Ex-aliado de Bolsonaro, Otoni de Paula critica cultura de ódio e se arrepende: ‘Não parecia um pastor, parecia um louco’
Em vídeo, deputado reflete sobre a desumanização na política, em um momento que um antigo post de Flávio Bolsonaro sobre a saúde de presos volta a circular, agora em referência ao ex-presidente.
Em um cenário político marcado pela polarização, o deputado federal e pastor Otoni de Paula (MDB-RJ), um antigo aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, publicou um vídeo em suas redes sociais com uma forte crítica à cultura de ódio que, segundo ele, ‘contaminou a política, as relações pessoais e até a fé’. A publicação ganha especial relevância no momento em que um antigo post do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de 2017, ressurge, gerando comparações com a atual situação de seu pai, preso e com a saúde debilitada.
No vídeo, Otoni de Paula afirma que ‘o Brasil atravessou anos em que o ódio virou método e a desumanização passou a ser normalizada’. Sem citar nomes, o deputado reflete sobre as consequências dessa postura: ‘Quando a falta de misericórdia vira regra, ela não poupa ninguém quando o cenário se inverte’. A fala é vista como uma alusão direta ao caso de Flávio Bolsonaro, que em 2017 ironizou políticos presos que alegavam problemas de saúde, sugerindo a criação de ‘cemitérios ao lado das carceragens da Polícia Federal para que o Estado gaste menos com o transporte dos corpos’ .
Atualmente, com Jair Bolsonaro preso e enfrentando problemas de saúde, a antiga publicação de seu filho tem sido amplamente compartilhada como um exemplo da ‘inversão de cenário’ mencionada por Otoni de Paula. O ex-presidente, que cumpre pena por sua participação em uma trama golpista, sofreu recentemente um traumatismo craniano leve após um acidente na cela e, segundo seu filho Carlos Bolsonaro, está ‘cada dia pior’ e fazendo uso de antidepressivos .
Otoni de Paula, que já foi vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara, tem demonstrado um progressivo distanciamento do bolsonarismo. Em um discurso recente na tribuna da Câmara, o deputado expressou profundo arrependimento por sua postura anterior. ‘Me arrependo quando gritei mito num lugar onde só deveria cultuar o Senhor. A culpa nunca foi de Bolsonaro. A culpa foi minha mesmo’, declarou, segundo o jornal O Globo .
O parlamentar também fez uma autocrítica contundente sobre seu próprio comportamento: ‘Estou envergonhado, porque não parecia um pastor. Parecia um louco, que acha que tudo se resolve na bala e no tiro’. Em seu discurso, ele mencionou ter pregado que ‘bandido tem que morrer’ e negado a existência do racismo, posicionamentos dos quais agora se diz arrependido .
O vídeo e as declarações de Otoni de Paula marcam um ponto de inflexão em sua trajetória política e servem como um sintoma do reordenamento de forças no campo da direita brasileira. A crítica à desumanização e o apelo por uma ‘justiça com compaixão’ ecoam em um momento em que as consequências do discurso de ódio se manifestam de forma irônica e contundente, atingindo até mesmo aqueles que um dia o propagaram.