{"id":295086,"date":"2024-10-13T12:06:15","date_gmt":"2024-10-13T12:06:15","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=295086"},"modified":"2024-10-13T12:06:15","modified_gmt":"2024-10-13T12:06:15","slug":"indigenas-fundam-primeira-associacao-warao-na-paraiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=295086","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas fundam primeira associa\u00e7\u00e3o Warao na Para\u00edba"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/08\/25\/indigenas-warao-os-desafios-da-migracao-e-as-dificuldades-da-vida-no-brasil\">comunidade ind\u00edgena Warao<\/a>, que tem origem venezuelana e vive no Brasil desde 2014, tem enfrentado uma s\u00e9rie de desafios desde a pandemia de covid-19. Em meio a dificuldades como a precariedade dos abrigos, a falta de alimentos e a proibi\u00e7\u00e3o de &#8220;permanecerem&#8221; nas ruas, os Warao sofrem tamb\u00e9m com a dificuldade de acesso \u00e0 Justi\u00e7a sem intermedi\u00e1rios, motivada pela dificuldade lingu\u00edstica, conforme relatou uma lideran\u00e7a ind\u00edgena. Al\u00e9m disso, ap\u00f3s o per\u00edodo mais cr\u00edtico da pandemia, a comunidade tem sido duramente afetada por mortes recorrentes de crian\u00e7as, jovens, adultos e idosos na Para\u00edba, agravando ainda mais a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o e buscando construir sua autonomia \u00e9tnica e, assim, um espa\u00e7o para poder se expressar do seu modo sem a interfer\u00eancia nem interm\u00e9dio de agentes p\u00fablicos, como atores sociais, os <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/10\/18\/saiba-mais-sobre-os-indigenas-warao-da-venezuela-que-estao-em-risco-social-no-interior-da-ba\">Warao<\/a> fundaram, no dia 9 de setembro de 2024, Associa\u00e7\u00e3o Dariamo Warao da Para\u00edba, a primeira associa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena Warao do Nordeste, sendo uma das primeiras do Brasil. A entidade, concebida por ind\u00edgenas Warao que residem na Para\u00edba, surge como uma tentativa de garantir a visibilidade e a representatividade da comunidade no cen\u00e1rio pol\u00edtico e social brasileiro.<\/p>\n<p>Segundo o antrop\u00f3logo Jamerson Lucena, membro da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de A\u00e7\u00e3o Indigenista (Ana\u00ed), os primeiros grupos Warao chegaram \u00e0 cidade de Jo\u00e3o Pessoa em agosto de 2019, desde ent\u00e3o, enfrentaram in\u00fameras dificuldades at\u00e9 o final daquele ano. Ap\u00f3s den\u00fancias apresentadas ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), um grupo de atores, incluindo representantes dos governos estadual e municipal, da Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai) e da Pastoral dos Migrantes, se reuniu em 2020 para buscar uma solu\u00e7\u00e3o emergencial para a situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade em que viviam os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Os Warao s\u00e3o origin\u00e1rios da Venezuela, contudo, vivem no Brasil desde os anos de 2014, segundo dados do\u00a0Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados\u00a0(ACNUR). Em mar\u00e7o de 2020, o governo estadual firmou um conv\u00eanio com a A\u00e7\u00e3o Social Arquidiocesana (ASA), institui\u00e7\u00e3o religiosa vinculada \u00e0 Arquidiocese da Para\u00edba, para prestar servi\u00e7os aos ind\u00edgenas. No entanto, esse suporte foi interrompido ap\u00f3s a entidade ser envolvida em esc\u00e2ndalos de fraude envolvendo o padre Eg\u00eddio de Carvalho, seu coordenador, o que comprometeu o aux\u00edlio, j\u00e1 precarizado, que vinha sendo oferecido \u00e0 comunidade Warao.<\/p>\n<p>Desde a chegada dos Warao no Brasil, esses ind\u00edgenas t\u00eam enfrentado in\u00fameras investidas contra sua exist\u00eancia. Na Para\u00edba, os conflitos tamb\u00e9m envolvem as regras r\u00edgidas de abrigamento, que incluem puni\u00e7\u00f5es por n\u00e3o cumprimento, somam-se \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o com a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e pouca assist\u00eancia de sa\u00fade e \u00e0s narrativas preconceituosas que culpabilizam os Warao por problemas como a escassez de alimentos, a precariedade da estrutura f\u00edsica, como problemas el\u00e9tricos, hidr\u00e1ulicos, al\u00e9m dos problemas de sa\u00fade, especialmente envolvendo as crian\u00e7as e, desse modo, vivem sob um regime de tutela.<\/p>\n<p>A sa\u00fade tamb\u00e9m \u00e9 uma \u00e1rea cr\u00edtica. De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.mpf.mp.br\/pb\/sala-de-imprensa\/noticias-pb\/mpf-pede-na-justica-inicio-imediato-de-atendimento-no-sasisus-para-indigenas-warao-refugiados-na-paraiba\/view\">relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio P\u00fablico (MPF)<\/a> \u00a0da Para\u00edba de 2022, em que demanda que a Justi\u00e7a Federal determine \u00e0 Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai) e ao Distrito Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena Potiguara (Dsei) \u00a0que realize o atendimento de sa\u00fade \u00e0s fam\u00edlias ind\u00edgenas venezuelanas da etnia Warao refugiadas na Para\u00edba, o cen\u00e1rio permanece um grande desafio.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos quatro anos, o n\u00famero de mortes, especialmente por causas evit\u00e1veis, tem crescido. J\u00e1 foram registradas 16 mortes, incluindo aquelas por causas evit\u00e1veis, inevit\u00e1veis e de origem desconhecida, afetando idosos, adultos, jovens e crian\u00e7as. Entre essas v\u00edtimas est\u00e3o crian\u00e7as nascidas em territ\u00f3rio nacional, que s\u00e3o brasileiras e paraibanas de etnia Warao, como a beb\u00ea Warao de um ano de idade, falecida em 11 de outubro de 2023 em Jo\u00e3o Pessoa com desnutri\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada, <a href=\"https:\/\/www.brasildefatopb.com.br\/2024\/02\/20\/crianca-indigena-teve-morte-por-inanicao-e-sepse-na-capital-da-paraiba-em-outubro-passado-etnia-relata-cerca-de-dez-criancas-mortas-por-doencas-evitaveis\">fato noticiado, \u00e0 \u00e9poca, por este jornal<\/a>. E no dia 7 de setembro deste ano faleceu no hospital infantil Arlinda Marques a beb\u00ea chamada Berenicia Perez de apenas tr\u00eas meses com hist\u00f3rico de subnutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, enquanto permanecem na Para\u00edba, os ind\u00edgenas Warao enfrentam um processo de silenciamento, frequentemente atribu\u00eddo \u00e0 barreira lingu\u00edstica, j\u00e1 que muitos ainda n\u00e3o dominam a l\u00edngua portuguesa. Por conta disso, suas demandas e reivindica\u00e7\u00f5es t\u00eam sido, por muito tempo, mediadas por outras pessoas. O que demonstra a necessidade por int\u00e9rpretes tradutores, tanto de espanhol quanto da l\u00edngua materna chamada Warao.\u00a0<\/p>\n<p>Contudo, alguns avan\u00e7os come\u00e7aram a surgir, como a inser\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as no sistema de educa\u00e7\u00e3o municipal e a cria\u00e7\u00e3o de uma equipe t\u00e9cnica do governo estadual para dar assist\u00eancia aos ind\u00edgenas, al\u00e9m do surgimento de uma equipe de sa\u00fade municipal para atend\u00ea-los. No entanto, de acordo com a lideran\u00e7a e presidente da Associa\u00e7\u00e3o, Ram\u00f3n Qui\u00f1onez, eles sempre buscaram autonomia e que tivessem participa\u00e7\u00e3o efetiva nos projetos e a\u00e7\u00f5es: &#8220;N\u00f3s queremos criar nossas assembleias, nossos conselhos&#8230; conselho ind\u00edgena de anci\u00e3os, de mulheres, sobre sa\u00fade Warao, sobre educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, sobre artesanatos, sobre nossos direitos.&#8221; Os Warao s\u00e3o sujeitos de direito como ind\u00edgenas e, dependendo do status legal acionado, como refugiados e migrantes.<\/p>\n<p>Ram\u00f3n Qui\u00f1onez ressalta: &#8220;Precisamos despertar e, atrav\u00e9s da nossa pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o Dariamo Warao da Para\u00edba, queremos garantir o nosso modo de trabalhar para progredir. Somos seres humanos, com nossa pr\u00f3pria capacidade de pensar e atuar de acordo com o nosso conhecimento e forma de trabalho Warao&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a cria\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o ser\u00e1 apenas um instrumento de constru\u00e7\u00e3o de autonomia, mas tamb\u00e9m de fiscaliza\u00e7\u00e3o dos recursos destinados a garantir os direitos da comunidade. Segundo Jamerson Lunena, &#8220;a associa\u00e7\u00e3o permitir\u00e1 que os Warao tenham assento em conselhos importantes, como o Conselho Municipal de Sa\u00fade, e em outros espa\u00e7os onde suas vozes poder\u00e3o ser ouvidas&#8221;. \u00a0Assim, mais do que um s\u00edmbolo de resist\u00eancia, a associa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena surge como um instrumento de luta pela defesa e promo\u00e7\u00e3o dos direitos \u00e9tnicos dos Warao, representando um passo crucial na garantia de sua autonomia e dignidade no Brasil. Os Warao esperam fortalecer sua luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e por reconhecimento de seus direitos, apesar dos obst\u00e1culos que ainda persistem.<\/p>\n<p><em>*Bet\u00e2nia\u00a0Zarzuela<\/em><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>Avelar \u00e9 mulher afroamer\u00edndia, amaz\u00f4nida, cin\u00e9fila, produtora cultural e militante ambientalista. Graduou-se em Comunica\u00e7\u00e3o Social, pela UNIRON (2007) e Ci\u00eancias Sociais pela UNIR (2018), mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Para\u00edba. Coordenou atividades de cineclubismo no Cine Gaia, em Rond\u00f4nia, e assessorou projetos de Educomunica\u00e7\u00e3o, Cultura e Gest\u00e3o Ambiental em comunidades no campo e cidade pela ONG Instituto India-Amaz\u00f4nia. Desenvolveu a\u00e7\u00f5es como produtora cultural no Sesc Rond\u00f4nia de 2017 a 2021 onde respondeu pelas linguagens de Artes Visuais, Audiovisual, Arte e Educa\u00e7\u00e3o e coordena o Programa Ecos Sesc\/RO. \u00c9 membro do GPA \u2013 Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde e no LaBia \u2013 Laborat\u00f3rio Did\u00e1tico e Geogr\u00e1fico de Ensino, Pesquisa e Extens\u00e3o Beatriz Nascimento. Atualmente faz doutorado em Antropologia na Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB), onde pesquisa performatividades da identidade &#8220;beradera&#8221; em Porto Velho (RO).<\/p>\n<p>**Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do jornal <strong>Brasil de Fato<\/strong>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A entidade surge como uma tentativa de garantir a visibilidade da comunidade no cen\u00e1rio pol\u00edtico e social brasileiro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1554,1255,2046,389,452,516,492,1548,777,1229,476,1376,259,1381,2223,1114,1748,365,1493,1188,1806,292,462,313,384,265,1055,289,1244,1953,1326,1308,1562,1718,1115,605,2150,415],"class_list":["post-295086","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-1554","tag-acoes","tag-agosto","tag-alimentos","tag-amazonia","tag-antropologia","tag-arte","tag-audiovisual","tag-brasil","tag-comunicacao","tag-conflitos","tag-covid-19","tag-cultura","tag-dados","tag-desafios","tag-educacao","tag-familias","tag-funai","tag-governo","tag-jovens","tag-justica","tag-laboratorio","tag-marco","tag-mpf","tag-mulher","tag-mulheres","tag-pandemia","tag-pesquisa","tag-presidente","tag-projetos","tag-punicoes","tag-recursos","tag-regras","tag-relatorio","tag-saude","tag-servicos","tag-setembro","tag-trabalho"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/295086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=295086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/295086\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=295086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=295086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=295086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}