{"id":310684,"date":"2024-10-24T13:16:35","date_gmt":"2024-10-24T13:16:35","guid":{"rendered":"http:\/\/avozdocerrado.com\/?p=310684"},"modified":"2024-10-24T13:16:35","modified_gmt":"2024-10-24T13:16:35","slug":"na-cidade-mais-rica-do-pais-mais-da-metade-da-populacao-vive-com-inseguranca-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdocerrado.com\/?p=310684","title":{"rendered":"Na cidade mais rica do pa\u00eds, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o vive com inseguran\u00e7a alimentar"},"content":{"rendered":"<p>Brasil de Fato<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/10\/16\/sao-paulo-nao-pode-admitir-uma-fome-desse-tamanho-protesta-manifestante-no-dia-mundial-da-alimentacao\">inseguran\u00e7a alimentar em S\u00e3o Paulo<\/a>, t\u00e3o evidente nos bairros perif\u00e9ricos, ressoa com a realidade retratada em \u201cQuarto de Despejo\u201d, de Carolina Maria de Jesus. Assim como nos anos 50, quando a autora narra sua luta di\u00e1ria para alimentar seus filhos em meio \u00e0 pobreza e ao descaso, hoje muitos habitantes da cidade ainda enfrentam a escassez de alimentos e o aumento dos pre\u00e7os, refletindo uma desigualdade persistente.\u00a0<\/p>\n<p>As descri\u00e7\u00f5es v\u00edvidas de Carolina sobre a necessidade de sobreviver em um ambiente hostil, no qual n\u00e3o tinha acesso \u00e0 comida, continuam a ecoar nas vozes das fam\u00edlias que, sem acesso a uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada, se veem aprisionadas em um ciclo de vulnerabilidade. A luta pela dignidade e pelo <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/15\/relator-da-onu-sobre-direito-a-alimentacao-pede-fim-do-bloqueio-dos-eua-contra-a-venezuela\">direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o<\/a> \u00e9 uma realidade que, apesar do tempo, n\u00e3o perdeu sua urg\u00eancia.<\/p>\n<p>Com o compromisso de denunciar os<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/04\/05\/artigo-direito-a-alimentacao-escolar-em-tempos-de-pandemia\"> dados da fome em S\u00e3o Paulo<\/a>, no \u00faltimo dia 20 de setembro foi divulgado o Inqu\u00e9rito sobre a situa\u00e7\u00e3o alimentar no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, um estudo in\u00e9dito articulado pelo Conselho Municipal de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional de S\u00e3o Paulo (Comusan-SP), o Observat\u00f3rio de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional da Cidade de S\u00e3o Paulo (Obsan-PA) e pesquisadores das Unifesp e UFABC.<\/p>\n<p>O levantamento divulgou dados que, apesar de n\u00e3o serem novidade, n\u00e3o deixam de ser chocantes: \u201cEm 2024, pouco mais da metade da popula\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo (5,8 milh\u00f5es de pessoas) residia em domic\u00edlios submetidos \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar, ou seja, preocupavam-se com a disponibilidade de alimentos no futuro pr\u00f3ximo e que mudaram a qualidade da alimenta\u00e7\u00e3o, reduziram a variedade dos alimentos, diminu\u00edram o tamanho das por\u00e7\u00f5es, pularam refei\u00e7\u00f5es, sentiram fome ou ficaram um dia inteiro sem comer&#8221;.<\/p>\n<p>O question\u00e1rio aplicado avaliava o n\u00edvel de acesso dos domic\u00edlios entrevistados a alimentos atrav\u00e9s da Escala Brasileira de Inseguran\u00e7a Alimentar (EBIA), composta por oito quest\u00f5es que podiam ser respondidas com \u201csim\u201d, \u201cn\u00e3o\u201d ou \u201cn\u00e3o sei responder\u201d. S\u00e3o elas:<\/p>\n<p><em>Nos \u00faltimos tr\u00eas meses:<\/em><\/p>\n<p><em>1. Os moradores deste domic\u00edlio tiveram a preocupa\u00e7\u00e3o de que os alimentos acabassem antes de poderem comprar ou receber mais comida<br \/>\n2. Os alimentos acabaram antes que os moradores deste domic\u00edlio tivessem dinheiro para comprar mais comida<br \/>\n3. Os moradores deste domic\u00edlio ficaram sem dinheiro para ter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e variada<br \/>\n4. Os moradores deste domic\u00edlio comeram apenas alguns poucos tipos de alimentos que ainda tinham, porque o dinheiro acabou?<br \/>\n5. Algum morador deixou de fazer alguma refei\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o havia dinheiro para comprar comida<br \/>\n6. Algum morador, alguma vez, comeu menos do que achou que devia, porque n\u00e3o havia dinheiro para comprar comida<br \/>\n7. Algum morador , alguma vez sentiu fome, mas n\u00e3o comeu, porque n\u00e3o havia dinheiro para comprar comida8. Algum morador, alguma vez, fez apenas uma refei\u00e7\u00e3o ao dia ou ficou um dia inteiro sem comer porque n\u00e3o havia dinheiro para comprar comida<\/em><\/p>\n<p>O n\u00edvel de acesso aos alimentos \u00e9 medido com base na quantidade de respostas positivas do entrevistado. Caso este tenha respondido \u201csim\u201d a nenhuma quest\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o se caracteriza por \u201cseguran\u00e7a alimentar\u201d. 1 a 3 respostas positivas equivalem a \u201cinseguran\u00e7a alimentar leve\u201d; de 4 a 5, \u201cinseguran\u00e7a alimentar moderada\u201d; e de 6 a 8, \u201cinseguran\u00e7a alimentar grave\u201d (considerada estado de fome pelo IBGE). A medi\u00e7\u00e3o do acesso aos alimentos nos domic\u00edlios brasileiros atrav\u00e9s do EBIA \u00e9 uma ferramenta de humaniza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da fome, indo al\u00e9m da medi\u00e7\u00e3o estat\u00edstica abstrata, tentando compreender esse fen\u00f4meno de maneira mais complexa e sua maneira multifatorial de incid\u00eancia nos sujeitos.<\/p>\n<p>Com base nas defini\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m do IBGE que foram adotadas pela pesquisa, o estado de seguran\u00e7a alimentar se d\u00e1 quando \u201ca fam\u00edlia tem acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais\u201d. A inseguran\u00e7a alimentar leve se d\u00e1 quando \u201ch\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o ou incerteza quanto ao acesso do alimento no futuro; qualidade inadequada dos alimentos resultante de estrat\u00e9gias que visam n\u00e3o comprometer a quantidade dos alimentos\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Na faixa da inseguran\u00e7a alimentar moderada: \u201ch\u00e1 redu\u00e7\u00e3o na quantidade de alimentos e\/ou ruptura nos padr\u00f5es alimentares de alimenta\u00e7\u00e3o resultante da falta de alimentos\u201d. J\u00e1 a inseguran\u00e7a alimentar grave, caracteriza-se pela \u201credu\u00e7\u00e3o quantitativa de alimentos, ruptura dos padr\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o resultante da falta de alimentos entre todos os moradores. Nessa situa\u00e7\u00e3o, a fome passa a ser uma experi\u00eancia vivida no domic\u00edlio\u201d.<\/p>\n<p>Dados que chamam aten\u00e7\u00e3o na pesquisa:<\/p>\n<p>Pouco menos da metade da popula\u00e7\u00e3o (49,5%) do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo residia em domic\u00edlios em seguran\u00e7a alimentar;<br \/>\n50,5% (5,8 milh\u00f5es de pessoas) estavam em algum grau de IA (24,5% leve; 13,5% moderada; 12,5% grave);<br \/>\nOs 12,5% de domic\u00edlios em estado de inseguran\u00e7a alimentar grave (1,4 milh\u00f5es de pessoas) correspondem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o total da cidade de Goi\u00e2nia e \u00e9 3 vezes maior que a m\u00e9dia nacional;<br \/>\nApesar dos dados gritantes, a metodologia da pesquisa se deu em uma amostragem por domic\u00edlios, ou seja, isso n\u00e3o contabiliza a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua da cidade, estimada em mais de 80 mil pessoas;<br \/>\nApesar de a inseguran\u00e7a alimentar se distribuir de maneira desigual pelos bairros ricos e pobres da cidade, foi detectada a ocorr\u00eancia de inseguran\u00e7a alimentar grave (fome) em todas as zonas e subzonas da cidade delimitadas pelo estudo, o que evidencia desigualdades internas nas diferentes \u00e1reas do munic\u00edpio. Ainda assim, as \u00e1reas perif\u00e9ricas, juntamente com o \u201cCentro\u201d, apresentam maiores propor\u00e7\u00f5es de domic\u00edlios em inseguran\u00e7a alimentar grave;<br \/>\nEm uma sociedade atravessada pelas quest\u00f5es raciais e de g\u00eanero, as situa\u00e7\u00f5es alimentares dos domic\u00edlios s\u00e3o determinadas pelo sexo (g\u00eanero) e pela cor (ra\u00e7a) da pessoa de refer\u00eancia do domic\u00edlio. Nos domic\u00edlios chefiados por mulheres pretas, apenas 33,6% estavam em seguran\u00e7a alimentar, enquanto 17,5% estavam submetidos \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar grave (fome). Nos domic\u00edlios chefiados por homens brancos, a propor\u00e7\u00e3o de domic\u00edlios em inseguran\u00e7a alimentar (41,1%) era 1,6 vezes menor e em inseguran\u00e7a alimentar grave (fome) era 2,1 vezes menor (8,1%) do que nos domic\u00edlios que tinham uma mulher preta como refer\u00eancia;<br \/>\nNo munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, mesmo uma renda domiciliar per capita superior a 2 sal\u00e1rios m\u00ednimos n\u00e3o significa garantia de seguran\u00e7a alimentar;<br \/>\nApesar da informalidade e instabilidade no trabalho estarem associadas a \u00edndices maiores de inseguran\u00e7a alimentar grave, mesmo na faixa de assalariados registrado, apenas 57,8% dos entrevistados estavam em situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar;<br \/>\nA escolaridade tamb\u00e9m n\u00e3o constitui garantia de seguran\u00e7a alimentar, sendo que 48,5% dos domic\u00edlios em inseguran\u00e7a alimentar eram chefiados por algu\u00e9m que havia cursado o ensino m\u00e9dio;<br \/>\nAo todo, 21,1% dos domic\u00edlios recorreram a empr\u00e9stimos para comprar alimentos; 18,9% deixaram de comprar alimentos para pagar contas; 7,8% deixaram de comprar alimentos para pagar a passagem de trem, \u00f4nibus ou metr\u00f4.<br \/>\nO inqu\u00e9rito refor\u00e7a o que j\u00e1 nos alertava Josu\u00e9 de Castro, que entendeu a fome n\u00e3o enquanto um fen\u00f4meno pontual, regional ou at\u00edpico. Na cidade mais rica do pa\u00eds, vemos que a fome \u00e9 produzida n\u00e3o pela escassez de alimentos, mas pela sua priva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno natural e insuper\u00e1vel, \u00e9 um fen\u00f4meno social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico, um fen\u00f4meno multifatorial; e ao contr\u00e1rio do que podemos crer, n\u00e3o se concentra exclusivamente nos estados mais pobres do Nordeste, nem nas regi\u00f5es rurais, n\u00e3o \u00e9 culpa da seca ou de intemp\u00e9ries, mas se relaciona ao modelo de emprego e renda das nossas cidades e ao sistema e \u00e0 maneira como ele funciona.\u00a0<\/p>\n<p>O que o estudo nos mostra \u00e9 que na cidade de S\u00e3o Paulo a fome n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 regra, considerando que ao menos 1 em cada 10 habitantes do munic\u00edpio se encontra em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar.\u00a0<\/p>\n<p>Os resultados nos revelam, portanto, a urg\u00eancia de pautarmos um Projeto Popular para o Brasil, no qual a soberania alimentar seja um dos pilares principais para a garantia de pol\u00edticas p\u00fablicas estruturantes em rela\u00e7\u00e3o ao combate \u00e0 fome. \u00c9 crucial que sejam implementadas iniciativas que assegurem o acesso \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de alimentos de forma justa e soberana, al\u00e9m de garantia de direitos essenciais para a popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Isso inclui o fortalecimento da agricultura familiar, o fomento \u00e0s cozinhas populares e a produ\u00e7\u00e3o local, gera\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de renda, consolidando assim um projeto cujo objetivo central \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o da fome atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p><em>*Luiza Troccoli e Raquel Almeida s\u00e3o militantes do Movimento Brasil Popular<\/em><\/p>\n<p><em>**Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o. A vis\u00e3o do autor n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do <strong>Brasil de Fato.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao menos 1 em cada 10 habitantes da cidade de S\u00e3o Paulo se encontra em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"Default","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[1111,1300,723,389,1556,2123,777,2236,1381,1385,626,961,1099,2159,1748,659,741,385,414,1604,110,1106,410,1067,384,265,1687,289,1100,1010,1703,852,1097,1042,2198,549,1009,2137,136,1999,1983,740,2150,848,415],"class_list":["post-310684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-agricultura","tag-agricultura-familiar","tag-alimentacao","tag-alimentos","tag-assalariados","tag-aumento","tag-brasil","tag-cidades","tag-dados","tag-dinheiro","tag-emprego","tag-estados","tag-estudo","tag-familia","tag-familias","tag-filhos","tag-fome","tag-genero","tag-homens","tag-ia","tag-ibge","tag-informalidade","tag-levantamento","tag-mais-pobres","tag-mulher","tag-mulheres","tag-onibus","tag-pesquisa","tag-pesquisadores","tag-pobres","tag-precos","tag-producao","tag-producao-local","tag-projeto","tag-reducao","tag-renda","tag-ricos","tag-salarios","tag-sao-paulo","tag-seca","tag-seguranca","tag-seguranca-alimentar","tag-setembro","tag-soberania","tag-trabalho"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/310684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=310684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/310684\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=310684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=310684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avozdocerrado.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=310684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}