{"id":304672,"date":"2024-10-19T17:36:37","date_gmt":"2024-10-19T17:36:37","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=304672"},"modified":"2024-10-19T17:36:37","modified_gmt":"2024-10-19T17:36:37","slug":"em-tempos-de-retracao-do-investimento-em-diversidade-e-inclusao-esg-e-para-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=304672","title":{"rendered":"Em tempos de retra\u00e7\u00e3o do investimento em diversidade e inclus\u00e3o: ESG \u00e9 para quem?\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos observamos uma onda de demiss\u00f5es nos cargos de diversidade e inclus\u00e3o, especialmente em Big Techs como Twitter, Amazon, Meta e Redfin. De acordo com o Instituto de Identidades Brasil (IDBR), em pesquisa realizada neste ano, essas demiss\u00f5es, embora chamem a aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o refletem necessariamente o cen\u00e1rio brasileiro, onde h\u00e1 uma tend\u00eancia de se trabalhar a diversidade e inclus\u00e3o de maneira mais integrada e interseccional. O relat\u00f3rio do IDBR destaca que n\u00e3o podemos generalizar o cen\u00e1rio estadunidense e que muitas empresas no Brasil est\u00e3o apenas come\u00e7ando a implementar essas a\u00e7\u00f5es agora, em um processo ainda incipiente. Um dado interessante apontado pelo estudo \u00e9 a crescente liga\u00e7\u00e3o dessa pauta com pr\u00e1ticas ambientais.\u00a0<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, em que as medidas de diversidade e inclus\u00e3o ainda nem sequer foram de fato implementadas adequadamente, surge a quest\u00e3o: para quem, afinal, ser\u00e1 esse ESG (sigla em ingl\u00eas para Ambiental, Social e Governan\u00e7a)? Essa sigla, que deveria representar o comprometimento das empresas com quest\u00f5es ambientais, sociais e de governan\u00e7a, parece ter se tornado mais uma grande pauta discursiva do que uma pr\u00e1tica transformadora. Em pleno 2024, a necessidade de repensar a diversidade dentro das corpora\u00e7\u00f5es deveria ser uma quest\u00e3o j\u00e1 superada, consolidada como parte integral da estrutura empresarial. No entanto, o que presenciamos atualmente, de forma mais ampla, \u00e9 uma retra\u00e7\u00e3o nos investimentos nessas \u00e1reas, revelando o quanto essas pautas ainda s\u00e3o tratadas de maneira superficial.<\/p>\n<p>Diante disso, at\u00e9 que ponto os investimentos em diversidade e inclus\u00e3o t\u00eam realmente promovido mudan\u00e7as estruturais? Com frequ\u00eancia, esses departamentos s\u00e3o vistos como meros ap\u00eandices nas empresas, recebendo or\u00e7amentos limitados e pouca autonomia para propor inova\u00e7\u00f5es e tomar decis\u00f5es. Tal pr\u00e1tica exp\u00f5e a inconsist\u00eancia das empresas em sua pretensa busca por um ambiente corporativo mais plural. Para os consumidores, essa \u201cdiversidade\u201d muitas vezes n\u00e3o se reflete em uma vis\u00e3o abrangente, n\u00e3o \u00e9 considerado a pluralidade dos pr\u00f3prios consumidores e suas necessidades, muito menos o impacto das marcas nos territ\u00f3rios onde est\u00e3o inseridas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, setores empresariais como a minera\u00e7\u00e3o, agricultura e pecu\u00e1ria, cujas atividades impactam diretamente o meio ambiente e as comunidades ao redor, revelam baix\u00edssima considera\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o do que de fato s\u00e3o esses territ\u00f3rios. Nesse cen\u00e1rio, o ESG, que deveria ser um guia para pr\u00e1ticas respons\u00e1veis e sustent\u00e1veis, corre o risco de ser reduzido a uma moda de mercado, sem se comprometer verdadeiramente com as mudan\u00e7as sociais necess\u00e1rias. A redu\u00e7\u00e3o de cargos voltados para diversidade e inclus\u00e3o reflete uma diminui\u00e7\u00e3o direta no impacto que essas iniciativas podem gerar. Isso nos leva a perguntar: n\u00e3o estar\u00edamos testemunhando a fal\u00e1cia capitalista da \u201cteoria da pir\u00e2mide\u201d, onde a inclus\u00e3o de algumas poucas pessoas em posi\u00e7\u00f5es de destaque deveria, supostamente, repercutir em toda a estrutura, mas de fato n\u00e3o o faz?<\/p>\n<p>O que parece ter trazido mudan\u00e7as mais efetivas para as comunidades e seus territ\u00f3rios, e que tem se intensificado nos \u00faltimos anos em nosso pa\u00eds, s\u00e3o os protocolos de consulta livre, pr\u00e9via e informada. Esses protocolos, realizados de forma horizontal, permitem que as comunidades definam a maneira pela qual desejam ser consultadas, baseando-se em seus pr\u00f3prios pontos de vista, defendendo seus territ\u00f3rios, conhecimentos tradicionais e ancestralidade. Essa din\u00e2mica imp\u00f5e \u00e0s empresas a necessidade de lidar n\u00e3o apenas com o fator racial, mas tamb\u00e9m com o meio ambiente, de forma mais respeitosa, j\u00e1 que os povos tradicionais mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o \u00fanica e sustentada com a natureza.<\/p>\n<p>A defesa dessa biointera\u00e7\u00e3o \u00fanica \u00e9, de fato, uma forma disruptiva de exigir mudan\u00e7as. Apoiar as comunidades e atuar na mitiga\u00e7\u00e3o dos danos causados por empresas revela-se uma das poucas posturas que, de fato, podem gerar um impacto positivo no planeta, j\u00e1 que os territ\u00f3rios dos povos tradicionais s\u00e3o justamente os que mais preservam os biomas. Confluir com os saberes tradicionais pode trazer frutos promissores para empresas que querem praticar o ESG, integrando povos racializados e adotando novas pr\u00e1ticas que substituam a\u00e7\u00f5es predat\u00f3rias e insustent\u00e1veis em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 justamente nessa tentativa que muitas vezes ca\u00edmos no fen\u00f4meno do greenwashing, com o mercado correndo para apenas aparentar ser verde e inclusivo. Um exemplo claro disso \u00e9 a cr\u00edtica contundente feita por lideran\u00e7as ind\u00edgenas ao mercado de cr\u00e9ditos de carbono, como a orienta\u00e7\u00e3o da Funai para que as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas n\u00e3o participassem de negocia\u00e7\u00f5es envolvendo a comercializa\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos em terras ind\u00edgenas. Muitas lideran\u00e7as tamb\u00e9m se manifestaram alertando que &#8220;nossas florestas n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 venda&#8221;. Apesar disso, empresas como a Amazon j\u00e1 iniciaram tratativas envolvendo cr\u00e9ditos de carbono, muitas vezes sem a devida consulta \u00e0s comunidades origin\u00e1rias de tal territ\u00f3rio, como evidenciado no Par\u00e1. Essas negocia\u00e7\u00f5es, conduzidas sem ouvir os povos origin\u00e1rios, refor\u00e7am a necessidade de repensar o ESG e suas pr\u00e1ticas, que, longe de atender \u00e0s reais demandas das comunidades, perpetuam a l\u00f3gica capitalista de explora\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios sem considera\u00e7\u00e3o pelas vidas que neles habitam.\u00a0<\/p>\n<p>Para que o ESG seja uma ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio pensar muito al\u00e9m das m\u00e9tricas ambientais, considerando tamb\u00e9m as popula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o dentro do territ\u00f3rio. O ser humano \u00e9 parte integral do ambiente, e desconsiderar a qualidade de vida e a cosmopol\u00edtica das pessoas impactadas pelos empreendimentos \u00e9 desconsiderar o pr\u00f3prio cerne do ESG. A pergunta, ent\u00e3o, permanece: ESG para quem? Se n\u00e3o pensarmos nas popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas e tradicionais, aquelas mais afetadas pela injusti\u00e7a clim\u00e1tica, n\u00e3o estaremos praticando uma responsabilidade social, mas apenas perpetuando velhas pr\u00e1ticas sob um novo disfarce.<\/p>\n<p><em>*Jade Alc\u00e2ntara Lobo \u00e9 pesquisadora, ativista e escritora baiana, doutoranda em Antropologia Social na UFSC e certificada pelo Afro-Latin American Research Institute at Harvard University. Mestre em Antropologia pela UFBA e graduada pela UNILA, possui experi\u00eancia em rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, povos tradicionais e cosmopol\u00edticas afroind\u00edgenas. Atua como perita judicial, \u00e9 a autora do livro *&#8221;Para Al\u00e9m da Imigra\u00e7\u00e3o Haitiana: Racismo e Patriarcado como Sistema Internacional&#8221;*, criadora e editora da *Revista Od\u00f9*, e foi coordenadora de pesquisa no IDAFRO.<\/em><\/p>\n<p><em>**Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ESG, que deveria ser um guia para pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis, corre o risco de ser reduzido a uma moda de mercado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1255,1111,1849,516,2040,777,705,925,1897,525,1749,667,1099,1358,365,1375,1288,894,1632,1623,2282,1212,1505,824,289,721,273,2198,1718,1784,2124],"class_list":["post-304672","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-acoes","tag-agricultura","tag-amazon","tag-antropologia","tag-big-techs","tag-brasil","tag-consulta","tag-consumidores","tag-demissoes","tag-diversidade","tag-empreendimentos","tag-empresas","tag-estudo","tag-exploracao","tag-funai","tag-investimento","tag-investimentos","tag-meio-ambiente","tag-mercado","tag-meta","tag-mineracao","tag-mudancas","tag-para","tag-pecuaria","tag-pesquisa","tag-previa","tag-racismo","tag-reducao","tag-relatorio","tag-retracao","tag-venda"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/304672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=304672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/304672\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=304672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=304672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=304672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}