3i a fam\u00edlia. Mas o contr\u00e1rio, a fam\u00edlia \u00e9 a base, \u00e9 a c\u00e9lula da sociedade.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Como Che tratava as crises de asma em meio \u00e0 guerrilha\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Com um tipo de inalador. Quando isso n\u00e3o era poss\u00edvel, Che usava o que os m\u00e9dicos chamam de \u201cmotiva\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias\u201d. Isto \u00e9, na crise, fazia seu corpo reagir a algo maior. Provocava um pequeno corte, para que a infec\u00e7\u00e3o gerasse uma febre e assim sa\u00eda do ataque de asma.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Por que Kabila (l\u00edder da resist\u00eancia anticolonialista congolesa, que em 1997 viria a se tornar presidente da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, ex-Zaire) recusava um encontro com Che?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Na \u00e9poca, n\u00f3s n\u00e3o entend\u00edamos como a \u00c1frica funcionava. S\u00f3 viemos descobrir depois, quando ficamos por 15, 20 anos em Angola. No Congo, come\u00e7amos a enfrentar uma sociedade que n\u00e3o tinha um conceito de na\u00e7\u00e3o, mas um conceito de tribo.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">N\u00e3o que o conceito de na\u00e7\u00e3o possa ser criado artificialmente, como os colonizadores quiseram impor. Mas um povo que queira lutar por sua p\u00e1tria precisa ter um conceito de na\u00e7\u00e3o. Para n\u00f3s, isso n\u00e3o fazia sentido porque n\u00e3o temos tribo, somos uma mistura de espanh\u00f3is, africanos e chineses. N\u00e3o temos \u00edndios.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Eles desapareceram de Cuba. Os espanh\u00f3is n\u00e3o tiveram nem a ideia de fazer uma reserva, como fizeram os estadunidenses, e manter ali alguns \u00edndios para mostrar a todos: \u201cVejam, estes s\u00e3o os homens que eram donos de todas estas coisas que est\u00e3o aqui, e agora n\u00e3o t\u00eam nada\u201d.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Nem isso fizeram os espanh\u00f3is. Chefe do que eles chamavam de \u201cex\u00e9rcito paralelo\u201d, Kabila se encontrou apenas uma vez com Che porque guerrear n\u00e3o fazia parte de sua natureza. N\u00e3o era um homem latino-americano.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">N\u00e3o era como Bol\u00edvar, que dizia: \u201cVamos!\u201d. Nunca houve um l\u00edder africano \u00e0 frente de sua tropa, o que era uma coisa inconceb\u00edvel para um latino, que leva, conduz o povo. Eles n\u00e3o necessitavam nem do contato conosco, n\u00e3o necessitavam da fala, eles mandavam tudo gravado.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Se a guerrilha comandada por Masetti na Argentina tivesse tido \u00eaxito, Che n\u00e3o teria ido ao Congo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Sim, realmente, Che foi ao Congo para esperar que as condi\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica ficassem mais favor\u00e1veis. Fidel lhe ofereceu para ficar em Cuba, mas Che achava que j\u00e1 havia cumprido seu papel com os cubanos e queria ir a outro lugar.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Em 1964, ele havia voltado de uma confer\u00eancia na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, onde denunciou que os capacetes azuis haviam permitido o assassinato de Lumumba (revolucion\u00e1rio congol\u00eas). A meu ver, Che, que admirava Lumumba, se sentiu comprometido com a situa\u00e7\u00e3o e decidiu ir ao Congo pensando que o movimento de Lumumba estivesse mais vertebrado, mas n\u00e3o estava.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>A captura de Ciro Bustos e de R\u00e9gis Debray (na tentativa de sair da \u00e1rea guerrilheira, foram presos pelo Ex\u00e9rcito boliviano) foi preponderante para a desestrutura\u00e7\u00e3o da guerrilha na Bol\u00edvia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">N\u00e3o. N\u00f3s nos vimos sem a base. Com a experi\u00eancia da Sierra Maestra, j\u00e1 sab\u00edamos que o campon\u00eas s\u00f3 se incorpora quando v\u00ea alguma possibilidade de \u00eaxito, e uma forte possibilidade de respaldo. De in\u00edcio, n\u00f3s t\u00ednhamos organizado nossa participa\u00e7\u00e3o na luta boliviana por meio do Partido Comunista, que contava com milhares de militantes jovens dispostos a se engajar na luta.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Mas Monje (ent\u00e3o presidente do Partido Comunista Boliviano) mudou de lado, nos traiu. Che nunca soube se por covardia pol\u00edtica ou pessoal. Ao nos trair, cortou nosso v\u00ednculo com o partido, acabou com a fonte onde \u00edamos nos nutrir para gerar uma guerrilha forte, que Che queria desenvolver por um tempo limitado para poder expandi-la \u00e0 Argentina e ao Peru, onde estavam Bustos e Chino. N\u00e3o por acaso, de \u00d1ancahuaz\u00fa, na Bol\u00edvia, podia se chegar \u00e0 Argentina e ao Peru, pela Cordilheira Oriental dos Andes.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Como foram os quatro meses de desencontros nas selvas da Bol\u00edvia, entre a coluna de Che e a outra em que estavam Joaquim e T\u00e2nia (revolucion\u00e1ria alem\u00e3 argentina)?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Fizemos todo o poss\u00edvel. Che n\u00e3o desistia de achar o grupo de Joaquim. Tanto que ele nos manteve demasiado tempo por ali, mesmo n\u00e3o tendo a inten\u00e7\u00e3o de combater na regi\u00e3o Sul da Bol\u00edvia. Por fim, o Ex\u00e9rcito nos descobriu e fomos obrigados a iniciar o combate ali mesmo.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Originalmente, pens\u00e1vamos em come\u00e7ar a guerrilha na regi\u00e3o Central da Bol\u00edvia, no Chapare, onde havia um campon\u00eas amigo de Inti \u2013 um dos guerrilheiros do grupo de Che \u2013, que organizava os camponeses. Esse campon\u00eas n\u00e3o estava comprometido, mas Inti acreditava que ele se incorporaria.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">T\u00ednhamos, mais ao norte, a possibilidade de que pudessem se incorporar \u00e0 guerrilha os estudantes recrutados na Am\u00e9rica, na Europa, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em Praga, al\u00e9m de um conjunto de estudantes de Cuba.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Se houvesse o encontro entre os dois grupos no dia 31 de agosto de 1967, teria sido mera coincid\u00eancia (eles se desencontraram por quest\u00e3o de horas, estavam em linha reta, a 3 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia).\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Convergimos ao mesmo ponto por coincid\u00eancia. Nosso grupo estava indo para o Chapare. Est\u00e1vamos bem pr\u00f3ximos quando escutamos pelo r\u00e1dio que o grupo de Joaquim combatia mais ao sul. Ent\u00e3o, demos meia volta e nos metemos novamente na zona guerrilheira, atr\u00e1s deles.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Quase os encontramos antes de eles ca\u00edrem na emboscada (em que morreram). S\u00f3 voltamos ao sul na tentativa de encontrar o grupo de Joaquim. Nunca hav\u00edamos previsto ir ao sul porque sab\u00edamos que era mais desprovido de bosques e de \u00e1gua.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Foi s\u00f3 por isso que descemos demais ao sul e se criaram as condi\u00e7\u00f5es para a emboscada do dia 26 de setembro (onde 3 guerrilheiros s\u00e3o mortos), e, depois, para o desfecho de 8 de outubro (quando Che \u00e9 feito prisioneiro e morto, no dia seguinte, junto com outros guerrilheiros).\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Como era T\u00e2nia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Uma mulher excepcional. Suas ra\u00edzes latinas (era argentina, mas passou a juventude na Alemanha) foram de grande ajuda. Ela tinha a tarefa de ir \u00e0 Bol\u00edvia criar condi\u00e7\u00f5es de confiabilidade, at\u00e9 que lhe dessem instru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Houve at\u00e9 um momento em que ela foi um pouco esquecida pela nossa Intelig\u00eancia. A id\u00e9ia de Che era preserv\u00e1-la para que, se necess\u00e1rio, ela pudesse esconder algu\u00e9m em lugar seguro. Mas ela acabou vindo para a guerrilha.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Che tentou tir\u00e1-la de l\u00e1, o que foi imposs\u00edvel, porque ela j\u00e1 havia sido identificada. Assim, se estragou um trabalho de clandestinidade de tr\u00eas anos. T\u00e2nia foi uma revolucion\u00e1ria com grande capacidade de sacrif\u00edcio. Quando lhe disseram para se casar com um boliviano porque fazia falta ela n\u00e3o ter a nacionalidade boliviana, ela se casou.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">E quando disseram que era preciso dar um fora no boliviano porque ela tinha que sair do pa\u00eds, e que ela devia dar um jeito dele entender, ela o convenceu. Ent\u00e3o ela foi \u201cestudar\u201d na Bulg\u00e1ria. Ela era extremamente disciplinada.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Che estaria contente com o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o cubana\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Acho que sim, porque quando ele saiu de Cuba fez uma avalia\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os da revolu\u00e7\u00e3o, e justamente decidiu ir porque chegou \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que o processo era irrevers\u00edvel. De que as massas haviam tomado consci\u00eancia do seu papel de vanguarda, que, para Che, era o partido, era Fidel.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Ele acreditava que a vanguarda precisa formar parte da massa a todo instante, sem ser a massa. Che dizia que esse v\u00ednculo, de t\u00e3o pr\u00f3ximo, deve fazer com que aquele que est\u00e1 \u00e0 frente escute a respira\u00e7\u00e3o de quem vem atr\u00e1s.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Por que Benigno traiu a revolu\u00e7\u00e3o cubana\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Para Benigno, pesou a quest\u00e3o material. Quando ele se foi, o processo revolucion\u00e1rio cubano passava por uma etapa dif\u00edcil, mas n\u00e3o a pior. Os problemas de Cuba n\u00e3o eram graves. Ele tinha uma pequena finca (ch\u00e1cara). N\u00f3s somos guajiros (camponeses), n\u00e3o t\u00ednhamos base cultural, nem intelectual.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Quando voc\u00ea participa de uma luta como essa, come\u00e7am a te dizer que voc\u00ea \u00e9 o m\u00e1ximo e, se voc\u00ea acredita, se equivoca. Benigno deixou isso subir \u00e0 cabe\u00e7a e acreditou que era her\u00f3i. Era, sim, uma pessoa de m\u00e9rito, mas o que fizemos, muitos outros cubanos tamb\u00e9m fizeram. Estiveram na Venezuela, na Col\u00f4mbia, na Guatemala e n\u00e3o ficaram conhecidos.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">O fato de ter participado da epop\u00e9ia em que morreu Che o atingiu. Al\u00e9m disso, ele se casou com uma mulher da Intelig\u00eancia cubana, que falava ingl\u00eas, franc\u00eas. Acho que ela tem um peso nisso porque, se ela fosse firme quando ele lhe prop\u00f4s essas coisas, tendo ela mais capacidade intelectual que ele, ela o influenciaria para o caminho correto. Outro problema \u00e9 que, como camponeses, temos a mente pr\u00f3diga, imaginamos coisas. Benigno acabou publicando um livro fantasioso, mentiroso, em grande parte.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Por que Benigno sustenta que Fidel abandonou Che?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Isso \u00e9 uma maldade. Benigno tem que agradar o imperialismo e, para isso, tem que dizer as coisas que o imperialismo gosta de ouvir. Quando Che foi \u00e0 \u00c1frica, com mais de uma centena de cubanos, Fidel n\u00e3o o abandonou. Quando os africanos consideraram que n\u00e3o era conveniente Che estar ali, e ele saiu de l\u00e1 para Praga, com a Intelig\u00eancia cubana dando apoio todo o tempo, Fidel n\u00e3o o abandonou.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Quando Che decidiu come\u00e7ar a luta na sua p\u00e1tria, Fidel permitiu que ele pegasse vinte e tantos companheiros que haviam estado com ele na Sierra, Fidel n\u00e3o o abandonou. O que acontece \u00e9 que, se Fidel mandasse mais de cem homens \u00e0 Am\u00e9rica Latina, como fez 20 anos depois, mandando um ex\u00e9rcito de 50 mil homens comigo a Angola, a atitude seria vista como interven\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>A guerrilha, hoje, ainda \u00e9 um caminho para a liberta\u00e7\u00e3o dos povos da Am\u00e9rica Latina<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Eu n\u00e3o diria nem que n\u00e3o, nem que sim. Depende das condi\u00e7\u00f5es concretas de cada pa\u00eds e de cada momento. Hoje, \u00e9 muito arriscado o surgimento de um movimento guerrilheiro em qualquer pa\u00eds, com a tecnologia que tem o ex\u00e9rcito inimigo, fundamentalmente o dos Estados Unidos. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel porque existem guerrilhas na Col\u00f4mbia, por exemplo, e mesmo com toda essa tecnologia n\u00e3o conseguiram aniquil\u00e1-la.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>Como o senhor v\u00ea o MST?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">A capacidade organizativa dos sem-terra me impressiona. Eles n\u00e3o podem perder nunca sua convic\u00e7\u00e3o. Depois de assentados, n\u00e3o devem se desvincular do movimento. N\u00e3o importa que voc\u00ea tenha a terra. Por voc\u00ea ter lutado por ela, deve se manter unido, com terra ou sem terra, por solidariedade humana, n\u00e3o digo nem por companheirismo. Isso \u00e9 o que pode unir as pessoas ao Che. Esse amor pelo pr\u00f3ximo que est\u00e1 um pouco mais al\u00e9m dos ditos par\u00e2metros normais, e que lhe deu um conceito superior como ser humano.\u00a0<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\"><strong>O senhor acredita que Ch\u00e1vez vai assumir o papel de Fidel nos pr\u00f3ximos anos?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">O papel de Ch\u00e1vez \u00e9 assumir a dilig\u00eancia do seu povo para depois assumir o mesmo papel sobre o restante do continente. N\u00e3o podemos esquecer que o inimigo de Ch\u00e1vez \u00e9 o pa\u00eds mais poderoso do mundo. E ele tem sabido lidar com a situa\u00e7\u00e3o, solidamente, com o apoio das massas pobres, e tendo ainda que ganhar a classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">O movimento de Ch\u00e1vez \u00e9 novo. Tem a ver com um socialismo distinto, dentro do pluripartidarismo. N\u00f3s, cubanos, somos o farol, mas a Venezuela \u00e9 a esperan\u00e7a do povo do continente e do Terceiro Mundo por seu potencial econ\u00f4mico, por seu tamanho, por ter fronteiras com tantos pa\u00edses que podem irradiar ainda mais aquilo que o Che queria fazer na Bol\u00edvia. Nesse sentido, Ch\u00e1vez tem muito mais vantagens do que n\u00f3s, l\u00e1 no meio do Caribe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Material faz parte da celebra\u00e7\u00e3o de 20 anos do jornal, celebrados em 2023, e integra livro da editora Express\u00e3o Popular<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1255,1037,2046,2051,1355,21,1858,299,2123,1757,777,995,1881,2119,1510,531,739,1114,1586,1005,1179,961,778,18,2159,659,414,999,1331,1188,1951,1187,282,431,384,1614,1010,1244,1042,2150,1772,584,415,960],"class_list":["post-289066","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acoes","tag-acredita","tag-agosto","tag-america-latina","tag-andes","tag-argentina","tag-asia","tag-assassinato","tag-aumento","tag-bolivia","tag-brasil","tag-colombia","tag-conferencia","tag-confianca","tag-desenvolvimento","tag-economia","tag-editora-expressao-popular","tag-educacao","tag-eletricidade","tag-encontro","tag-entrevista","tag-estados","tag-estados-unidos","tag-exercito","tag-familia","tag-filhos","tag-homens","tag-intervencao","tag-ir","tag-jovens","tag-julho","tag-juventude","tag-morte","tag-mst","tag-mulher","tag-nomes","tag-pobres","tag-presidente","tag-projeto","tag-setembro","tag-tecnologia","tag-trabalhadores","tag-trabalho","tag-uniao"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/289066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=289066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/289066\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=289066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=289066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=289066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}